domingo, 9 de junho de 2024

Gengis Khan e a Formação do Mundo Moderno Império Mongol Tribos Nômades versus Mundo Tamerlão ou Timur ou Timurlenk Jack Weatherford John Darwin

 INÍCIO:

Gengis Khan nasceu em meio a um mundo perturbado pelo caos e pela guerra, que incluia assassinatos, sequestros, escravização e guerras sem fim. Ainda adolesceente, matou seu meio-irmão mais velho. Já adulto, foi feito prisioneiro pela tribo Tayichiud. Temujin, futuro Gengis Khan, nasceu no século XII, em 1162. às margens do rio Onon, na atual Mongólia. Sua mãe, Hoelu, tinha sido sequestrada pelo seu pai Yesugei. 

SOCIEDADE DE CLÃS:

O Clã de Temujin era o Borijin, que era o de seu pai. Os Borijin estavam ligados a um clã maior, os Tayichiud. Quando o pai de Temujin morreu, a sua família foi largada a vagar sozinha pela estepe, pois não havia nenhum homem disposto a assumir a sua mãe em casamento. Na tradição da estepe, o meio-irmão mais velho de Temujin, Begter, fruto do casamento de seu pai com uma outra mulher, poderia se casar com sua mãe, Hoelu. Mas Temujin e Begter não se davam bem. Temujin não aceitava receber ordens de seu meio-irmão. Ver sua mãe casando-se com seu meio-irmão pressagiava um futuro tenebroso para Temujin, razão pela qual ele o assassinou. Ao saber que Temujin, ajudado pelo seu irmão mais novo, tinha matado Begter, Hoelu disse-lhes: "Vocês não têm outra companhia além das próprias sombras." Num primeiro momento, a professia de sua mãe se concretizou. Em razão desse crime, Temujin foi feito prisioneiro pelo clã Tayichiud. Amarraram uma canga de boi em Temujin, de forma que ele não podia beber nem se alimentar sem ajuda. No fim, a sorte sorriu para Temujin, na forma de uma família que o ajudou a fugir do cativeiro.

TEMUJIN LIVRE E CASADO

Depois de fugir do seu cativeiro, Temujin casou-se com Borte. Na sequência, foi procurar emprego com um velho amigo de seu pai, Torghil, da Tribo Kereyid. Ali, Temujin se reencontrou com Jamuka, do clã Jadaran. Temujin e Jamuka não eram parentes consanguíneos ou afins. Mas eram irmãos cerimoniais, uma espécie de parentesco nascido por meio de uma cerimônia, no qual duas pessoas prestavam um juramento, havendo ainda a troca de roupas entre elas, numa forma de compartilhar o cheiro delas, pois acreditavam que o cheiro era parte da alma de uma pessoa. 

Eterno Céu Azul

CRENÇA MONGOL:

Os mongóis acreditavam que o cheiro de uma pessoa era parte de sua alma. Os mongóis eram animistas, adorando espíritos à sua volta. Os espíritos estavam nas montanhas, nos rios, etc. Quando Temujin buscou refúgio Montanha Burkhan Khaldun, ele passou a vê-la como um espírito que o tinha ajudado a escapar de seus inimigos. Essa montanha passaria a ser a fonte de sua força. Os mongóis ainda cultuavam o Eterno Céu Azul. Quando Gengis Khan conquistou a cidade de Bucara, na Ásia Central, levaram-no a visitar uma Mesquita, dizendo-lhe que ali era a morada de Deus. Gengis Khan não disse nada, pois para ele o Eterno Céu Azul, que se estendia de horizonte a horizonte, não poderia ser encarcerado numa casa de pedra.

TEMUJIN PASSA A SER GENGIS KHAN

Temujin passou a andar com seu amigo cerimonial Jamuka. Num primeiro momento, tratavam-se como iguais. Mas com o passar do tempo, Temujin começou a se sentir desprestigiado, sendo tratado como se fosse um subordinado de Jamuka. Esse estado de coisas ocasionou um rompimento entre ambos, de forma que Temujin largou Jamuka e buscou criar seu próprio grupo de seguidores. Essa separação fez com que Jamuka e Temujin se tornassem inimigos. Por duas décadas Jamuka e Temujin iriam lutar pela liderança das tribos da estepe. Para alcançar a liderança era necessário, por meio de uma assembleia, chamada de Kurultai, ser eleito pelas tribos e pelos clãs como Khan. O primeiro a consegui-lo foi Temujin, tornando-se, então, Gengis Khan. Depois de ser eleito, Gengis Khan empreendeu várias campanhas militares pelas estepes, de forma a angariar butim, saque, com estes, atrair seguidores. Todo mundo queria ser seguidor de um líder vitorioso, que distribuísse butim para quem o acompanhasse. O poder de Gengis Khan aumentou. Mas batalha final entre Gengis Khan e Jamuka só se daria no início do século XIII, no ano de 1204. Derrotado Jamuka, Gengis Khan tinha as estepes aos seus pés. Temujin controlava então um território aproximadamente do tamanho da Europa Ocidental moderna. Havia ali uma população de 1 milhão de habitantes, de diferentes tribos, e 15 a 20 milhões de animais, dois quais tiravam praticamente tudo do que precisavam: alimentação, vestuário, cobertura para suas moradias (daí o nome de Povo das Paredes de Feltro), etc. 

