terça-feira, 19 de janeiro de 2021

A História Secreta da Rendição Japonesa de 1945



"DEUS" QUERIA A PAZ:

Na madrugada do dia 10 de agosto de 1945, o Imperador Japonês Hirohito tinha concordado com a Declaração de Potsdam, de 26 de julho de 1945, a qual trazia condições para o encerramento da guerra entre o Japão e os países aliados (China, EUA e Inglaterra).

Hirohito era o 124º Imperador japonês da raça Yamato, descendente de Amaterasu Omikami (Deusa Sol). Hirohito, portanto, era o filho do céu, um ser divino. 

A tradição dizia que o Imperador divino ascendia, remontava até o Imperador Jimmu, que tinha nascido de um crocodilo inseminado pelo neto de Amaterasu, a Deusa do Sol, em 660 a.C.

Apesar disso, não tinha poder para tomar reais decisões, mas era sem dúvida alguma o líder espiritual e moral do Japão, sobre o qual se assentava a legitimidade do governo. Confundia-se com a própria nação. Acreditava-se que todos os japoneses descendiam dele, possuindo laços de sangue com ele. 

"Embora se apresentasse em um corpo comum, para seus compatriotas esse homem era um deus, a forma humana de tudo que era bom." (página 89)

Embora sendo visto como um deus, o desejo manifestado pela paz vocalizado pelo Imperador Hirohito não iria encerrar o assunto. E é essa história que o livro busca contar, a turbulenta história que redundou na rendição japonesa na Segunda Guerra Mundial.

JAPONESES DIVIDIDOS A RESPEITO DA RENDIÇÃO:

Havia no Japão duas facções: uma apoiava a aceitação da Declaração de Potsdam, que falava na rendição incondicional do Japão, desde que fosse preservada a figura do Imperador, o sistema nacional que tinha na figura do Imperador o fundamento da legitimidade do governo sobre os japoneses. Um segundo grupo exigia que a guerra fosse travada até que se conquistasse condições mais favoráveis ao Japão. Esse grupo, por exemplo, não aceitaria que os japoneses fossem julgados por crimes de guerra pelos vencedores EUA, Grã-Bretanha e China. Tampouco aceitavam que o Japão fosse ocupado pelas tropas desses países. E também exigiam que as forças armadas japonesas fossem desarmadas pelos próprios japoneses. E também exigiam a manutenção do Sistema Imperial de governo.

RENDIÇÃO INCONDICIONAL:

Os aliados, por meio da Declaração de Potsdam, emitida em 26 de julho de 1945, exigiam a rendição incondicional do Japão. Os japoneses viam isso como "passar um cheque em branco" para alguém. O que essa rendição, sendo incondicional, poderia conter? Isso trazia insegurança para os japoneses. Poderia conter a prisão do próprio Imperador Hirohito?

Assim, conclui-se que o comportamento dos aliados, exigindo a uma rendição incondicional, ajudou a prolongar a guerra no Pacífico.

JAPÃO ESTAVA CERCADO E DERROTADO:

Naquela altura, o Japão estava praticamente derrotado. Estava cercado por um bloqueio naval. Aviões aliados bombardeavam o país sem oposição. Duas bombas atômicas já tinham sido lançadas sobre Hiroshima e Nagasaqui. E para piorar ainda mais a situação, a URSS invadiu o Estado vassalo japonês de Manchukuo, na Manchúria (China), em 9 de agosto de 1945. Não tinha como ficar pior. 

Mas mesmo diante desse cenário desesperador, como dito acima, havia aqueles que queriam continuar lutando, travando uma última batalha contra os aliados, de forma a conseguir termos mais favoráveis quando a paz fosse celebrada.

NOVO GABINETE:

Em 9 de agosto um novo governo tomou posse no Japão, sob o comando do ex-almirante Suzuki, um herói da guerra de 1904/05 entre Rússia e Japão. O principal objetivo desse governo era encerrar a guerra. Homens de negócios, o povo e o Imperador queriam encerrá-la. O problema estava nos militares japoneses.

"O exército era outro problema, agia como se a vitória fosse possível e mesmo inevitável, desde que a guerra continuasse por mais uma década." (página 30)

Os militares se incomodavam com vários pontos trazidos pela Declaração de Potsdam, já citados acima, como por exemplo a ocupação do Japão por forças estrangeiras. 

DIFICULDADE EM ACEITAR A REALIDADE:

Mesmo após Nagasaqui e Hiroshima, os militares colocavam em dúvida se aquilo realmente se tratava de uma bomba atômica. Aqueles que a admitiam, colocavam em dúvida a capacidade dos EUA de terem material radioativo suficiente para produzirem mais artefatos nucleares. Alguns japoneses ainda defendiam que os EUA não usariam mais a Bomba Atômica com receio da repercussão negativa da opinião pública internacional. Mesmo a invasão da URSS na Manchúria era objeto de dúvida, alegando-se que não se sabia a verdadeira extensão dos danos causados pela ação soviética. 

REUNIÃO DO SUPREMO CONSELHO DE GUERRA:

Na manhã do dia 9 de agosto de 1945, o Supremo Conselho de Guerra se reuniu para discutir a aceitação ou não da Declaração de Potsdam. O resultado terminou em empate. O Primeiro-Ministro Suzuki votou a favor da aceitação, sendo seguido pelo Ministro da Marinha Yonai e pelo Ministro das Relações Exteriores Togo. Votaram contra a aceitação o Ministro da Guerra, Anami, O Chefe do Estado Maior Naval Toyoda e o Chefe do Estado Maior do Exército Umezu. 

O Supremo Conselho de Guerra não era um órgão executivo, mas de aconselhamento. Mas seus conselhos costumavam ser aceitos pelo Gabinete, que era o órgão que governava de fato o Japão. Ao Imperador cabia o papel de chancelar questões já decididas, dando a elas a força da legitimidade. 

Havia portanto um impasse sobre a aceitação ou não dos termos contidos na Declaração de Potsdam. Resolveu-se buscar alguém que o desempatasse, tirando o Japão do imobilismo. A escolha recaiu sobre a figura do Imperador Hirohito. Foi então convocada uma Conferência Imperial, na qual a situação seria explicada ao Imperador, que teria a incumbência de dar a palavra final sobre a aceitação ou não da Declaração de Potsdam.

CONFERÊNCIA IMPERIAL 9/10 DE AGOSTO:

Durante a conferência a situação foi apresentada ao Imperador. Havia dois caminhos: o primeiro caminho era a aceitação da Declaração de Potsdam, desde que ela mantivesse o sistema imperial japonês, com o Imperador Hirohito mantendo seus poderes. O outro caminho, apresentado pelos militares, defendia a luta sem trégua, até que se conquistasse uma situação que possibilitasse um acordo de paz mais vantajoso para o Japão, evitando assim sua ocupação por forças estrangeiras, seu desarmamento, etc. 

Com a situação apresentada, o Primeiro-Ministro Suzuki se dirigiu ao Imperador e pediu que ele se decidisse sobre qual caminho seguir, qual possibilidade deveria ser adotada pelo governo

"Não havia lembrança da última vez que o Imperador fora solicitado a manifestar sua própria opinião para decidir assunto tão importante. Quase nunca tivera parte ativa - nem sequer falar - nessas reuniões ritualísticas, previamente arranjadas. Fazer tais perguntas ao Imperador era absolutamente inédito." (página 86)

"Os militares esperavam que na Conferência Imperial apenas se discutisse a matéria e em seguida todos se dispersassem pela noite. Agora, o que esperar do deus vivo cujas ordens tinham jurado obedecer?" (página 86/87)

Enfim, Hirohito declarou que queria encerrar a guerra imediatamente, concordando com o primeiro caminho que lhe fora exposto, o da aceitação da Declaração de Potsdam, desde que sistema nacional do Império fosse mantido intacto.

"...precisamos suportar o insuportável." (página 111)

Com a manifestação de Hirohito, Togo, o Ministro das Relações Exteriores, encaminhou a mensagem da aceitação da Declaração de Potsdam para os países aliados.

MESMO COM DEUS SE MANIFESTANDO, AINDA HAVIA SETORES DAS FORÇAS ARMADAS JAPONESAS QUE QUERIAM A CONTINUIDADE DA GUERRA:

Mesmo após a manifestação daquele que era visto como um deus, alguns setores das Forças Armadas japonesas queriam continuar com a guerra. 

Eles pensavam assim:

"Desta forma, as 4 condições defendidas pelo Ministro da Guerra e pelo Chefe do Estado Maior são absolutamente necessárias para preservação do Estado Nacional. Para o povo, será inútil sobreviver à guerra se a estrutura da nação for destruída." (página 185).

Para esses militares, portanto, aceitar a ocupação estrangeira do território nacional, aceitar que japoneses fossem submetidos a Tribunais compostos por juízes americanos, ingleses e o desarmamento iriam destruir a nação japonesa, de forma que ela nunca mais iria se reerguer. 

Mas eles teriam que achar uma forma para contornar a manifestação do Imperador Hirohito a fazer da rendição. Como eles poderiam desobedecer uma ordem vinda de um deus? Mas ele conseguiram achar uma justificativa para desobedecer o Imperador:

"Embora possa significar uma desobediência eventual à decisão do atual Imperador - situação sem dúvida indesejável - em última análise agir em obediência aos desejos ancestrais do Império constituiria uma lealdade mais presciente e verdadeira ao trono." (página 185)

A desculpa dos militares rebeldes, para passar por cima da vontade do Imperador, invocaria a ideia de que a decisão da rendição não era compatível com aquilo que os ancestrais dele teriam feito se estivessem na mesma situação. Era como se o Imperador tivesse sido mal assessorado, como se ele tivesse que ser protegido de si mesmo, sendo apartado de auxiliares próximos que o teriam levado para o caminho errado da rendição. 

"...não havia dúvida de que impedir que o Imperador cometesse a ignominia da rendição significava agir em sua defesa." (página 211)

O primeiro golpe (coup d' état) foi elaborado pelo oficial do exército Takeshita, cunhado do Ministro da Guerra Anami. A ideia era afastar os conselheiros pacifistas do Imperador, que na cabeça dos rebeldes seriam os verdadeiros culpados pela rendição japonesa. Queriam instalar um governo militar com todo o poder político concentrado nas mãos do Ministro da Guerra Anami. 

"...queriam voltar ao passado, para a situação anterior a 1867, quando o chefe militar, o Shogun, controlava o país, e o Imperador era mantido como um acessório, inconveniente, mas necessário, sequestrado com sua corte estéril e asfixiante na velha cidade de Kioto." (página 212)

Os militares rebeldes sonhavam que o novo Shogun seria o Ministro da Guerra Anami. O parentesco entre Anami e Takeshita fez com que os rebeldes achassem que o Ministro da Guerra estaria tacitamente de acordo com o golpe, o que o tempo mostraria que não era verdade. O Ministro da Guerra Anami foi fiel aos desejos de paz do Imperador Hirohito.

RESPOSTA DOS ALIADOS AO DESEJO DE PAZ MANIFESTADO PELO IMPERADOR HIROHITO:

Na resposta dos aliados à aceitação dos termos de Postdam pelos japoneses, feita no dia 12 de agosto, havia dois problemas que deixaram os japoneses em polvorosa:

1) Passava a ideia de que o Imperador japonês teria que se submeter às ordens do Supremo Comandantes das Forças de Ocupação Aliadas.

2) O povo japonês seria chamado para que, por meio de eleições livres, escolhesse a forma pela qual iria querer ser governado.

A resposta dos aliados atiçou ainda mais os militares que queriam continuar lutando. Estaria o Sistema Nacional Imperial japonês preservado sendo que o Imperador teria que se submeter às ordens do Comandante Supremo dos aliados? O imperador tornar-se-ia um simples lacaio. Como o Sistema Nacional Imperial japonês, na cabeça dos mais fanáticos, era uma concessão divina, ele não poderia ser submetido ao povo por meio de uma eleição. 

Os pacifistas, por sua vez, mesmo com essa resposta dos aliados, continuavam defendendo a rendição, pois não viam outra chance de sobrevivência do Japão. Sem rendição, o Japão seria feito tábula rasa pelos aliados, com suas bombas atômicas, com o ataque da URSS na Manchúria, etc. Enfim, para os pacifistas, o Japão não estava em posição para barganhar muita coisa.

Diante da resposta aliada, o Imperador Hirohito disse ao seu Ministro das Relações Exteriores Togo:

"Compreendo o risco que corremos, mas minha prioridade agora é terminar a guerra." (página 227)

Os pacifistas eram otimistas sobre a convocação do povo japonês, por meio de uma eleição, para escolher seu sistema de governo. Acreditavam que os japoneses iriam votar a favor da manutenção do Império. Confiavam na lealdade dos japoneses em relação ao Imperador Hirohito. 

DIA 14 DE AGOSTO DE 1945 - O DEUS FALARIA OUTRA VEZ:

No dia 14 de agostos de 1945, visando romper o impasse de uma vez por todas, uma nova Conferência Imperial foi convocada. Nela mais uma vez aqueles que era a favor da rendição e aqueles que eram contra ela se manifestaram, tendo o Imperador Hirohito como ouvinte. No final, o Imperador, que era visto como um Deus pelos japoneses, mais uma vez se manifestou, reiterando seu desejo que a guerra acabasse. 

O PRIMEIRO PLANO GOLPISTA FRACASSA:

Enquanto o Imperador mais uma vez manifestava seu desejo pela paz, no lado dos militares rebeldes as coisas iam de mal a pior. O primeiro plano golpista teve que ser abandonado, pois os rebeldes não conseguiram angariar para si o apoio do Ministro da Guerra Anami e do Chefe do Estado Maior do Exército, o general Uzema. Diante disso, os rebeldes teriam que preparar um outro plano, mais modesto, mas que no fim conseguissem impedir a rendição japonesa com a continuidade da guerra.

A VOZ DE DEUS GRAVADA:

Na noite de 14 de dezembro o Imperador Hirohito gravou a sua voz para ser veiculada para todos os Japoneses. A voz de Hirohito comunicaria aos japoneses que a guerra tinha terminado, que seria necessário suportar o insuportável e tolerara o intolerável. O termo "rendição" não fora usado, mas era disso que se tratava e os japoneses, chorando, entenderam que o Japão tinha perdido a guerra para os Aliados. 

O SEGUNDO PLANO GOLPISTA:

O primeiro plano golpista para impedir a rendição japonesa tinha dado errado. Um segundo plano, mais esvaziado, foi elaborado. Esse segundo plano tinha como objetivo principal impedir que a gravação do Imperador Hirohito sobre a rendição japonesa fosse transmitida. 

"...planejaram mobilizar a Divisão de Guarda Imperial durante a noite (14/08), apoderar-se do Palácio Imperial e de seu precioso morador (o Imperador), e assumir o comando das transmissões de rádio, ocupando a sede da Companhia Japonesa de Radiodifusão - na Rádio Tóquio." (página 314)

O golpe teve início na madrugada do dia 15 de agosto. O Palácio Imperial foi dominado. Os rebeldes foram atrás das fitas com a gravação do Imperador. Não a encontraram. Rebeldes foram à rádio - NHK - japonesa atrás da gravação e também não a encontraram. Outros rebeldes saíram pela cidade de Tóquio, indo atrás dos conselheiros do Imperador, como o Primeiro Ministro Barão Suzuki. Não o encontraram também. No início da manhã do dia 15 de agosto, a rebelião foi contida pela ação do General Tanaka, comandante do Distrito Oriental do Exército, o Tobugun. O Palácio Imperial se viu livre dos rebeldes. 

A VOZ DE DEUS É TRANSMITIDA A SEUS SÚDITOS:

A gravação do Imperador Hirohito foi transmitida às 11;45 da manhã do dia 15 de agosto de 1945. Era a mensagem de rendição do Império Japonês. O Japão tinha perdido a guerra. Hirohito terminou sua mensagem dizendo que os japoneses teriam que suportar o insuportável e tolerar o intolerável. Enfim, o Japão tinha se rendido. A guerra tinha acabado.

Nos dias seguintes alguns tumultos iriam ocorrer. Um novo governo japonês  seria instalado. E o General Macarthur, o Supremo Comandante das Forças Aliadas, chegaria ao Japão para concretizar os termos de Postdam. 

A rendição japonesas seria formalizada durante uma cerimônia realizada no navio americano USS Missouri, em 2 de setembro de 1945. 

ANOTAÇÕES EXTRAÍDAS DA LEITURA DO LIVRO "HISTÓRIA SECRETA DA RENDIÇÃO JAPONESA DE 1945", LESTER BROOKS, EDITORA GLOBO LIVROS.



segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Otto Von Bismarck alcança o poder Ferro e Sangue Sadowa 1866


MINISTRO-PRESIDENTE DA PRÚSSIA:

Em 26 de setembro de 1862 Otto Von Bismarck finalmente alcança o poder na Prússia, tornando-se Ministro-Presidente. 

PRIMEIRO DISCURSO DE BISMARCK COMO MINISTRO-PRESIDENTE DA PRÚSSIA - FERRO E SANGUE:

Em seu primeiro discurso como Ministro-Presidente da Prússia, Bismarck disse que a Prússia precisava fortalecer seu exército para quanto surgisse o momento de vantagem. Assim, era urgente que o Landtag (parlamento prussiano) liberasse dinheiro para a reforma do exército prussiano. Bismarck asseverou que os problemas da Prússia não seriam resolvidos com discursos e decisões majoritárias tomadas no interior do Landtag, "...mas com ferro e sangue." (página 231)

Anteriormente, em 1859, Bismarck, quando ainda era embaixador da Prússia na Rússia, havia dito que que a Prússia só se tornaria forte com Ferro e Fogo (ferro et igni). Em seu discurso de 1862, ele manteve o tom que havia sido adotado em 1859, trocando apenas o fogo pelo sangue.

LACUNAS NA CONSTITUIÇÃO PRUSSIANA:

Na Constituição Prussiana havia lacunas. Essas lacunas deram ensejo à criação de uma teoria, a Teoria das Lacunas na Constituição  (luckenteorie). Bismarck se valeria dessa teoria para tocar seu governo, mesmo não tendo maioria no Landtag, o parlamento prussiano. 

"...em caso de conflito entre a Coroa e o Parlamento - uma questão na qual a Constituição deixava uma 'lacuna', os poderes residuais continuariam com a Coroa. Assim, a Coroa tinha um direito perfeito de dar continuidade ao governo, coletar impostos e realizar gastos, mesmo se a legislatura se recusasse a aprovar esses atos." (página 44)

BISMARCK FAZ USO DA DEMOCRACIA PARA FAVORECER SEU PLANO DE UNIFICAR A ALEMANHA:

Bismarck era um homem desprovido de princípios. Dessa forma, mesmo sendo no fundo um reacionário, ele manobrou a ideia democrática de um Parlamento escolhido diretamente pelo povo alemão para confrontar os pequenos estados alemães e seus príncipes. Esse mesmo Bismarck que via como favorável ao seu plano o patrocínio de uma Assembleia Nacional Alemã eleita pelo povo germânico, tornava-se simultaneamente aliado do Império Russo no sufocamento de uma revolta polonesa contra o domínio russo, eclodida no ano de 1863. Nesse último caso, a Prússia precisava angariar para si a simpatia ou pelo menos a neutralidade russa quando chegasse a ocasião da Prússia enfrentar a Áustria pelo domínio da Alemanha. Outra prova da falta de princípios de Bismarck foi a sua política de driblar a Constituição para elaborar um decreto que buscava limitar a liberdade de expressão da imprensa prussiana. Enfim, Bismarck era um homem desprovido de princípios, valendo-se de políticas democrática e reacionárias de forma simultânea, desde que elas atendessem ao seu objetivo final, a Unificação da Alemanha sob o comando da Prússia.

Esses pequenos estados alemães e o seu patrono, a Áustria, temiam o sufrágio universal de todos os alemães, pois temiam que essa seria a fórmula para a sua derrocada. A Áustria temia que as várias nacionalidades (húngaros, croatas, eslovacos, tchecos, sérvios, etc) que compunham o seu Império tivesse direito ao sufrágio universal. Já os pequenos estados alemães temiam que os habitantes de seus territórios os derrubassem por meio do voto.

Bismarck então, dessa forma, procurava amedrontar os pequenos estados alemães, cujos príncipes temiam que o sufrágio universal viesse a lhes tirar a legitimidade.

ÁUSTRIA:

Enquanto a Prússia de Bismarck manobrava para obter a unificação alemã sob o seu comando, a Áustria também se movimentava por meio de seu Imperador Francisco José. Francisco José pretendia reformar o Bundestag (Parlamento que reunia representantes de todos os Estados alemães, localizado na cidade de Frankfurt am Main) como um estágio preparatório para a realização da unificação alemã sob o comando austríaco. Para realizar seu plano, Francisco José convocou uma reunião para a qual seriam chamados todos os estados alemães, inclusive a Prússia, cujo rei, Guilherme, nominalmente era vassalo do Imperador Francisco José. 

"O rei (Guilherme da Prússia), um vassalo real, havia recebido chamado de seu suserano, o Imperador Francisco José; todos os demais reis germânicos concordaram em participar." (página 251)

Bismarck não queria que o rei Guilherme participasse dessa reunião patrocinada pelo Imperador Francisco José. Bismarck teve que trabalhar para demover o rei Guilherme de participar da reunião. Conseguiu fazê-lo. Com sua vitória, Bismarck mudou a história do mundo. Se o rei prussiano Guilherme fosse à reunião de Francisco José, Bismarck iria renunciar, deixando de ser o Ministro-Presidente da Prússia, "...a história da Alemanha e do mundo teria seguido por um curso diferente." (página 253)

Para frustrar a iniciativa do Imperador Austríaco Francisco José, além de impedir a ida do Rei Guilherme à reunião, enviou uma mensagem ao Bundestag dizendo que a Prússia só participaria do encontro se houvesse um acordo sobre uma verdadeira Assembleia Nacional constituída pelo sufrágio universal dos alemães. Mais uma vez, Bismarck, de forma cínica, jogava a carta democrática do sufrágio universal para amedrontar a Áustria e os pequenos estados alemães. Bismarck sabia de antemão que a Áustria e os pequenos estados alemães não poderiam aceitar a constituição de uma Assembleia alemã eleita por meio do sufrágio universal.