GENGIS KHAN VOLTA SEUS OLHOS PARA A RIQUEZA DO SUL DA ÁSIA:

Terminada a conquista das estepes da Mongólia, Gengis Khan volta seus olhos para o sul, uma região de muita riqueza, de onde vinham produtos manufaturados, como metais, têxteis, etc. 

GUERRA MUNDIAL MONGOL:

A Guerra Mundial Mongol do século XIII estava para começar. Dizia-se que os cascos dos cavalos mongóis vão a toda parte, escalando o céu e mergulhando mar adentro. E o alvo estava ao sul da Mongólia, uma região coalhada de estados e reinos independentes. A maioria deles tinha a mesma gênese: uma região agrícola e pastoril governada por uma tribo nômade que a havia conquistado. Essa tribo guerreira explorava a população local sedentária. Com o passar do tempo, essas duas realidades se misturavam, tornando-se uma coisa só: uma sociedade basicamente agrícola e sedentária. Na sequência, vinha uma nova tribo nômade guerreira que iria conquistar essa mesma área. E a história se repetia. Mas além dessas entidades políticas médias e pequenas, havia grandes Estados, como aquele governado pelos Jurched. Os Jurched, povo tribal originário das florestas da Manchuria,  dominavam a Manchuria, a Mongólia interior e o norte da China, com sua capital na cidade de Zhongdu, atual Pequim. Eram riquíssimos e eles seriam as primeiras vítimas da Guerra Mundial Mongol.

Depois de atravessar o deserto de Gobi, Gengis Khan e seu exército partiram para sua guerra contra os Jurched. Viajar grandes distâncias não era um problema para os mongóis. Cada homem carregava o necessário e nada mais. Mongóis, nesse primeiro momento, só tinham cavalaria. Não havia infantaria. O exército mongol, na época de Gengis Khan, não precisava despender energia com comboios de suprimentos. Seus homens eram acompanhados apenas por uma grande reserva de cavalos, que se alimentavam das pastagens por onde passavam. Esses animais, por sua vez, forneciam tudo do que os mongóis precisavam. Ainda pelo caminho, os mongóis se alimentavam da caça e do saque. 

CONTRASTE ENTRE UMA SOCIEDADE NÔMADE E UMA SOCIEDADE SEDENTÁRIA:

A Guerra Mundial Mongol colocou em combate duas espécies de sociedade: a sedentária e a nômade. Os mongóis, nômades, estranhavam a vida da sociedade sedentária. No caso do território Jurched, havia mais gente do que animais. Na Mongólia, ocorria o contrário, onde havia de 5 a 10 animais para cada ser humano. Para os mongóis, os campos cultivados com cereais eram apenas pastos e os camponeses que nele labutavam eram como animais que pastavam, comendo seus vegetais, enquanto que os mongóis eram comedores de carne e de laticínios. Durante a guerra, essas duas sociedades também se diferenciavam:

"Como nômades, os mongóis aprenderam cedo a guerrear em movimento. Para o soldado camponês, fugir significava perder; perseguir significava vencer. O soldado sedentário buscava expulsar o lugar quem o atacava. O nômade buscava matar o inimigo , e não importava em nada se o matasse enquanto investia em sua direção ou enquanto fugia dele. Para o mongol, ambas as direções eram adequadas para lutar; conquista em fuga era tão boa quanto uma parada. Assim que atraíam seus oponentes para fora das cidades muradas, aplicavam técnicas que haviam aprendido para manejar o movimento de grandes rebanhos de animais. Mais comumente, faziam com que seus inimigos se enfileirassem em uma longa linha que se tornava cada vez mais desprotegida e era facilmente atacada tão logo fosse atraída para uma armadilha; ou então, em fuga, dividiam-se em pequenos pelotões e dispersavam os perseguidores em pequenos grupos, que podiam ser mais facilmente derrotados." (página 173, Gengis Khan e a formação do Mundo Moderno, Jack Weatherford, Editora Bertrand Brasil)

Em 1214, depois de um cerco bem sucedido em Zhongdu (atual Pequim), o líder do povo Jurched se rendeu a Gengis Khan. Em troca da paz, os Jurched deram aos mongóis grandes quantidades de prata, ouro, seda, cavalos, escravos, etc. Satisfeito com o acordo, Gengis Khan voltou para sua terra natal na Mongólia. Gengis Khan tinha um butim imenso para distribuir entre seu povo. Havia de tudo: seda da China, tabeçaria, porcelana, móveis, jogos de tabuleiro, facas de bronze, armaduras de metal, frascos de perfume, remédios, joias, chá preto, escravos, etc.

A GUERRA ERA O MEIO DE PRODUÇÃO DOS POVOS NÔMADES

Não obstante o sucesso da primeira campanha da Guerra Mundial Mongol, os mongóis queriam mais. O butim de hoje criava no mongol o apetite por mais. Cada butim adquirido incitava o desejo por mais. E, mais butim, significava mais guerras. 