"A ameaça de sufrágio universal para o povo alemão deu fim ao projeto austríaco. Se a nação alemã falasse colocaria fim ao poder dos pequenos estados alemães no Bundestag e, ademais, o sufrágio universal nas terras habsburgas (Áustria) daria poder às nacionalidades, em suas lutas por representação e autonomia [...]. Aqui vemos, mais uma vez, a habilidade tática de Bismarck. Ao colocar os povos contra os príncipes, as nacionalidades contra a monarquia habsburgo, ele coloca a Prússia, isto é, a si mesmo - no perfeito ponto de alavancagem. Se os príncipes cooperassem, o povo os ameaçaria menos; se não, mais. (página 254)

O BISMARCK ALIADO DOS SOCIALISTAS:

Como dissemos acima, Bismarck era um homem sem princípios. Nesse sentido, mesmo sendo um reacionário, ele buscou se aproximar agora dos socialistas alemães. Valia tudo para conseguir seu objetivo de unificar a Alemanha sob a administração prussiana. Assim, Bismarck buscou a aproximação com Ferdinand Lassalle (1825-1864). Bismarck tinha já jogado o povo contra os príncipes dos pequenos estados alemães por meio da proposta do sufrágio universal. Ele agora iria jogar os trabalhadores alemães contra a burguesia liberal, a detentora do capital, que causara tanta dor de cabeça a Bismarck durante votações de propostas de interesse da Coroa no Landtag. 

O IMPASSE NO LANDTAG (PARLAMENTO PRUSSIANO) PERSISTIA:

Não obstante todos os esforços despendidos por Bismarck, o impasse persistia entre Coroa e deputados persistia no Landtag. Esse impasse só seria superado graças a eventos externos. A melhor forma de se obter a coesão interna é conseguindo sucesso no exterior. Dessa forma, Bismarck, por meio de uma guerra contra a Dinamarca, pela posse dos Ducados de Holstein e Schleswig, iria vencer a oposição liberal ao ser governo. Nesse conflito a Prússia lutaria ao lado da Áustria. 

Em 7 de dezembro de 1863, o Bundestag escolheu agir para forçar a Dinamarca a abandonar a ideia de anexar os ducados de Holstein e Schleswig. 

GUERRA DA SUCESSÃO DINAMARQUESA - 1864:

A Guerra da Sucessão Dinamarquesa foi a chance que Bismarck precisava para unir seu país internamente. 

Em 12 de janeiro de 1864, o rei dissolveu o Landtag porque este havia rejeitado a proposta encaminhada da coroa que previa o financiamento do exército prussiano na guerra contra a Dinamarca. No final, as forças combinadas da Prússia e da Áustria derrotaram a Dinamarca.

Acordo de Paz de Viena - O rei dinamarquês aceitou renunciar a seus direitos sobre os ducados de Holstein e Schleswig, entregando-os aos reis da Prússia e ao Imperador da Áustria. 

"Com efeito, a Prússia havia agora anexado Schleswig e a Áustria tinha um exército de ocupação em Holstein, a centenas de quilômetros de sua fronteira, em um território que lhe era totalmente inútil." (página 288)

Em 1865, Bismarck estabeleceu condições que na prática anexavam os ducados de Schleswig e Holstein à Prússia. O Império Austríaco protestou vigorosamente contra isso, dizendo que a atitude da Prússia era inaceitável. A Prússia tentava transformar Schleswig numa província prussiana. A Áustria, por sua vez, contra-atacava no Bundestag, fazendo passar uma proposta para passar Holstein para o duque de Augustenburg, criando assim um novo estado pequeno alemão, para desgosto de Bismarck. 

A ENCRUZILHADA DE BISMARCK:

No segundo semestre de 1865, Bismarck se via diante de dois caminhos: 

1) seguir um caminho de confronto com a Áustria como único meio de a Prússia finalmente prosperar. Para isso, Bismarck via a França neutralizada, enfrentando problemas em sua aventura no México. A Grã-Bretanha já tinha atuado para ajudar a Dinamarca diplomaticamente na guerra de 1864 e agora provavelmente não faria nada. A Rússia estava lidando com problemas internos causados pela emancipação dos servos. A Rússia também não iria atuar para a ajudar a Áustria, tendo em vista que está a prejudicou durante a Guerra da Crimeia (1854/1855). Enfim, provavelmente, essa três grandes potências não iriam se meter numa guerra civil alemã entre Prússia e Áustria. 

2) outro caminho seria seguir o Sistema de Schonbrum, pelo qual havia um acordo entre Áustria e Prússia para manter o controle solidário e conjunto sobre a Alemanha.

Bismarck escolheu pela guerra, escolheu Ferro e Sangue.

GUERRA ENTRE ÁUSTRIA E PRÚSSIA:

Em abril de 1866 a Prússia levou ao Bundestag a proposta de uma Assembleia alemã eleita pelo voto direto e universal. 

"Bismarck tinha evocado o poder da democracia para flanquear os austríacos e os Estados federais alemães no conhecimento de que os Habsburgos, com seus 11 grupos nacionais e a crescente ameaça do nacionalismo, jamais conseguiriam competir nesse sentido." (página 308)

"Em 1866, ele brandiu a democracia nos Habsburgos como se lea fosse uma cruz diante de um vampiro..." (página 308)

Liberais de verdade e esclarecidos, sabiam que Bismarck usava a carta da Democracia contra a Áustria não por ser um genuíno liberal, mas para emparedar seu inimigo e os pequenos estados alemães, cujos príncipes seriam dizimados pelo sufrágio universal. 

Um jornal liberal alemão chegou a comparar Bismarck com o demônio:

"Se Mefistóles tivesse subido no púlpito e lido o Evangelho, alguém conseguiria se sentir inspirado pela prece?" (página 308)

Os antigos amigos conservadores de Bismarck também o atacavam. Ernst Ludwig Von Gerlach, um dos responsáveis pela ascensão de Bismarck, criticava a política de confronto de Bismarck contra a Áustria, dizendo que a Alemanha sem a Prússia não é a Alemanha e que a Alemanha sem a Áustria igualmente deixava de ser a Alemanha. Gerlach também criticava o sufrágio universal, dizendo que a adoção desse sistema ocasionaria a falência da política.

Naquele primeiro semestre de 1866, Bismarck usava a carta democrática do Sufrágio Universal e simultaneamente já preparava o exército prussiano para atacar a Áustria. 

Em 9 de maio de 1866, por iniciativa da Saxônia, o Bundestag exigia que a Prússia explicasse a razão da mobilização de seu exército, com o aviso que os membros do Bundestag não podiam fazer guerra uns contra os outros, mas deveriam levar seus conflitos à Assembleia Federal em busca de uma solução pacífica. 

No fim, tudo seria definido na ponta da baioneta, no ferro e no sangue, como queria Bismarck. Bismarck insistia que somente um ato de violência resolveria a questão germânica de uma vez por todas. Esse ato de violência tomou forma na batalha de Sadowa, em 3 de julho de 1866.

BATALHA DE SADOWA - 3 DE JULHO DE 1866:

O pretexto da guerra - CASUS BELLI:



Antes da eclosão da guerra, Áustria e Prússia participaram de uma convenção em Bad Gastein. Os soberanos Guilherme e Francisco José participaram na condição de co-regentes dos ducados de Holstein e Schleswig. A ideia seria que Áustria e Prússia administrassem conjuntamente os ducados que tinham sido conquistados na guerra contra a Dinamarca, em 1864. O pretexto para a guerra nasceu quando a Áustria, sem o consentimento da Prússia, acionou o Bundestag para interferir nos termos da Convenção de Bad Gastein. Isso feria os interesses da Prússia. Essa violação então seria o Casus Belli usado pela Prússia para justificar sua guerra contra a Áustria.

O exército prussiano derrotou o exército austríaco de forma definitiva na batalha de Sadowa

A batalha desenrolou-se na Vila de Sadowa, a noroeste da cidade boêmia de de Koniggratz, atual Hradec Králove, na atual República Tcheca.

Além de Sadowa, outras batalhas foram travadas: na frente oeste, os prussianos enfrentaram batalhas em Hanover e em Hesse. Na frente leste os embates se deram na Boêmia e na Saxônia. Os príncipes prussianos Frederico Carlos, sobrinho do rei Guilherme, e o Príncipe herdeiro Frederico participaram brilhantemente das batalhas. Os austríacos tinham dois exércitos. O do norte seria derrotado em Sadowa-Koniggratz, era comandado por Ludwig Von Benedek. No sul, um exército austríaco derrotou um exército italiano, que tinha se aliado à Prússia. 

Os austríacos haviam sido cercados na frente italiana pela aliança de Bismarck com a Itália. Na Alemanha, a Áustria se via cercada por uma ideia, consubstanciada na promessa de Bismarck de criar uma Assembleia Nacional Alemã eleita pelo sufrágio universal. 

A vitória no exterior trouxe consigo a vitória política no interior da Prússia. Agora, o Landtag tinha uma composição mais favorável às políticas de Bismarck. 

Em 27 de julho de 1866 Áustria e Prússia assinaram um tratado de Paz, por meio do qual a Áustria se comprometia a se retirar da Alemanha. A Áustria não faria mais parte da associação dos Estados alemães. Foi formada uma Confederação de Estados no norte da Alemanha, sob a liderança da Prússia. O Reino de Hanover perdeu a independência e o rei Jorge, primo da Rainha Vitória da Grã-Bretanha, perdeu o trono. A Prússia ainda anexou o Ducado de Nassau e parte de Hesse-Kassel a norte de Main. A cidade de Frankfurt am Main foi anexada pela Prússia. A Áustria ainda teria que pagar uma indenização à Prússia.

O plano de Bismarck de unir a Alemanha sob o governo da Prússia ainda não tinha terminado. Um novo capítulo estava por vir. Mas essa é outra história.

ANOTAÇÕES EXTRAÍDAS DA LEITURA DO LIVRO "BISRMACK, UMA VIDA", DE JONATHAN STEINBERG, EDITORA AMARILYS.



sexta-feira, 24 de julho de 2020

São Petersburgo a Veneza do Norte






CONSTRUÇÃO DE SÃO PETERSBURGO:

A construção de São Petersburgo demandava muita mão de obra. Para viabilizá-la, Pedro emitia decretos todo ano convocando carpinteiros, pedreiros e, acima de tudo, trabalhadores rurais crus e sem habilidade específica para trabalhar em São Petersburgo. Torrente de infelizes fluíam para São Petersburgo. Recebiam uma quantia para viajar e outra para subsistência ao longo de seis meses de trabalho. Se sobrevivessem, teriam direito de voltar à casa. Oficiais e nobres cuidavam do recrutamento de trabalhadores em suas propriedades, como uma forma de pagamento de impostos na forma de envio de mão de obra. 

SÃO PETERSBURGO, UMA CIDADE CONSTRUÍDA SOBRE UM PÂNTANO:

O rio que passava por São Petersburgo era o Neva. Neva, em filandês, significa pântano. Os trabalhadores que construíram São Petersburgo viviam cabanas toscas, sujas, superlotadas e construídas sobre um terreno pantanoso. A deserção de trabalhadores era comum. O salário era pago de forma irregular. Doenças ceifavam vidas. 

UMA CIDADE CONSTRUÍDA SOBRE OSSOS:

São Petersburgo foi uma cidade construída sobre ossos. Estimativas variam de 30 mil a 100 mil trabalhadores mortos. (página 429)

UMA CIDADE QUE FOI CONSTRUÍDA PARA ATENDER OS DESEJOS DE UM AUTOCRATA:

Um autocrata pode tudo. E Pedro, o Grande, usava todo esse poder para edificar São Petersburgo.
Houve uma ocasião em que Pedro soube que a construção de sua cidade estava atrasada por falta de pedreiros. Imediatamente, Pedro ordenou que a construção de qualquer casa de pedra na Rússia acarretaria ao seu responsável as penas de exílio e perda de bens (429)
Naturalmente que todos os pedreiros da Rússia tiveram que ir a São Petersburgo, gostasse disso ou não, pois não haveria outra forma de arranjar trabalho.

PRIMEIRA VIAGEM DE UM CZAR RUSSO PELO MAR BÁLTICO NUM NAVIO RUSSO:

Em 1703, Pedro, o Grande, fez a primeira viagem de um Czar russo pelo Mar Báltico. Pedro mostrava-se ansioso por explorar aquelas águas. Sempre foi seu sonho criar uma marinha para a Rússia. Ele saiu de São Petersburgo, nas proximidades da foz do Rio Neva, que ficava a 20 km da ilha de Kotlin, onde seria construída a fortaleza de Kronstadt. À sua direita ficava Viborg/costa da Carélia, à sua esquerda ficava a Ingria (Narva). 

ANOTAÇÕES EXTRAÍDAS DA LEITURA DO LIVRO "PEDRO, O GRANDE" SUA VIDA E SEU MUNDO, ROBERT K. MASSIE, EDITORA AMARILYS,  capítulo XXVII


terça-feira, 21 de julho de 2020

Frei Vicente do Salvador Nenhum Homem Nesta Terra é Repúblico Sai a Cruz entra o Pau-Brasil


BRASIL:

Nos séculos XVI/XVII, Frei Vicente do Salvador, via nesse nome algo de profano e vulgar. Ele preferia a denominação Província Santa Cruz. 
A escolha pelo nome de Brasil ou Santa Cruz marcava a distinção entre o elevado e o vulgar, característica da Idade Média adotada pelo Frei Vicente do Salvador. No início, o nome Brasil era usado apenas na linguagem oral, pelas pessoas comuns. Já o nome Santa Cruz era usado em livros. 
Mas com o passar do tempo, para desgosto de Frei Vicente do Salvador, o nome Brasil passou a ser usado até em livros, borrando "essa distinção entre o digno e o vulgar." (página 59). Até Frei Vicente teve que se render e passou a usá-lo, inclusive na frase que encabeça essa publicação. 
Com efeito o nome Brasil tornou-se comum em livros que exaltavam as possibilidades de se enriquecer nessas terras. Esses livros relatavam histórias de um lugar no qual você chegava pobre e tinha a oportunidade de ficar rico, mudando sua condição social. Esses livros passavam a ideia segundo a qual por meio de um empreendimento individual, você poderia deixar sua condição de nascimento, alcançando um novo status social. Quem chegava ao Brasil, o fazia para buscar "remédio para a pobreza." (página 59/60). 
Livros que contavam histórias sobre a riqueza do Novo Mundo proliferavam pela Europa, como por exemplo 'Novus Mundus', de Américo Vespúcio, lançado em 1506 (página 60).
A América então não seguiria "o imutável padrão da vida medieval." (página 60)

FREI VICENTE DO SALVADOR:

Ele adotou o modo de pensar de seus contemporâneos medievais europeus. Buscava separar o vulgar do digno, o elevado do baixo, a nobreza do povo. Para Frei Vicente, o vulgar era o habitante dessa terra que usava o nome Brasil para denominá-la. O digno e o elevado era o nobre Português, os "grandes conquistadores de terras." (página 57)
Na frase que foi colocada em destaque no início dessa postagem, Frei Vicente fala "Da largura que a Terra do Brasil tem para o sertão eu não trato..." (página 57). Mesmo usando o nome Brasil, ele nunca o aceitou. Foi obrigado a usá-lo pois todos passaram a usá-lo. Ele preferia Santa Cruz. Frei Vicente do Salvador acreditava que a troca do nome Santa Cruz por Brasil tinha sido obra do demônio, que tirou a cruz do nome para arranjar um nome derivado "de um pau de cor abrasada que há muito nesta terra e com que se tinge os panos." (página 61) 
Portanto, na cabeça de Frei Vicente do Salvador, por obra do demônio, o pau-brasil tinha tirado a cruz do nome do território que viria a ser conhecido como Brasil. 
Frei Vicente criticava todos aqueles que usavam o nome profano Brasil no lugar de Santa Cruz. Criticava até o rei por usar o nome Brasil quando se referia aos seus domínios ultramarinos. Criticava também as pessoas que aqui viviam e que igualmente só faziam uso do nome Brasil. Esses últimos eram chamados de 'povoadores', retratados de forma negativa. Frei Vicente dizia que esses 'povoadores' queriam levar tudo o que adquiriam para Portugal: 

"...tudo pretendem levar para Portugal."
(página 62)

"Ainda os que cá nasceram não são senhores, mas usufrutuários que desfrutam e deixam a terra destruída. Donde nasce também que nenhum homem nesta terra é repúblico, nela zela ou trata do bem comum, senão cada um do particular."
(página 62)
Mas o desprezo que Frei Vicente tinha pelo vulgar, pelo baixo iria além. 

OS NOBRES PORTUGUESES, GRANDES CONQUISTADORES DE TERRAS, NÃO TINHAM PENETRADO PELO INTERIOR (SERTÃO) DO BRASIL:

Em sua frase, Frei Vicente do Salvador disse: "Da largura que a terra do Brasil tem para o sertão eu não trato, porque até agora não houve quem andasse por negligência dos portugueses, que sendo grandes conquistadores de terras, não se aproveitam delas,..." (página 57)
Na cabeça de Frei Vicente o interior (sertão) do Brasil estava intocado. porque os portugueses, grandes conquistadores de terras, os nobres, os elevados, ainda não a tinham tocado, razão pela qual ele, Frei Vicente, não iria escrever sobre esse interior, sertão. Essa visão elitista de Frei Vicente escondia o fato de que o interior do Brasil já era explorado. Mas era explorado por um tipo de gente que era desprezado por Frei Vicente, de forma que ele não iria tratar dessa exploração, ignorando-a. 

"De fato era - mas apenas pelas pessoas de qualidade, os 'portugueses' do 'Brasil' - os nobres, da esfera elevada que era a única (fonte) relevante para o historiador." (página 64)

Enfim, esses nobres da esfera elevada desconheciam o interior do Brasil, de forma que esse assunto deveria ser ignorado pelos escritos de Frei Vicente do Salvador. 

AVANÇO PELAS PESSOAS NÃO ELEVADAS PELO INTERIOR DO BRASIL:

Da Bahia, desde a década de 1570, havia incursões pelo vale do Rio São Francisco. Desde o início do século XVII, o interior nordestino era usado por criadores de gado. Moradores de São Paulo também procuravam desbravar o interior. 

"Em 1585, Jerônimo Leitão chegou ao rio Iguaçu, no atual Paraná."
(página 65)

Incursões paulistas ainda alcançaram a foz do rio Tocantins, na primeira década do século XVII. 

Observação: O Caranguejo mencionado pelo Frei Vicente do Salvador foi interpretado nesse livro como sendo representativo de um historiador que procura ignorar o conhecimento pelas pessoas de baixo, os analfabetos, aquelas pessoas que não pertenciam à nobreza, aqueles brasileiros que, por exemplo, criavam gado no interior do nordeste. Dessa forma, o historiador, assumindo o papel de um caranguejo, "...só pode afirmar sobre 'Brasil" aquilo que sabem alguns viventes, dos estreitos limites litorâneos..." (página 63)
No litoral do Brasil estavam os conquistadores portugueses, que por negligência não foram para o interior. E somente eles, pelo entendimento de Frei Vicente, poderiam produzir conhecimento sobre o Brasil. Enquanto esses nobres portugueses se restringiam ao litoral, havia os 'povoadores', aqueles que se aventuravam pelo interior do Brasil, caracterizados por Frei Vicente como destruidores da terra, cuja experiência não servia para um estudo histórico. 
Pensando dessa forma, Frei Vicente do Salvador não reconhecia a igualdade substancial entre as pessoas que habitavam aquilo que viria a se tornar o Brasil moderno. 

ANOTAÇÕES EXTRAÍDAS DA LEITURA DO LIVRO "NEM CÉU NEM INFERNO, ENSAIOS PARA UMA VISÃO RENOVADA DA HISTÓRIA DO BRASIL, EDITORA TRÊS ESTRELAS, Frei Vicente do Salvador e Caranguejo original.

Comparação de uma Dinastia Reinante do Século XVI com uma Empresa Multinacional


Na imagem acima vemos Filipe, o Belo, filho de Maria da Borgonha com Maximiliano I. Vemos ainda Joana, a Louca, filha dos Reis Católicos de Espanha Fernando e Isabel. Desse enlace, nasceria Carlos I, rei da Espanha, depois Carlos V, Imperador do Sacro Império Romano Germânico.

Um Dinastia Reinante no século XVI poderia ser comparada com uma Empresa Pública Multinacional. Um exemplo de Dinastia Reinante que se expandiu de forma espetacular é a representada pela Casa de Habsburgo. 
Se hoje a Coca-Cola é uma marca internacionalmente conhecida, com filiais existentes em praticamente todos os países do mundo, a Casa de Habsburgo era um nome conhecido em toda a Europa e fora dela. A Casa de Habsburgo possuía territórios espalhados pela Europa: Alemanha, Áustria, Hungria, etc. 
Todos esses territórios governados pela Casa de Habsburgo faziam parte do ativo dessa Casa Reinante ou como dito acima, dessa Empresa Pública Multinacional. Por meio desses territórios eram arrecadados tributos, que aumentavam ainda mais a riqueza e a influência dessa Dinastia/Empresa Multinacional. 
Da mesma forma como uma Empresa Multinacional tem empregados espalhados pelas suas filiais mundo afora, a Dinastia Reinante também tinha os seus, na forma de nobres que administravam seus territórios sob os nomes de Duques, Condes. 
Hoje uma Empresa Multinacional se expande por meio de seu poder financeiro, comprando outras empresas menores.
As Dinastia Reinantes, em cujas mãos residia o poder político, guiava-se pelos princípios da proteção da sua propriedade, da proteção do direto à herança e pela guerra. Governava-se por meio da adoção de uma hierarquia social rígida, na qual havia suseranos e vassalos. As Dinastias Reinantes adquiriam seus ativos, que eram as terras, por meio da compra, de casamentos, guerras, herança, etc.
A Dinastia Reinante da Casa de Habsburgo, uma verdadeira empresa pública multinacional no século XVI, expandia-se principalmente por meio de casamentos. Podemos ver isso claramente com a ação do então Imperador do Sacro Império Romano Germânico, Frederico III, que fez seu filho Maximiliano I se casar com Maria da Borgonha, herdeira dos Países Baixos (Flandres, atuais Bélgica e Holanda) e do Franco Condado (Besançon, na atual França). 
Não pararia por aí. O filho de Maximiliano I com Maria da Borgonha, Filipe, o Belo, casou-se com Joana, a Louca, uma das filhas dos Reis Católicos Fernando e Isabel. Desse casamento nasceram Carlos e Fernando. Carlos iria herdar o Reino da Espanha, depois da Morte do seu rei avô Fernando, então Rei da Espanha. Além da Espanha, Carlos I também iria herdar de seu avô Fernando as novas colônias espanholas nas Américas. 
A Dinastia Reinante da Casa de Habsburgo não precisou dar um tiro para conseguir todos esses novos territórios, agora nas mãos de Carlos I. Todo esse ganho territorial foi alcançado por meio de Casamentos. 
Carlos I ainda herdou de seu pai, Filipe, o Belo, o Franco Condado e os Países Baixos. O ápice viria com a eleição de Carlos I como Imperador do Sacro Império Romano Germânico, tornando-se assim Carlos V, trazendo para a sua Dinastia ou Empresa Pública Multinacional da Casa de Habsburgo, a Áustria, territórios na Alemanha e a Hungria. No reino de Carlos V, o sol nunca se punha. 
A eleição para a escolha do Imperador do Sacro Império Romano Germânico era feita por meio do voto de sete eleitores: os Arcebispados de Trier (Trèves), Colônia e Mogúncia (Mainz). Havia ainda os eleitores da Boêmia, Saxônia, Brandemburgo e Palatinado. Para ser eleito, Carlos I, então Rei da Espanha, teve que vencer o Rei da França, Francisco I, e o Rei da Inglaterra, Henrique VIII. Carlos I teve que comprar sua eleição, usando dinheiro do banqueiro Jaco Fugger para subornar os eleitores.
No fim disso tudo, a Dinastia Habsburgo/Empresa Multinacional sob a administração de Carlos V, tinha a Espanha, Nápoles, Sicília, Sardenha, Ilhas Baleares, as Américas, Áustria, Países Baixos, Alemanha, Hungria, Franco Condado. 