"A guerra para os povos nômades era um meio de produção. Para os guerreiros significava sucesso e riqueza." (página 189, Gengis Khan e Formação do Mundo Moderno, Jack Weatherford, Editora Bertrand Brasil)

SULTÃO VERSUS KHAN

Gengis Khan tinha um novo alvo em mente. Tratava-se do Império Khwarizm, que englobava áreas que iam do Afeganistão ao Mar Negro. Era tentador. Em 1219, Gengis Khan partiu para o oeste, para conquistar Khwarizm. Gengis Khan, durante a campanha, tomou várias cidades da Ásia Central (Bucara, Samarcanda, Merv, Herat, Peshawar, Tabriz, Tbilisi, Astracã, etc). O sultão teve que fugir para uma ilha no Mar Cáspio. Das montanhas do Himalaia às montanhas do Cáucaso, Gengis Khan e seus homens só obtiveram vitórias. Após 4 anos de campanhas pela Ásia Central, Gengis Khan, com mais de 60 anos, estava no auge de seu poder. 

DIVISÃO DO PODER ENTRE OS MONGÓIS:

Com mais de 60 anos de idade, Gengis Khan começou a pensar como seria o Império após a sua morte. 

"Na tradição da estepe, cada filho em uma família de pastores recebia alguns animais de cada espécie que a família possuísse; assim como o direito de uso de alguma porção das terras de pastagem. Similarmente, Gengis Khan planejou dar a cada filho um império em miniatura, que refletisse, na medida do possível, as diversas propriedades de todo o império. Cada filho seria khan de um grande número de pessoas e rebanhos na estepe, assim como o proprietário de uma grande extensão de terras abarcando cidades, oficinas e plantações nas zonas sedentárias. Acima dos outros, no entanto, um filho seria o Grão-Khan, que administraria o governo central, ..." (página 205, Gengis Khan e a Formação do Mundo Moderno, Jack Weatherford, editora Bertrand Brasil)

Gengis Khan morreu em 1227. Seu filho Ogodei recebeu o título de Grão-Khan. Ogodei não era como seu pai. Ele achava que um reino conquistado na sela de um cavalo não poderia ser governando também sobre a sela de um cavalo, de forma que ele precisava de uma capital, de um palácio. Foi um erro ele pensar assim, porque foi justamente a mobilidade resultante do uso do cavalo que possibilitou que Gengis Khan conquistasse, em tão pouco tempo, um território imenso. 

Ogodei construiu a sua capital em Karakorum. Paulatinamento, os mongóis seriam transformados de uma nação de guerreiros montados em uma corte sedentária. Em 1235, Ogodei já havia esbanjado tanto dinheiro na sua capital, que praticamente toda a riqueza angariada por Gengis Khan tinha sido dilapidada. De onde Ogodei poderia tirar dinheiro? Seu povo não manufaturava, não cultivava a terra. Só havia uma alternativa: novas guerras. Havia 4 caminhos: guerra contra a dinastia Sung, no sul da China; guerra contra a Índia; invasão do Oriente Média (Bagdá, Damasco); invasão da Europa.

Não havia um consenso sobre qual alvo era o melhor. Num primeiro momento, pensou-se que a guerra deveria se dar em todas a direções. 

No que diz respeito à campanha europeia, ela durou 5 anos, e foi comandada por dois netos de Gengis Khan, Batu e Mongke. A invasão teve início na área do Rio Volga, em 1236 (século XIII). Do Volga partiram para a conquista pelo que mais tarde se tornaria a Rússia e a Ucrânia. Antes de invadir, os mongóis faziam uma proposta para suas vítimas. Ela consistia no pagamento de 10% de toda a riqueza produzida, em troca da qual os mongóis deixariam de destruir o principado/reino, deixando ainda de interferir na religião e no governo locais. A cidade de Kiev, na atual Ucrânia, não aceitou a proposta dos Mongóis, razão pela qual foi destruída em 1240. Depois da Rússia e da Ucrânia, os mongóis entraram na Hungria e na Polônia. Um exército europeu foi batido em Liegnitz, em 1241. O exército húngaro foi derrotado. Os mongóis perseguiram o rei húngaro até o Mar Adriático. Nada os detinha. Os europeus foram salvos pela por um detalhe. O Khan Ogodei tinha morrido. Um novo Khan teria que ser escolhido e, para isso, todos os mongóis deveriam ir para a Mongólia. E asssim, como um milagre, os mongóis deixaram a Europa em paz. 

NOVO KHAN - GUYUK:

O novo Khan escolhido para comandar os mongóis foi Guyuk. Depois de 18 meses no poder, ele morreu. Provavelmente foi assassinado. Em 1251, Mongke assumiu no seu lugar. 

"Nos anos seguintes, Mongke, Arik Boke e Kublai carregariam o título de Grão-Khan por diferentes períodos, e seu outro filho Halegu, se tornaria Il Khan da Pérsia e fundador de sua própria dinastia naquela região. Seus filhos ampliariam o império ao máximo ao conquistarem toda a Pérsia, Bagdá, Síria e Turquia. Eles viriam a conquistar a Dinastia Sung e chegariam ao Vietnã, ao Laos e à Birmânia. Destruiram a temida ordem dos Assassinos e executariam o califa muçulmano." (página 270, Gengis Khan e a Formação do Mundo Moderno, Jack Weatherford, Editora Bertrand Brasil)

IMPÉRIO MONGOL RETOMA A OFENSIVA:

Agora, os alvos eram a Dinastia Sung da China e a civilização muçulmana dos árabes e persas. Mongke designou seu irmão Halegu para atacar Bagdá, Cairo e Damasco. Kublai ficaria com a China. Em 1253, os mongóis partiram para mais uma aventura. 