ANOTAÇÕES EXTRAÍDAS DA LEITURA DO LIVRO "REINOS DESAPARECIDOS", história de uma Europa quase esquecida, NORMAN DAVIES, EDITORA EDIÇÕES 70, Capítulo 4, Aragão.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Reino de Aragão e Ducado de Barcelona Embriões de Espanha e Catalunha



REINO EFÊMERO:

A cidade de Perpinhão, localizada no Rossilhão, é a capital da Catalunha francesa. O Rossilhão localiza-se no Pireneus orientais, na região francesa do Languedoc. Da cidade de Perpinhão avista-se os Pireneus orientais, uma Cordilheira de proporções monumentais, estendendo-se por 300 quilômetros, da Costa Vermelha no Mar Mediterrâneo ao Oceano Atlântico, na cidade francesa de Biarritz. Tem picos que alcançam até 3.404 metros, como em Aneto. Esse maciço acompanha a fronteira entre as atuais França e Espanha, com exceção do 'Vall d'Aran'. Uma parte da população de Perpinhão é de origem espanhola (muitos espanhóis, durante a guerra civil de 1936/1939, buscaram refúgio na França). O clube local de rugbi homenageia a Catalunha, usando em sua camisa as cores vermelho sangue e dourado. Perpinhão foi uma simples 'villa' romana. Mais tarde, no final do século IX, virou morada dos Condes do Rossilhão. Com efeito, depois do colapso do Império Romano do Ocidente, possessões senhoriais locais se viram encurralados pelo avanço do islã, que vinha pelo sul, e pelo avanço franco, que vinha pelo norte. Cada um desses senhores de terras acabaria por virar um conde ou um visconde, escondendo-se atrás de castelos e torres. A região ficou apinhada de castelos e torres. Alguns desses senhores prosperaram, enquanto que outros definharam. 

UMA SENHOR DE TERRAS SÓ EVOLUÍA, EXPANDIA SUAS POSSES, ÀS CUSTAS DE OUTROS SENHORES FEUDAIS. SÓ OS FORTES SOBREVIVIAM E CRIAVAM DINASTIAS DURADOURAS

"De forma gradual, à medida que o peixe miúdo foi sendo engolido, algumas dinastias dominantes tornaram-se dominantes."
(página 193)

POR QUE ESTAMOS FALANDO DO ROSSILHÃO E DE PERPINHÃO?:

Essas áreas, que hoje pertencem à França, no passado pertenceram ao Condado de Barcelona e ao Reino de Aragão, assuntos que serão abordados a seguir.

ARAGÃO - ORIGENS:

Antes de ser um reino, era uma localização geográfica, pela qual atravessava o um ribeirão de nome Aragão, cujo nome vem do basco ARAN, palavra usada para descrever um Vale. O ribeirão Aragão desce dos Pireneus, desaguando no vale do Rio Ebro. Essa região de Aragão também era conhecida como Jaca. Aragão fazia fronteira com Navarra (planície, na língua basca) a oeste. 

A RELAÇÃO DE CARLOS MAGNO COM A REGIÃO DE ARAGÃO E ADJACÊNCIAS:

Foi no final do primeiro milênio que os senhores cristãos que habitavam Aragão e adjacências começaram a guerra de Reconquista contra a dominação islâmica. Esses senhores cristãos deviam sua origem às campanhas empreendidas por Carlos Magno contra os islâmicos. Essas campanhas se deram quando Carlos Magno atravessou os Pireneus no ano de 778 (século VIII), entrando no que é hoje a Espanha. Em seu avanço pela região de Aragão, Carlos Magno só não conseguiu conquistar a cidade de Saragoça, que continuou sob domínio islâmico. 

Zonas Militares Tampões:

Para obstar o avanço islâmico a partir da Península Ibérica, Carlos Magno criou 4 zonas militares. Uma delas era chamada de Marca Hispânica, que se localizava dos Pireneus centrais até aos Pireneus orientais, onde se localizavam o Rossilhão e o Perpinhão. Abrangia inclusive a atual cidade de Barcelona. A Marca Hispânica era dividida em condados, cada um dos quais administrado por um 'comitatus' (comissário militar). Na Marca Hispânica fundiam-se elementos visigóticos, ibéricos e francos. Essa mescla resultaria na língua falada na Catalunha. 

FRANCOS E ISLÂMICOS PERDIAM FORÇA. ASCENSÃO DOS SENHORES FEUDAIS LOCAIS:

Com o passar do tempo, os francos, no norte, foram perdendo interesse pela Marca Hispânica. Os islâmicos também pararam com seu avanço para o norte. Esse período de tranquilidade no front externo deu ensejo a um fortalecimento dos senhores cristãos locais. Nessa época então duas zonas/localidades ganharam protagonismo:

-Condado de Barcelona: cidades de Girona, Barcelona
-Navarra: cidade de Pamplona

Adjacente a Navarra, a oeste, ficava Aragão. A oeste de Navarra, ficavam os territórios de Castela e Leão. Navarra era governada por Sancho, o Grande.

SANCHO, O GRANDE:

Senhor de Navarra, queria ser o "Rei de todas as Espanhas." (página 202)
Sancho planejou sua sucessão. Entregou Navarra ao seu filho legítimo mais velho. Um segundo filho dele ficou com Leão e Castela. Aragão foi atribuído ao seu filho bastardo, de nome Ramiro.
Os filhos de Sancho eram desunidos e faziam guerras uns contra os outros. Enquanto os filhos legítimos de Sancho brigavam entre si, Ramiro, o filho bastardo, cuidava de Aragão, buscando expandi-la pelos territórios da Marca Hispânica, como por exemplo, Ribagorza. Ramiro ainda conseguiu o título de rei. 

REINO DE ARAGÃO. INÍCIO DIFÍCIL, COM POUCOS RECURSOS. ARAGONISMO:

A principal cidade de Aragão ficava em Chaca ou Jaca, onde, em 1063, tornou-se sede do primeiro bispado aragonês. Havia ainda a cidade de Huesca (antiga 'Osca' Romana).
Ramiro foi morto quando comandava um cerco à uma fortaleza muçulmana. 
No início de sua existência, o Reino de Aragão não tinha boas perspectivas de sobrevivência. pois estava cercada pelos reinos de Castela e Navarra, a oeste. Havia os islâmicos no sul, em Saragoça. A leste havia o condado de Barcelona. Aragão ainda era um reino pobre. Não tinha acesso ao mar. Seu solo não era rico. 

"...planície desértica cujo solo é fino, calcário e salgado."
(página 199)

O verde de Aragão aparece somente nas Montanhas que circundam as planícies, com pastagens, carvalhais, etc.
Essa falta de riqueza colocava o rei de Aragão numa situação desconfortável, pois não tinha como presentear seus nobres/clientes, de forma que se via obrigado a permitir que os senhores feudais de seu reino adquirissem uma autonomia maior em suas áreas. 

"Em contraste com a tradição de Castela, o 'aragonismo' privilegiou o respeito pelas leis locais e descartou a autoridade centralizada."
(página 204)

Enfim, uma Monarquia, como a de Aragão, sem muitas posses, não tinha como agradar seus clientes aristocratas, de modo que estes recebiam do rei mais autonomia em suas localidades.

Legitimidade para um rei comandar:

Em Aragão, contava-se a história (ou lenda) de como o rei de Aragão conseguiu a legitimidade para governar seu povo: teria havia entre o rei e seus súditos uma espécie de pacto, do qual teria nascido a legitimidade do rei para governar seus súditos. 

"Nós (súditos) que valemos tanto quanto vós (rei), tomamos-vos como nosso rei desde que preserveis as nossas leis."
(página 204)

Dilema do Reino de Aragão:

Devorar seus vizinhos ou ser devorado por eles. Navarra, Castela e Leão estava a oeste. Condado de Barcelona estava a leste. Islâmicos estavam no sul. Se o Reino de Aragão avançasse contra seus vizinhos, traria animosidade e vingança contra si; se ficasse quieto, no seu canto, sem mexer com ninguém, poderia enfraquecer na estagnação, atraindo assim a cobiça de seus vizinhos. 

"Naquela época, os senhores da guerra devoravam os vizinhos ou eram por eles devorados."
(página 204)

Aragão resolveu seu dilema. Era melhor devorar seus vizinhos do que ser devorado por eles. No ano de 1118 (século XII), Aragão, sob o reinado de Afonso I, o Batalhador, conquistou a cidade de Saragoça, empurrando as fronteiras do reino para o Rio Ebro. Saragoça iria se tornar a sede do governo de Aragão. O estatuto régio de Aragão foi ainda confirmado pelo Papa. 

Estatuto régio de Aragão confirmado pela Igreja Católica:

A Coroação de um Rei era um ato solene. Era representativo, em todos os reinos medievais, da parceria entre a Igreja Católica e o Estado. No Reino de Aragão, que é o que nos interessa aqui, a cerimônia era realizada na Catedral de Saragoça. Era oferecida ao público uma prova concreta da vocação divina do soberano. Quanto mais elaborada fosse a cerimônia, melhor seria para criar na cabeça dos súditos a ideia de que, aquele sujeito com a coroa na cabeça, tinha realmente uma relação direta com Deus.

EXPANSÃO DE ARAGÃO E AS CRUZADAS DA PENÍNSULA IBÉRICA (GUERRA DE RECONQUISTA):

Aragão, ajudado por cristãos da Calábria, Borgonha e Aquitânia, invadiu a cidade muçulmana de Barbastros, que foi arrasada. Os cristãos tomaram vários muçulmanos como escravos. Os cruzados ainda partiram carregados com as pilhagens feitas na cidade. Apesar de toda essa violência, essa Cruzada foi abençoada pelo Papa. 

Reconquista e Castelões:

A reconquista foi a guerra empreendida pelos espanhóis pela expulsão do muçulmanos da Península Ibérica. Essa guerra não seria possível sem os Castelões, que acabaram se transformando numa poderosa aristocracia fundiária sustentada pelo trabalho de servos camponeses.

"Alguns destes ricos homens construíram pequenos Estados privados, estabelecendo-se primeiro como Condes e depois como duques."
(página 213)

A Espada andava junto com a Religião:

A reconquista da Península Ibérica na guerra contra os muçulmanos criou um catolicismo militante e tornou a espiritualidade mais intensa.

EL CID:

El Cid foi um personagem que viveu em meio ao surgimento do Reino de Aragão.
El Cid (Ruy ou Rodrigo Díaz), cognome 'O Campeador'. Era um Cavalheiro Castelhano de Vivar. Anos de 1040/199. O livro traz duas grafias para o nome de El Cid, Ruy e Rodrigo. El Cid, o Senhor da Guerra. Conhecido herói espanhol, cuja história foi bem diferente daquela que é contada. El Cid foi na verdade um Mercenário, que nada tinha de nobre. Chegou a vender os seus serviços para um emir árabe de Saragoça, Moktadir. 
No ano de 1070, encarregado de cobrar tributos em Sevilha, foi dispensado sob a acusação de peculato. El Cid ainda chegou a sitiar a cidade de Valência, à frente de um exército muçulmano. El Cid ainda devastou áreas adjacentes à cidade de Barcelona, saindo de lá carregado de pilhagens.

MORTE DE AFONSO I, REI DE ARAGÃO E CONQUISTADOR DE SARAGOÇA:

Com a morte de Afonso I, seu irmão, sob o nome de Ramiro II, o Monge, assume o trono. Com o nascimento de sua filha, Ramiro II abdica em favor dela e vai se internar num mosteiro, da qual tinha saído após a morte de seu irmão Afonso, com a missão de dar uma herdeiro ao reino de Aragão.
Dessa forma, Aragão passou a ser governado por um Conselho de Regência. Esse mesmo Conselho desde logo passou a buscar um casamento para a filha de Ramiro II. Esse casamento deveria ser politicamente vantajoso para o Reino de Aragão. Ele foi encontrado no Condado de Barcelona.

CASAMENTO DO REINO DE ARAGÃO COM O CONDADO DE BARCELONA:

No ano de 1137 (século XII), na cidade de Saragoça, capital do Reino de Aragão, Petronilha de Aragão (a filha de Ramiro II), com um ano de idade, foi prometida em casamento a Raimundo Berengário IV de Barcelona, que tinha 24 anos de idade. Passados 14 anos, o casamento foi consumando. Petronilha e Raimundo tiveram 5 filhos. Na prática, Raimundo Berengário governou Aragão e Barcelona. O herdeiro desse casal foi Afonso III de Aragão e I de Barcelona (1162 - Rei de Aragão e Conde de Barcelona).

"...o casamento de duas pessoas resultou no casamento de dois Estados."
(página 210)

RETRATO DA PENÍNSULA IBÉRICA NO ANO DE 1137 (SÉCULO XII):

Sul da Península: Califado de Córdova (cidades de Córdoba, Cádis, Sevilha)
Condado Portucalense (cidade do Porto - atual Portugal)
Noroeste da Península: Leão (cidade Santiago de Compostela)
Castela: Cidades de Toledo, Madrid e Burgos
Navarra: cidade de Pamplona
Aragão: cidades de Huesca, Saragoça. 
Condado de Barcelona: antiga Marca Hispânica. cidades de Perpinhão, no Rossilhão, Girona, Barcelona.

REINO DE ARAGÃO E CONDADO DE BARCELONA - CASAMENTO ESTRANHO:

- ambos conservavam suas leis.
- ambos preservavam suas línguas.
- preservavam suas cortes

O aragonês era mais aparentado com o castelhano do que com o catalão de Barcelona. 
Barcelona tinha mais história do que o Reino de Aragão. Barcelona foi fundada pelo irmão de Aníbal, no século III a.C.. Barcelona foi libertada dos muçulmanos por Carlos Magno. A casa de Condes de Barcelona vinha desde princípio do século IX. O primeiro conde de Barcelona era filho de um seguidor de Carlos Magno. O condado de Barcelona ainda era mais rico e extenso do que o Reino de Aragão.

FORMA DE GOVERNAÇÃO NA IDADE MÉDIA - DINASTIAS REINANTES:

Tudo se iniciava pela existência de uma Dinastia Reinante. A Dinastia reinante em Aragão tinha começado com Sancho, o Grande, que legou o território de Aragão para seu filho bastardo, Ramiro. O Reino de Aragão era apenas um exemplo na colcha de retalhos que era a Europa, cuja diversidade territorial era resultado da diversidade das dinastias reinantes na Europa. O controle político era encabeçado pela Dinastia reinante. A Dinastia reinante guiava-se pelos princípios da proteção da herança, pela defesa do patrimônio e pelas guerras. Nos reinos dinásticos a jurisdição era feudal, baseada na posse da terra; as relações interpessoais eram guiadas por uma hierarquia assentada na relação entre senhores e vassalos. Dinastias reinantes adquiriam terras e títulos por meio de casamentos, pela guerra, por legados, por concessões, pela compra e por doação. Dinastias reinantes perdiam terras e títulos por mortes na família, por derrotas na Justiça, pela venda ou pela derrota na guerra. As Dinastias Reinantes defendiam seus títulos e terras por meio de advogados, guerreiros e pela bênção de um clero que lhe era obediente.

Comparação de uma Dinastia Reinante com uma empresa multinacional:

Atualmente, uma Dinastia Reinante poderia encontrar paralelo com uma empresa multinacional. A Coroa de Aragão, junção do Reino de Aragão com o Condado de Barcelona, poderia ser vista como uma empresa política, com o nome 'Aragão' sendo usado como uma marca, um nome conhecido, para dar credibilidade à entidade criada. 
Sendo a Dinastia Reinante uma empresa política, ela precisa de ativos, que na Coroa de Aragão, nascida em 1137, era constituída por terras e receitas tributáveis.
Essas Dinastias Reinantes ou empresas políticas também tinham filiais, na forma de territórios autônomos, que eram administradas por nobres ligados a elas. Tinham também administradores, pagos pela Dinastia Reinante/Empresa Política.

COROA DE ARAGÃO (CORONA ARAGONENSIS). UNIÃO DO REINO DE ARAGÃO COM O CONDADO DE BARCELONA (1137)

Os governantes da Coroa de Aragão tinham seus nomes grafados em aragonês e em catalão. Alguns exemplos:

- Afonso II, El Casto/Alfons I, El Trubador
- Pedro II, El Católico/ Pere I, El Catolic
- Jaime I, El Conquistador/ Jaume I, El Conquerridor
- Pedro III, El Grande/ Pere II, El Gran

EXPANSÃO DA COROA DE ARAGÃO:

Entre os séculos XII e XV, a Coroa de Aragão foi devorando novos territórios. O peixe maior engolia o peixe menor. Combates contra os muçulmanos resultaram nas conquistas de Tortosa e de Lleida (Lérida). O Rossilhão (Perpinhão) também foi conquistado. A expansão, por meio de um casamento, alcançou a cidade de Montpellier. 

CASAMENTO: FORMA DE UMA DINASTIA ADQUIRIR UM TERRITÓRIO:

Montpellier (atualmente uma cidade francesa) foi adquirida pela Coroa de Aragão por meio de um casamento. No ano de 1204 (século XIII), o Rei de Aragão, Pedro II, casou-se com Maria de Montpellier. O dote foi a cidade. E não era uma cidade qualquer, muito pelo contrário. Localizada na planície do Languedoc-Septimânia, Montpellier cresceu em torno de uma colina fortificada para defesa das incursões muçulmanas. Tinha um comércio dinâmico, pela proximidade do vale do Ródano e da fronteira com o Sacro Império Romano Germânico. Enfim, era uma cidade rica, que poderia gerar uma ótima arrecadação tributária. 

REI TOMA EMPRÉSTIMO. NÃO TEM DINHEIRO PARA PAGÁ-LO. SOLUÇÃO: TERCEIRIZAR A COBRANÇA DE IMPOSTOS PARA O AGIOTA:

Reis normalmente faziam empréstimos. Quando não conseguiam pagá-los. terceirizavam a cobrança dos impostos, passando-a para aquele para aquele que tinha feito o empréstimo. Isso aconteceu com o Rei de Aragão, Jaime I, que contraiu um empréstimo e não conseguiu pagá-lo. 

"Benveniste de Porta (1250-1270), o banqueiro do rei (de Jaime I), avançou empréstimos garantidos pelos pelos impostos reais e, com a Coroa endividada em mais de cem mil coroas, tornou-se o cobrador de impostos do rei."
(página 224)

JAIME, EPÍTETO 'O CONQUISTADOR':

Jaime era filho de Pedro II com Maria de Montpellier. Jaime I tornou-se Rei de Aragão, Conde de Barcelona e Senhor de Montpellier. Jaime I ostentava o epíteto de "O Conquistador." 
Alguns feitos de Jaime I:
- Expulsão dos Mouros e tomada da ilha dos Baleares em 1229. Jaime I proclamou-se Rei de Maiorca.
- Conquista de Valência em 1304
- Tratado de Corbeil, entre França e a Coroa de Aragão, no qual houve um reconhecimento mútuo de fronteiras, títulos e soberania.
Jaime I teve dez filhos legítimos e outros tantos ilegítimos.
Ao morrer, Jaime I dividiu seu reino para seus filhos, cada qual recebendo uma parte da Coroa de Aragão. Essa divisão foi feita em testamento no ano de 1262. A divisão era essa:

- um dos filhos herdaria Aragão, Catalunha e Valência.
- outro herdaria as ilhas Baleares e o título de Rei de Maiorca, o Rossilhão e Montpellier.

UM REINO NO MAR:

O pai de Jaime I, Pedro II, sonhava em edificar um 'regne dins el mar' (um reino no mar). Esse sonho demandava vultosos investimentos. A arma naval preferida era a galé, mistura de remo com vela, uma versão aprimorada das birremes e trirremes gregas. Suas armas ofensivas eram o esporão e as catapultas. Batalhas navais contra os muçulmanos eram comuns. Do lado derrotado, quem não morria virava escravo. 

ILHAS BALEARES:

Chamadas de 'Gimnésias' pelos romanos. Era habitada pelos muçulmanos, um verdadeiro espinho na carne cristã. Os muçulmanos foram expulsos das Baleares pelo Reino de Aragão, no ano de 1229. Obra de Jaime I, o Conquistador. No ataque às Baleares, uma esquadra de galés rebocava navios couraçados de transporte de tropas, cujas proas se abriam para largarem os soldados na ilha.

"...1.500 sarracenos morreram, pois não havia a intenção de fazer prisioneiros."
(página 229)

CONQUISTAS RESULTAVAM NO FORTALECIMENTO DO PODER DA COROA DE ARAGÃO:

As conquistas territoriais da Coroa de Aragão fortaleciam o poder central, o poder do rei. O poder do rei aumentava, diminuía o poder dos nobres locais. A Coroa de Aragão tinha acesso a novas fontes de receita. Por exemplo: Em Minorca, uma das ilhas de Baleares, foi criado um estado vassalo muçulmano, que devia pagar um tributo anual a Aragão. 
O avanço da Coroa de Aragão ainda lhe concedia vantagem na corrida contra Castela. 