No caminho para Bagdá, Halegu teria que atravessar uma área dominada por fortalezas ismaelitas nizari, uma ordem muçulmana herética de xiitas conhecidas como ASSASSINOS. Essas fortalezas, construídas nas montanhas, estendiam-se do Afeganistão à Síria. Sem um exército regular, essa ordem muçulmana extraía seu poder do terror e de assassinatos. Eles buscavam matar qualquer um que porventura se pusesse contra eles. Eram recrutados homens jovens, que eram doutrinados com a ideia de que, caso morressem pela causa, ganhariam a entrada para o paraíso. Esses jovens também eram atraídos por prazeres terrenos, como o Haxixe. 

"Supostamente devido à importância dos narcóticos para os ismaelitas, eles eram chamados de hashshashin, isto é, usuários de Haxixe. Com o passar do tempo, esse nome evoluiu para a palavra assassino." (página 286, Gengis Khan e a formação do Mundo Moderno, Jack Weatherford, Editora Bertrand Brasil)

Em 1256, os assassinos se renderam aos mongóis. O caminho para Bagdá estava livre para Halegu. Bagdá era a maior e mais rica cidade do mundo muçulmano. Em fevereiro de 1258, os mongóis conquistaram Bagdá. Damasco rendeu-se e os mongóis chegaram às praias do Mediterrâneo. Mas o mongóis não eram invencíveis. Ao tentarem conquistar o Egito, foram derrotados pelos mamelucos em 1260. 

Kublai, por sua vez, conseguiu conquistar a China. Em 1260, foi proclamado Imperador Chinês. Kublai também conquistou o título Grão-Khan dos mongóis. 

O Império Mongol dividia-se agora em quatros zonas :

1) Kublai (Dinastia Yuan) governava a China, o Tibet, a Manchuria, a Coreia e a Mongólia Oriental.

2) Um outro ramo do poder mongol, denominada Horda Dourada, dominava os países eslavos da Europa oriental, e se recusava a reconhecer Kublai como Grão-Khan. Essa Horda Dourada dominava cidades como Kiev, Moscóvia, Kazan, Astracã, etc.

3) As terras governadas por Halegu, que se estendiam do Afeganistão até a Turquia, ganharam o nome de ilkhanato, isto é, império vassalo

4) Os mongóis mais tradicionais ocuparam as estepes centrais, que ficaram conhecidas como Mogolistão, e abrangiam uma área que hoje engloba o Cazaquistão e a Sibéria no norte, e através do Turquistão, na Ásia Central, até o Afeganistão, no sul.

A divisão acima exposta foi o início do fim do domínio mongol. Na europa oriental, o principado de Moscóvia se tornou o Império Russo, tomando todos os territórios antes dominados pelos mongóis. Nos países muçulmanos, turcos, persas e árabes retomaram o poder, em prejuízo dos mongóis. Na China, os chineses retomaram o seu país das mãos dos mongóis.

"O império de Gengis Khan foi o último grande império tribal da história. O herdeiro de 10 mil anos de guerras entre as tribos nômades e o mundo civilizado, a antiga luta do caçador e pastor contra o fazendeiro. Uma história tão antiga quanto aquelas das tribos beduínas que seguiram Maomé para destruir a idolatria pagã da cidade, das campanhas romanas contra s hunos, dos gregos contra os citas nômades, dos moradores das cidades egípcias e persas que oprimiam as tribos nômades dos pastores hebreus e, em última análise, de Caim, o lavrador, que matou seu irmão Abel, o pastor." (página 403, Gengis Khan e a Formação do Mundo Moderno, Jack Weatherford, Editora Bertrand Brasil)

Divisão do Império Mongol 1300

TAMERLÃO OU TIMUR, O COXO, OU TIMURLENK. VITÓRIA DAS SOCIEDADES SEDENTÁRIAS SOBRE AS TRIBOS NÔMANES. A ÚLTIMA TENTATIVA DE REVIVER O IMPÉRIO MONGOL

Tamerlão nasceu na década de 30 do século XIV, num clã menor no interior de uma confederação tribal turco-mongol, em uma das quatro grandes regiões em que o Império Mongol de Gengis Khan e seus descendentes se tinha dividido. Tamerlão acabou se destacando como líder, reunindo em torno de si as tribos e clãs locais. Entre 1380 e 1390 (século XIV), lançou-se na conquista do Irã, da Mesopotâmia (atual Iraque), Armênia e Geórgia. Dirigiu ainda ataques ao sul da Rússia e ao norte da Índia, destruindo Déli. Depois, regressou ao Oriente Médio, atacando as cidades sírias de Alepo e Damasco. Em 1402, derrotou o sultão otomano na Batalha de Ancara. As suas conquistas tentaram reproduzir o grande Império Mongol. Assim como o Império Mongol, o Império de Tamerlão sustentava-se com a exploração da rota comercial eurasiática (Eurásia). A capital do seu Império timúrida ficava na cidade de Samarcanda, na Ásia Central. 

O Império de Tamerlão acabou desaparecendo após a sua morte. A sua morte assinalou o fim de uma longa fase da história mundial:

1) O Império de Tamerlão foi a última tentativa de unir a Eurásia num bloco uniforme sob o governo de uma só pessoa. A partilha da Eurásia entre o Extremo Ocidente (Europa), a Eurásia Central Muçulmana (Iraque, Síria, etc) e a Ásia Oriental (China) estava consolidada. 