MAGNA CARTA DE ARAGÃO - PRIVILÉGIO GERAL DE 1283:

A expansão territorial da Coroa de Aragão só foi possível porque contou com a ajuda dos nobres locais, que por sua vez foram presenteados com terras e honrarias. Mas esses nobres queriam mais. Formaram a União das Liberdades, que exigia que o rei assinasse uma Carta consagrando os direitos e os privilégios dos nobres (garantia da prevalência da lei, promessa de realização de parlamentos anuais, etc). O sucessor de Jaime I assinou essa Carta, que foi confirmada pelos reis que vieram a seguir. 

O IMPÉRIO ARAGONÊS:

Territórios constituintes do Império Aragonês:

Aragão - Huesca, Saragoça
Condado de Barcelona - Barcelona, Girona
Valência
Ilha de Ibiza
Ilhas Baleares
Córsega - 1420
Sicília - 1302
Sardenha - 1323
Ilhas de Malta e Gozo - 1282
Reino de Nápoles - 1442
Grécia - Ducados de Atenas e Neopatras (1319-1390)

SICÍLIA - FREDERICO II HOHENSTAUFEN - ANGEVINOS - VÉSPERAS SICILIANAS - COROA DE ARAGÃO:

Também chamada de Trinátria ou Trinacrium. Os romanos chamavam a ilha da Sicília de Trinacrium, uma alusão a uma estrela de três pontas. Os gregos chamavam a ilha da Sicília de Trinátria, em razão de sua forma triangular.
A Sicília é a maior ilha do Mar Mediterrâneo.
A Sicília foi colonizada por vários povos: Fenícios, Gregos, Romanos, Bizantinos, Árabes e Normandos. Sicília, no início do século XIII, era governada pela Casa de Hohenstaufer, cujo integrante mais famoso foi Frederico II, Imperador do Sacro Império Romano Germânico (1215-1250), o 'stupor mundi' (Pasmo do Mundo). 
Frederico II era desafeto da Igreja Católica, razão pela qual ele e seus filhos foram excomungados pelo Papa. No ano de 1266, o Reino da Sicília, que incluía o sul da Itália, por decreto papal, foi dado a Carlos de Anjou (angevinos). Havia um descontentamento dos habitantes da ilha da Sicília com o governo dos Angevinos. Em 1282, uma revolta se abateu sobre a cidade de Palermo, na ilha da Sicília. Uma guarnição francesa foi massacrada. Essa revolta foi alcunhada de Vésperas Sicilianas. (página 234)
Os revoltados sicilianos, antigos partidários de Frederico II,  buscaram ajuda na Coroa de Aragão, cujo rei, Pedro III, era casado com Constança, neta de Frederico II e filha de Manfredo. A Coroa da Sicília foi oferecida a Pedro III. A revolta na Sicília, denominada de Vésperas Sicilianas, duraram 20 anos. Os sicilianos contaram com a ajuda da Coroa de Aragão, que com seus navios impediram a chegada de ajuda francesa pelo mar. 
Pedro III morreu em 1285. Em seu lugar assumiu seu filho Jaime III, o Justo. O desfecho das Vésperas Sicilianas veio em 1302. Os angevinos (franceses) mantiveram seus territórios no sul da Itália (Nápoles) e a Coroa de Aragão ficou com a ilha da Sicília.
Curiosamente, Nápoles continuou usando o nome de Reino da Sicília.
Jaime III, o Justo, foi coroado em Palermo em meio às Vésperas Sicilianas, em 2/2/1286. Foi coroado em nome de Deus e da Virgem Maria. Os notáveis da ilha se fizeram presentes (bispos, nobres, prelados, etc). Para aumentar o número de seus clientes na ilha, Jaime distribuiu feudos e honrarias locais.
Jaime III era filho de Constança com Pedro III. Constança era filha de Manfredo e neta de Frederico II Hohenstaufen. Constança ainda era viva no ano de 1300 e rainha-mãe de Jaime II de Aragão e de Frederico II da Sicília. 

AS DUAS SICÍLIAS MEDIEVAIS:

Primeiro de tudo: Aquilo que se convencionou chamar de Reino da Sicília foi fundado por Rogério, o Normando, em 1130 (século XII). Ele incluía a ilha da Sicília e o continente adjacente (Nápoles - sul da Itália). Esse Reino da Sicília foi herdado pela Dinastia Hohenstaufen no ano de 1196. Depois, por uma decisão do Papado, o Reino da Sicília foi passado para os Angevinos (dinastia francesa) em 1266.
Segundo ato: Houve a eclosão de uma revolta na ilha da Sicília contra o governo dos Angevinos. Essa revolta passou para a história com o nome de Vésperas Sicilianas (1282-1302). O desfecho dessa revolta redundou com a Ilha da Sicília sendo rebatizada de Reino da Trinátria (trinátria em razão da forma triangular da ilha - nome dado pelos gregos no passado) e atribuída para a Coroa de Aragão. Esse Reino da Trinátria também era chamada de Sicília Insular. Ficou com os descendente de Pedro III até o ano de 1516.
Terceiro ato: Após as Vésperas Sicilianas (1282-1302), como já dito acima, o então Reino da Sicília foi repartido em dois: a Ilha da Sicília passou para a Coroa de Aragão sob o nome de Reino da Trinátria. Já a parte referente ao continente, onde ficava a cidade de Nápoles, recebeu o nome de Reino de Nápoles ou da Sicília Napolitana ou finalmente de Reino da Sicília, e foi atribuída aos franceses da Dinastia dos Angevinos. Esse Reino de Nápoles foi governado pelos Angevinos até o ano de 1442 (século XV), quando então foi adquirida por Afonso V de Aragão, que a separou das suas outras possessões. Foi governado pelos descendentes de Afonso V até o ano de 1516 (século XVI), ano em que passou para a Espanha (páginas 235/236). 

FREDERICO II - LINHA SICILIANA DA CASA DE ARAGÃO. GOVERNOU A SICÍLIA EM PARALELO COM SEUS PARENTES EM BARCELONA E NAS ILHAS BALEARES:

Frederico II, filho de Pedro III e de Constança. Ele sucedeu seu irmão no trono da Sicília. 

AFONSO V DE SICÍLIA:

Afonso V governou a Sicília nos anos de 1416 a 1458. Era rei da Sicília por direito hereditário e, a partir de 1421, herdeiro designado do Reino de Nápoles. Afonso V foi um dos príncipes mais brilhantes da Renascença. Afonso V, o Magnânimo, ainda conquistou a Córsega e Nápoles. Em 1453, Afonso cedeu a Córsega aos genoveses, em troca de um empréstimo do Banco di San Georgio. 

REINO DE NÁPOLES:

Originalmente tratava-se de uma parte separada do Reino da Sicília, que após 1282 tinha ficado com os Angevinos. A Ilha da Sicília, nesse mesmo ano de 1282, ficou com a Coroa de Aragão. Localizava-se no sul da Itália. Era o maior e mais populoso Estado da Itália medieval, ocupando toda a metade sul da Península itálica desde a fronteira da Romanha ao calcanhar da 'Bota'. O Reino de Nápoles compreendia as regiões da Campânia, Molise, Abruzios, Puglia, Calábria e Basilicata. Essas regiões são conhecidas como Il Mezzogiorno, isto é, a Terra do Sol do Meio-Dia

"Sendo os Angevinos clientes do Papa, o reino era um protetorado tradicional do Papado."
(página 255)

"Durante 150 anos, depois da Guerra das Vésperas Sicilianas, os monarcas angevinos conseguiram manter-se na posse de sua herança napolitana. A sua disponibilidade para combaterem contra os seus parentes angevinos só era ultrapassada pela sua determinação em excluir os seus rivais aragoneses."
(página 254)

RAINHA JOANA II DO REINO DE NÁPOLES:

Reinou de 1414 a 1435. Governou um reino devastado pela violência e por escândalos. Governava em parceria com seus amantes. Não teve filhos. Não tinha herdeiros óbvio, de forma que saiu a procura deles. Mas era incapaz de tomar uma decisão a respeito de seu herdeiro. Era inconstante. Escolhia um sucessor e depois o descartava. Escolheu um angevino apoiado pelo Papa e depois mudou de ideia, escolhendo Afonso V (dinastia de Aragão) para depois também descartá-lo. Essa inconstância valeu para Joana II a fama de 'La regin é mobile'. (página 255)
Depois de escolher e rejeitar Afonso V, Joana II escolheu René de Anjou, conde de Provença. Isso tudo resultou em guerras pela sucessão napolitana (1420/1424 e 1435/1443).
Em 1442, René de Anjou fugiu de Nápoles, diante da aproximação das forças de Afonso V. Afonso entrou em Nápoles e:👇

"Governou ambos os reinos da Sicília, dando origem a uma união pessoal e a uma emanação precoce do Regnum Utriusque Siciliae, o <<Reino das Duas Sicílias>>. "
(página 255)

"Durante os sessenta anos seguintes, Nápoles esteve firmemente nas mãos de Afonso, o Magnânimo ou dos seus filhos"
(página 255)

MORTE DE AFONSO V, O MAGNÂNIMO:

Afonso V morreu em 1458. Foi sucedido por seu filho bastardo, Fernando I, Dom Ferrante. Vieram na sequência: Afonso II; Fernando II e Frederico.
Em 1504, o legado de Afonso V foi herdado pelos reis católicos Fernando e Isabel. 

DUCADOS DE ATENAS E NEOPATRIAS (1319-1390):

O Império Bizantino, acossado pelo avanço dos Otomanos, contratou os serviços de Mercenários em Barcelona. Esses mercenários catalães se reuniram numa Companhia Catalã, sob o comando de um ex-templário, Rogério de Flor/Ruggier Desflors ou ainda Roger Deslaur. Esses mercenários combatiam os otomanos na Anatólia. Por algum tempo, prestaram um bom serviço ao Império Bizantino. Mas com o passar do tempo, a indisciplina desses mercenários catalães se sobrepôs à sua utilidade, de forma que o Império Bizantino tentou se livrar deles, buscando eliminá-los. Aqueles que sobreviveram se uniram novamente, buscando novos membros entre bandoleiros dos Bálcãs. Os mercenários catalães então revigorados criaram os ducados de Atenas e Neopatrias (Grécia central). Atenas um "Mini-Estado catalão." (página 238).

PROBLEMAS CAUSADOS PELA EXPANSÃO TERRITORIAL DA COROA DE ARAGÃO:

"...forças centrífugas que puxaram as dependências para longe do núcleo."
(página 239)
por exemplo, puxavam as dependência (Reino de Maiorca) para longe do núcleo (as áreas ancestrais da Coroa de Aragão, com centro em Huesca, em Saragoça).

"Os ramos cadetes da Casa Reinante desdenharam dos seus superiores; os regimes autônomos implementaram políticas egoístas, e abriu-se um fosso cada vez maior entre o centro e as periferias."
(página 239)
por ramos cadetes ou periferia entenda, como exemplo, o Reino de Maiorca. Por seus "superiores", entenda o Reino de Aragão propriamente dito, com centro nas cidades de Huesca e Saragoça.