2) O derradeiro insucesso de Tamerlão assinalou a vitória dos Estados fundados em sociedades sedentárias sobre os Estados fundados em sociedades nômades. O campo semeado venceu o domínio da estepe.

3) A decadência do estilo nômade de governo originou a decadência do centro da Eurásia. Em seu lugar, floresceram os extremos da Eurásia: extremo ocidente na Europa e extremo oriente na Ásia.

4) A morte de Tamerlão também assinalou o começo do fim da Eurásia como corredor do comércio mundial - rota oriente - ocidente. A rota da seda perderia relevância. A descoberta das rotas marítimas (século XIV) por  Portugal abriu um espaço comum pelo qual o comércio seria realizado, ligando todos os campos do mundo. 

Anotações extraídas dos Livros

1) Gengis Khan e a formação do mundo moderno, Jack Weatherford, Editora Bertrand Brasil

2) Ascensão e Queda dos Impérios Globais, 1400-2000, John Darwin, editora Edições 70




terça-feira, 4 de junho de 2024

Regicídio Parricídio FilIcídio Mariticídio e Duplo Parricídio Hediondo na Rússia do século XVIII

DURANTE O SÉCULO XVIII, NA RÚSSIA CZARISTA, HOUVE UMA SÉRIE DE HOMICÍDIOS, DE REIS, DE FILHO PELO PAI, DE PAI PELO FILHO, DE MARIDO PELA ESPOSA E UM CASO TENTATIVA DE DUPLO PARRICÍDIO HEDIONDO.


1) TENTATIVA DE DUPLO PARRICÍDIO HEDIONDO E FILICÍDIO:


Pedro I, o Grande

Alexei

Alexei era filho de Pedro I, Imperador da Rússia. Pedro I foi o criador da moderna Rússia. Venceu a Suécia na Grande Guerra do Norte, participando inclusive da Batalha de Poltava, em 1709. Criou a cidade de São Petersburgo. Criou a frota naval russa. Pedro I abriu a Rússia para o Ocidente. Trouxe para a Rússia a tecnologia e muitos costumes ocidentais. Procurou casar princesas russas com a nobreza alemã. Não era um homem religioso. Ele tinha um único herdeiro, seu filho Alexei. Alexei era o contrário de Pedro. Alexei era um russo tradicional. Não aprovava, por exemplo, o casamento de russos com estrangeiras. Era religioso. Não tinha interesse por assuntos militares. Não tinha interesse pela frota naval de seu pai. Sua mãe, Eudóxia, tinha sido mandada para um Monastério, para que Pedro, enjoado dela, pudesse se casar outra vez. Na visão de Pedro I, Alexei era um herdeiro insatisfatório. Pedro I temia que seu filho jogasse no lixo todo o seu legado. Mas era seu filho e ele tentou corrigi-lo, dizendo-lhe que, caso ele não se emendasse, iria eliminá-lo da sua sucessão, como se imputa um membro inútil. 

"Pai (Pedro) e filho (Alexei) se estranhavam. Durante uma festa, Pedro se abriu parao embaixador da Dinamarca: quando um monarca arrisca a vida para criar um país respeitável, será que deveria deixar o trono para um tolo que começaria a destruição de todas as suas realizações? Se a gangrena começa no dedo, disse Pedro, mostrando o polegar ao embaixador, não serei obrigado a cortá-lo fora?" ( Os Románov, Simon Sebag Montefiore, 1613-1918, editora Companhia das Letras, página 173)

Diante da pressão que sofria, em 1716, Alexei acabou fugindo. Buscou refúgio na corte austríaca. Alexei nutria a esperança de derrubar seu pai do trono russo. Ele pretendia restabelecer a capital em Moscou, abandonaria a frota naval do pai e não faria mais guerras. Para Pedro I, diante de tal desrespeito, era uma questão de honra trazer seu filho de volta e puni-lo. Pedro I conseguiu trazer seu filho de volta, em janeiro de 1718.

"O pai furioso e o filho ansioso convergiram para Moscou para um embate sombrio." ( Os Románov, Simon Sebag Montefiore, 1613-1918, editora Companhia das Letras, página 178)

Alexei acabou sendo preso. Foi torturado de forma atroz. Pedro descobriu o intento golpista de seu filho. Alexei, por ordem de seu pai, acabou condenado à morte por parricídio duplo hediondo, contra Pedro I, que era o pai de seu país, a Rússia, e seu pai por natureza.

Em razão das torturas, Alexei acabou morrendo em junho de 1718. 


2) REGÍCIDIO E MARITICÍDIO

Pedro e Catarina

Catarina II, a Grande, com quase 60 anos de idade

Em 1741, a Rússia tinha uma nova governante, a Imperatriz Isabel, que era filha da Pedro, o Grande. Ela nunca se casou. Não tinha herdeiros, razão pela qual foi atrás de um herdeiro na Alemanha, no ducado de Holstein. Tratava-se de Karl Peter Ulrich, seu sobrinho, filha de sua irmã, duque de Holstein, neto de Pedro, o Grande. Ao chegar à Rússia, Karl Peter começou seu aprendizado da língua russa e da religião ortodoxa, adotando o nome de Pedro Fiódorovitch. Na sequência, Isabel foi atrás de uma noiva para Pedro. Essa noiva foi buscada na Alemanha. A escolhida foi Sophie, princesa de um pequeno estado alemão, de Anhalt-Zerbst. Chegando na Rússia em 1744, Sophie foi rebatizada como Catarina. A relação entre Pedro e Catarina sempre foi conturbada. A Imperatriz Isabel esperava que aquele casal que não se amava fornecesse um herdeiro para o Império russo. E ele veio em em 1754, quando Catarina deu à luz um filho, que ela chamou de Paulo. Enquanto dava à luz, Pedro se embebedava com seus cortesãos. Paulo era filho de Pedro ou de algum dos amantes de Catarina? Catarina teria escrito que Paulo não era filho de Pedro. Seria então filho de seu amante, Saltikov? 

"Na verdade, Paulo não tinha nada do le beau Saltikov, mas também não se parecia com Pedro nem se comportava como ele." ( Os Románov, Simon Sebag Montefiore, 1613-1918, editora Companhia das Letras, página 254)

Com a morte de Isabel, em 1761, Pedro assume o poder na Rússia como Pedro III. Seu governo foi errático desde o início, angariando contra si antipatia e desprezo. As pessoas que odiavam Pedro uniram-se em torno da figura de Catarina, que nela viam uma alternativa de poder. Entre essas pessoas, estava seu amante, Grigóri Orlov. Grigóri Orlov e seus 4 irmãos eram populares entre os militares russos da Guarda. O mais popular era Alexei Orlov, que tinha o apelido de Cicatriz, notório pela sua força bruta e pela sua falta de coração, justamente o tipo de assassino que seria necessário para a derrubada de Pedro.

A queda de Pedro III ocorreu em junho de 1762. O poder ficou com Catarina, que governaria a Rússia enquanto seu filho Paulo não atingisse a maioridade. Essa era a ideia original. No fim, Catarina ficou no poder até a sua morte, quando então Paulo assumiu o seu lugar. Como foi o fim de Pedro III? Catarina lançou um comunicado dizendo que Pedro tinha morrido de cólica hemorroidal. Esse diagnóstico absurdo acabou se tornando, durante o século XVIII, um eufemismo para assassinato político.

"Quando Catarina convidou o philosophe Jean d' Alembert para uma visita, ele respondeu brincando que não se atrevia a ir, pois sofria de hemorroidas, uma condição muito perigosa na Rússia." ( Os Románov, Simon Sebag Montefiore, 1613-1918, editora Companhia das Letras, página 272)

Na realidade, Pedro III foi morto por estrangulamento, pelo irmão do amante de Catarina, Alexei Orlov, o Cicatriz. 

Ao saber da morte de Pedro, Catarina teria achado que ficaria marcada para sempre por um mariticídio e um regicídio. 

"Minha glória foi arruinada, a posteridade nunca me perdoará. Mas a posteridade a perdoou." (Os Románov, Simon Sebag Montefiore, 1613-1918, editora Companhia das Letras, página 271)

De fato, ninguém mais falou no mariticídio e no regicídio. Catarina II passou para a história como Catarina, a Grande. No seu governo, a Rússia teve muitas vitórias militares e muitas conquistas territoriais. A Rússia, no governo de Catarina II, conquistou a península da Criméia e várias cidades que hoje fazem parte (ou faziam) da Ucrânia, como Odessa, Mariúpol, Dnipropetrovski, etc. Sob Catarina II,, a Ucrânia era chamada de a Nova Rússia.


3) REGÍCIDIO E PARRÍCIDIO


Alexandre I

Paulo I "Deixe que me odeiem, desde que me temam"

Com a morte de Catarina II, a Grande, Paulo, seu filho, assumiu o trono russo. Governou de 1796 até ser assassinado, em 1801. Paulo foi um legítimo autocrata. Ele batia no peito e dizia que a lei estava aqui. Era uma emulação da frase do rei francês Luís XIV, que dizia que "O Estado sou eu." Durante seu governo, ele criou muitos desafetos, inclusive entre os nobres russos. Paulo revogou a lei que proibia punição física aos nobres. Ele batia publicamente nas pessoas. Ele citava a máxima de Calígula: "Deixe que me odeiem, desde que me temam. Mas, além de ser temido, Paulo também era visto como objeto de chacota. E nada prejudica mais o poder de um soberano do que quando ele é alvo de risos. As pessoas riam dele, por exemplo, pela mania que ele tinha de vestir o exército russo como se fosse um exército prussiano. A gota d'água que transbordou o copo de Paulo foi a sua aliança com Napoleão. Durante as guerras napoleônicas, num primeiro momento, Paulo fez a Rússia se aliar com a Inglaterra e com a Áustria na guerra contra Napoleão. A Rússia obteve vitórias contra a França no norte da Itália. Mas essa aliança com a Inglaterra e com a Áustria não foi exitosa, de forma que Paulo alterou sua política, passando a considerar a França como aliada e a Inglaterra como inimiga. Paulo chegou a cogitar uma coalizão com a França para invadir a Índia britânica.

"Em questão de meses, Napoleão e Paulo estavam planejando um esquema fantástico para mandar o general francês Masséna, com 35 mil homens, para se juntar em Astracã (Astrakhan) com um exército russo de 35 mil infantes e 50 mil cossacos. Juntos, eles atravessariam o Mar Cáspio, para capturar Kandahar e em seguida invadir a Índia Britânica." (Os Románov, Simon Sebag Montefiore, 1613-1918, editora Companhia das Letras, página 346)

Enquanto Paulo planejava invadir a Índia Britânica, seus súditos mais próximos planejavam a sua queda, a favor de seu filho, Alexandre. Apesar de todo cuidado tomado por Paulo, ele acabou sendo apeado do poder. Foi assassinado de forma brutal. Seu filho Alexandre participou da conspiração. Mas ele foi enganado, pois disseram a ele que seu pai não seria morto. Mas isso era pura ingenuidade. Um imperador não poderia governar em paz tendo um imperador deposto vivo. Não se poderia, enfim, fazer um omelete sem quebrar os ovos, de forma que Paulo teria que ser morto. 

Ao saber da morte de seu pai, Alexandre entrou em desespero e disse:

"O povo vai dizer que sou o assassino do meu pai, soluçou Alexandre. Prometeram-me que a vida dele seria poupada. Sou a mais infeliz das criaturas." (Os Románov, Simon Sebag Montefiore, 1613-1918, editora Companhia das Letras, página 357)

Infeliz ou não, Alexandre assumiu o trono russo, sob o manto de um parricídio e de um regicídio. 

"O assassinato do pai paraiva sobre ele (Alexandre) como um abutre, e ele costumava ver na imaginação o corpo de Paulo mutilado e ensanguentado nos degraus do trono. Ficava horas sozinho, sentado em silêncio." ( Os Románov, Simon Sebag Montefiore, 1613-1918, editora Companhia das Letras, página 361)

Apesar disso tudo, Alexandre I, como viria a ser conhecido, teve um bom governo. Ele ajudou a derrotar Napoleão Bonaparte. Era ele que estava no governo quando Napoleão invadiu a Rússia em 1812. Alexandre I repeliu a invasão russa e, ao lado de austríacos, prussianos, alemães e ingleses, derrotou Napoleão. O exército russo ocupou Paris. Alexandre ainda seria importante na configuração europeia pós-napoleônica. Alexandre, ao lado da Áustria e da Prússia, criou a Santa Aliança, um acordo que visava impedir que uma nova Revolução Francesa voltasse a acontecer na Europa. Ele morreu em 1825.

ANOTAÇÕES EXTRAÍDAS DA LEITURA DO LIVRO "OS ROMÁNOV 1613-1918", SIMON SEBAG MONTEFIORE, EDITORA COMPANHIA DAS LETRAS.



Rei Medieval Dicionário Analítico do Ocidente Medieval Jacques Le Goff e Jean Claude Schmitt Volume 2



PERÍODO: 

Séculos VI e XVI

O Rei e seus três momentos de desenvolvimento:

Na época carolíngia, nos séculos IX e X, temos o rei ungido. Entre os séculos XII e XIII, temos um rei administrativo, imerso em três realidades, a Coroa, o território e a lei. Por fim, no final do período, o rei procura absorver o próprio Estado. 

ESTRUTURA FUNDAMENTAL DE PODER:

Monarquia inserida numa Cristandade latina medieval, fazendo um contraponto ao Império Romano do Oriente (Império Bizantino), cujo soberano recebia o nome de Basileus, que significa rei e não imperador.

Características do Rei Medieval:

1) Unicidade do poder real: 

"Há uma unicidade do poder real no Ocidente Medieval. Os reinos da Idade Média têm à sua frente um rei único e, assim, o único superior. A realeza medieval não se divide, não obstante as esperiências anglo-saxãs de joint-kingship e a partilha do reino merovíngio entre os filhos do rei, cada um criando reinos no interior da ficção de uma monarquia unitária. (página 442, Dicionário Analítico do Ocidente Medieval Jacques Le Goff e Jean Claude Schmitt, volume 2)

FUNDAMENTO IDEOLÓGICO DO REI CRISTÃO:

O rei é a imagem de Deus: rex imago Dei. Para legitimar seu poder, buscará referências nos reis da Bíblia. Carlos Magno, por exemplo, seria uma espécie de Davi.

OBRIGAÇÕES DO REI:

O rei tinha obrigações e limitações. Seu dever funcional o obrigava a ser um defensor da fé e de seu povo. Devia ainda respeito à Igreja, de quem dependia. 

HERANÇA GERMÂNICA DO SANGUE:

"A palavra gótica kuni, que significa "raça, família", é aparentada à latina gens e dará às palavras king e Konig. Este e o homem bem nascido, o homem nobre, e o rei medieval recolhe também essa herança germânica do sangue. Ele é definido não somento por uma boa família, mas também em relação à aristocracia e à nobreza. O rei é o rei, de todo o povo, porém permanece sempre especialmente ligado à nobreza e deve respeitar os privilégios dos nobres. A própria realeza afirma-se mais, a partir do século XIV, como uma realeza de sangue, no qual os descendentes diretos dos reis constituem a categoria superior dos príncipes de sangue. Há na aristocracia medieval uma tendência a rebaixar o rei, a reduzi-lo a um PRIMUS INTERPARES (o primeiro entre os iguais). Mas somente o rei tem caráter sagrado." (página 444, Dicionário Analítico do Ocidente Medieval Jacques Le Goff e Jean Claude Schmitt, volume 2)

O REI, O IMPERADOR E O PAPA:

No início, teoricamente o rei estava abaixo do Imperador e do Papa. Com o passar do tempo, a situação foi modificada, em favor do rei. A briga entre os Imperadores do Sacro Império Romano Germânico e os Papas acabou por enfraquecer o poder de ambos. Nesse ínterim, os poderes dos reis da França e da Inglaterra cresciam. 

"Para os homens da Idade Média, o modelo encarnado da soberania não é o Imperador  (do Sacro Império Romano Germânico), ou o Papa, mas, abstratamente, o rei, e, concretamente, os reis." (página 445, Dicionário Analítico do Ocidente Medieval Jacques Le Goff e Jean Claude Schmitt Volume 2)

Esse poder dos reis consolida-se a partir do século XIII, na França. Assim, o rei da França não conhecia nenhuma poder, no seu reino, que lhe fosse superior. Adotou-se a ideia segundo a qual REX EST IMPERATOR IN REGNO (o rei é o imperador em seu reino).

A LEGITIMIDADE DO REI:

As fontes das quais o rei tirava a sua legitimidade eram variadas. Podia ser uma eleição, como acontecia, por exemplo, com os reis da Polônia e da Alemanha. Quem estava no trono poderia indicar seu sucessor, como Pedro I, o Grande, Imperador da Rússia (1682-1725), fez com a sua esposa, uma mulher de origem humilde, uma lavadeira lituana, com uma vida dissoluta, tendo sido amante de pessoas próximas a Pedro, que foi alçada à posição de Imperatriz com o nome de Catarina I. A legitimidade de um rei ainda podia ser extraída por uma escolha divina, provada por meio de uma vitória militar. 

A legitimidade de um rei dependia de fatores simbólicos (ideologia, cerimônias, símbolos) e de fatores de fato, isto é, poder de fato daquele que desejava ser rei. 

Quando os carolíngios substituíram os reis merovíngios no século VIII, assim agiram usando a justificativa de que estes eram reis indolentes, que tinham perdido a capacidade para governar. Mas essa justificativa não seria suficiente para legitimar o poder dos Carolíngios. Era necessário uma simbologia, e ela veio com as cerimônias da Igreja Católica. O Papado precisava da proteção dos reis carolíngios e estes precisavam da legitimação que uma unção papal proporcionava. Dessa forma, os reis carolíngios tinham obtido um caráter sagrado. Quando os reis capetíngios sucederam os carolíngios no que hoje é a França, o fizeram com base numa nova realidade de poder. Os carolíngios tinham perdido a força. Quem tinha a força de fato, agora, era a dinastia capetíngia. Mas era necessário passar desse poder de fato para um poder de direito. Isso foi feito quando os capetíngios reivindicaram para si a descendência biológica dos carolíngios, particularmente da linhagem de Carlos Magno. Foi a REDDITUS AD STIRPEM KAROLI (retorno à linhagem de Carlos Magno). 

O REI MORREU, VIVA O REI. O REI NÃO MORRE JAMAIS:

O rei está inserido numa linha histórica. Geralmente há uma dinastia, com o rei reverenciando seus antecessores e buscando cuidar de quem irá sucedê-lo, providenciando um casamento que possa lhe proporcionar um herdeiro. Nessa linha histórica, o rei se vê premido entre o momento de sua ascensão ao trono e o momento de sua morte (ou renúncia, destituição por um golpe). Numa sociedade onde o rei é o fiador dos laços entre seu povo e Deus, é de suma importância que não haja um vácuo de poder, que poderia acontecer entre a morte de um rei e a ascensão de um novo soberano. Justamente para evitar esse vácuo, adotou-se o costume de datar os atos do novo rei não da data da sua sagração, mas da morte do seu predecessor. 

"Chega-se, assim, ao final da Idade Média à fôrmula "O REI MORREU, VIVA O REI" O que em latim se diz de maneira mais jurídica e mais simbólica: "REX NUNQUAM MORITUR (o rei não morre jamais." (página 451 Dicionário Analítico do Ocidente Medieval Jacques Le Goff e Jean Claude Schmitt, volume 2)

OS LUGARES DO REI:

Geralmente, o lugar do rei era o local de sua coroação. Era o local de inauguração do poder real. Os lugares de residência real também traziam consigo um grande simbolismo. Nesses castelos reais, predominavam duas funções: a de residência e a de defesa. 

TIPOS DE REIS:

Havia o rei inútil, uma espécie de rei usurpador, que procurava legitimar-se. Esse usurpador tinha destronado um chefe político legítima. Esse rei inútil (shadow-king) poderia se livrar dessa nomenclatura difamatória se conseguisse legitimar-se. Isso aconteceu com dinastia carolíngia, que tinha usurpado o poder dos merovíngios. 

Havia o rei que não tinha interesse pela cultura e pelo saber. Ele era denominado de "REX ILLITTERATUS QUASI ASINUS CORONATUS" (um rei iletrado é apenas um asno coroado).

O ideal era um rei letrado, culto e mesmo erudito, que estivesse à altura de um Estado que se desenvolvia (Estado administrativo, burocrático). 

Havia o rex facetus, o rei espirituoso. Essa figura desenvolveu-se no contexto das cortes, onde era necessário que o rei fosse sociável em relação às pessoas que o rodeiam. 

Havia os reis frágeis: reis crianças, reis distantes, reis leprosos, reis loucos. 

ANOTAÇÕES EXTRAÍDAS DA LEITURA DO LIVRO DICIONÁRIO ANALÍTICO DO OCIDENTE MEDIEVAL, JACQUES LE GOFF E JEAN CLAUDE SCHMITT, VOLUME 2, EDITORA UNESP.