EXEMPLO DESSAS FORÇAS CENTRÍFUGAS:

1276: Conflito fratricida entre dois irmãos. Eram filhos de Jaime, o Conquistador. Um era Rei de Aragão. Outro era Rei de Maiorca. Durou mais de 50 anos! Os irmãos eram Pedro III e Jaime. Pedro III tinha herdado os territórios originais da dinastia, a sul e a oeste dos Pireneus (Huesca, Saragoça, Barcelona, Valência). Jaime era o irmão mais novo. Recebeu as Ilhas Baleares, o Rossilhão (Perpinhão) e Montpellier. O irmão mais velho, Pedro, não aceitava dividir seu poder com seu irmão mais novo. Que que seu irmão mais novo lhe prestasse vassalagem, dizendo que um rei de verdade não poderia se sujeitar aos desejos de um outro rei. No fim, Pedro saiu vencedor. Num episódio, as forças de Pedro ocuparam a ilha de Minorca, que faz parte das Ilhas Baleares. Minorca era governava por um emirato vassalo do Reino de Maiorca. As forças de Pedro entraram na ilha e fizeram 40 mil muçulmanos locais de escravos, vendendo-os em mercados localizados no norte da África (1287). A ilha foi repovoada por catalães. 
Apesar da derrota de Jaime, seu reino (Reino de Maiorca) prosperou sob o ponto de vista econômico, tornando-se um entreposto comercial entre o norte da África e a Europa. Súditos do Reino de Maiorca comerciavam com Londres, Bruges e exploraram até as Ilhas Canárias, no Atlântico. 

SARDENHA:

Foi conquistada em 1326 pelo ramo siciliano da Coroa de Aragão (linha trinacriana). Foi criado o Reino da Sardenha. O autor do feito foi o infante Afonso, cuja expedição zarpou da ilha de Maiorca, nas Baleares. Com a conquista, todos os cargos públicos na ilha foram reservados para os catalães, aragoneses e maiorquinos.

REINADO PEDRO IV:

1319 a 1387. Pedro IV era filho de Afonso IV e Tereza de Entença. Ao subir ao trono no ano de 1336, herdou domínios que se estendiam pelo Mediterrâneo, de Valência a Atenas. A vida de Pedro IV foi plena de guerras: guerra contra seus parentes; guerra contra os nobres locais; guerra contra o Rei de Castela, Pedro, o Cruel. Pedro IV conseguiu a façanha de sobreviver à Peste Negra, que matou sua mulher Leonor de Portugal. Pedro ainda eliminou o Reino de Maiorca. Perpinhão, no Rossilhão, e Maiorca, nas Ilhas Baleares, foram tomadas por tropas aragonesas. A Corte de Maiorca foi exilada. Em 1349, Jaime III, do extinto Reino de Maiorca, vendeu Montpellier para arrecadar fundos para tentar retomar seu reino. Fracassou, sendo morto em batalha, no ano de 1349. O filho de Jaime III, Jaime IV, viveu em Nápoles, como consorte da Rainha Joana I.
Como resultado de sua vitória, Pedro IV finalizou o processo de consolidação monárquica. Conseguiu impedir a fragmentação da Coroa Aragonesa.
Pedro IV morreu no ano de 1387
A morte de Pedro IV veio num momento em que a Coroa Aragonesa ganhavam em sofisticação. A administração tinha melhorado em função da expansão territorial. Havia um setor chamado de Memória do Rei (Chancelaria do Rei), onde se guardava cópias de documentos, cartas e leis. O papel era de fácil acesso devido à conquista de uma fábrica muçulmana de Xativa, em Valência, por Jaime, o Conquistador. 

"...foi a primeira fábrica de papel da Europa."
(página 249)

Na administração da Coroa aragonesa ainda existia a Bolsa do Rei, seu Tesouro Real, que mantinha registrado todas as transações financeiras realizadas. Havia ainda a Casa Real, ou o Corpo do Rei, com seus funcionários, burocratas e parentes reais.

REVOLTA DOS NOBRES NA COROA ARAGONESA - 1347

Em Aragão, o amo (senhor) podia maltratar o vassalo sempre que houvesse justa causa.

"...o controle da nobreza sobre os seus servos, cujo único recurso que tinham era a clemência dos opressores, tornara-se quase absoluto."
(página 245)

Você estará numa situação ruim se depender da clemência daquele que lhe oprime. Era exatamente essa a situação dos servos na Coroa de Aragão. Mas esses mesmos nobres que oprimiam seus servos não queriam ser oprimidos pelo Rei de Aragão, que era legalmente o suserano de todos eles. Dessa forma, os nobres se uniram outra vez, numa segunda União das Liberdades, para exigir da Coroa de Aragão mais direitos, inclusive o direito de rebelião contra a Coroa. A rebelião acabou num banho de sangue, na Batalha de Épila, perto de Saragoça, no ano de 1348. Mesmo saindo vitorioso, Pedro IV não chegou a implantar o despotismo régio. E no meio dessa violência, ainda havia a Peste Negra, que começou em Valência, em maio de 1348, onde matava 300 pessoas por dia. 

MARINHA ARAGONESA NO SÉCULO XIV:

Era a terceira marinha, perdendo apenas para Gênova e para os Emirados muçulmanos do Norte da África. Seus estaleiros encontravam-se em Barcelona, em Palma (ilhas Baleares - Maiorca) e em Valência. 

DESASTRES DINÁSTICOS EM ARAGÃO E CASTELA:

O desastre começava quando um rei morria sem deixar herdeiros ou deixando herdeiros menores. Em Castela, no ano de 1406, morreu Henrique III, o Doente, cujo filho e herdeiro tinha 1 ano de idade. Instalou-se uma regência com a rainha-mãe e com o irmão mais novo do rei falecido, Fernando de Antequera. Fernando tinha o epíteto de 'Antequera" porque foi nessa localidade que ele venceu os muçulmanos em uma batalha em 1410 (Andaluzia). Paralelamente outra crise dinástica acontecia na vizinha Aragão, cujo rei, Martim I, o Humano,  morreu sem deixar herdeiros óbvios. Vários pretendentes ao Trono de Aragão se apresentaram. Foi escolhido Fernando de Antequera de Castela. Fernando era de Castela mas sua mãe, Leonor, era filha do rei aragonês Pedro IV. Fernando não falava catalão. Fernando ainda teve que se impor, derrotando a oposição ao seu nome. Na Batalha de Montearagón, nos arredores de Huesca, impôs uma derrotava definitiva aos seus opositores. Dessa forma, Fernando de Antequera, de Castela, tornou-se Fernando I de Aragão. Reinou de 1412 a 1416. Em Barcelona, era conhecido como Ferran de Antequera.

FERNANDO I DE ARAGÃO:

Teve um reinado curto, de 1412 a 1416. Mas seu título era extenso:

"Ferdinandus, Dei Gratia Rex Aragonum, Sicilie, Valencie..."
(página 252)

"Fernando, pela Graça de Deus, rei de Aragão, Sicília, Valência..."
(página 252)
👇
e continuava...Maiorca, Sardenha, Córsega, Conde de Barcelona, Duque de Atenas, Duque de Neopatria, Conde do Rossilhão, Conde da Cerdanha.

TUDO EM FAMÍLIA:

Enquanto Fernando I governava a Coroa de Aragão, seu sobrinho era agora Rei de Castela, com o nome de João II. Um outro rei de João II iria governar a Coroa de Aragão. Esse João II de Aragão era o filho de Fernando I e primo do rei João II de Castela. Os rei de Castela, João II e o rei de Aragão João II, além de terem o mesmo nome, eram primos. 
As relações de parentesco entre as dinastias de Castela e Aragão iriam além. 

Havia duas Marias. Uma Maria era de Castela, irmã de João II de Castela. Ela iria se casar com Afonso de Aragão. A outra Maria era a de Aragão, irmã de João II de Aragão. Ela iria se casar com João II de Castela. Maria de Aragão e Maria de Castela eram primas e cada uma delas se casou com um primo.
O rei João II de Castela, além de primo de do rei João II de Aragão, agora seria também o seu cunhado. 

"A frase 'manter a coisa em família' adquire um novo significado"
(página 252)

MORTE DE FERNANDO I DE ARAGÃO:

Fernando I morreu em 1416. Seus dois filhos, João e Afonso, iriam suceder-lhe.

REINADO DE JOÃO II DE ARAGÃO:

João II sucedeu seu irmão Afonso. Casou-se com uma navarresa, passando 50 anos como governante 'jure uxoris (por direito da mulher) do Reino de Navarra. (página 253)
João II enfrentou uma guerra civil em Navarra (1450). Guerreou contra Luís XI da França e ainda enfrentou uma revolta catalã. 

O MATRIMÔNIO ENTRE ARAGÃO E CASTELA:

No dia 19 de outubro de 1469, em Valladolid, Fernando, de Aragão, e Isabel, de Castela, se casam. Fernando era o filho mais novo de João II de Aragão. Isabel era a filha única de João II de Castela. Esse casal seria conhecido como Fernando e Isabel, os reis católicos. 

PROEMINÊNCIA INTERNACIONAL DE ARAGÃO: COMBATE AOS OTOMANOS E BERÇO DE UM PAPA POLÊMICO:

1) Época de Afonso V, o Magnânimo: 
Aragão era um ator internacional desde há dois séculos, mas foi com Afonso V, no século XV, que o protagonismo de Aragão cresceu. 

"Parceiro igual no Conglomerado Ibérico, controlava também uma grande parte da península italiana e tinha muita influência no papado."
(página 256)

Pela posse se várias ilhas (Baleares, Ibiza, Córsega, Sardenha, Sicília, Malta), Aragão passou a ter o controle do comércio e da navegação. Com os Otomanos em Constantinopla a partir de 1453, Aragão assumiu a incumbência de enfrentar os turcos. 

2) Uma Família Aragonesa alçada ao estrelato internacional:
Estamos falando de uma família que originalmente habitou a Vila de Borja, na Província de Saragoça. Os membros dessa família trabalhavam com comércio. Mudaram-se para Valência. Alfons de Borja (1378-1458), era professor de direito na Universidade de Lleida. Pelos serviços prestados à Coroa de Aragão, fazendo a paz entre o rei aragonês e o papa, durante o Concílio da Basileia, acabou se tornando Cardeal. Em Roma, o Cardeal Alfons de Borja era chamado 'di Borgia'. Foi ainda eleito Papa com o nome de Calisto III, no ano de 1455. Como Papa, excomungou o cometa Halley, em 1456, quando ele passava pela terra. Anulou o julgamento de Joana D'arc. Ainda encheu Roma de funcionários aragoneses. Morreu em 1458. Mas antes de morrer, teve tempo de transformar seus sobrinhos Cardeais. Criou-se então em Roma uma facção denominada BÓRGIA. que se tornaria célebre pela corrupção e pelo nepotismo. Um desses sobrinhos foi Roderic Llançol de Borja (1431-1503). Ele controlou a administração da Igreja durante a vigência de cinco papas e foi pai de vários bastardos. (página 258)

"Em 1492, num conclave inundado de ducados de ouro, garantiu para si próprio o trono de São Pedro e, com o nome de Alexandre VI, liderou os destinos do Papado durante a sua era mais sacrílega."
(página 259)

Feitos do Papado de Alexandre VI:

- exploração das indulgências que desencadeou a Reforma Luterana
- bula alexandrina de 1493 que dividiu o mundo (o Novo Mundo) entre Espanha e Portugal
- ascensão e queda de Savonarola em Florença

"Dos seus filhos, Giovanni, duque de Gandia, foi assassinado; a muito difamada Lucrécia era fonte de histórias sinistras; e dizia-se que César Bórgia fora o modelo para o Príncipe de Maquiavel."
(página 259)

REINO DA ESPANHA:

Convencionalmente diz-se que o Reino da Espanha nasceu através da união pessoal de Fernando de Aragão com Isabel de Castela, no ano de 1469. Isabel e Fernando eram denominados os Reis Católicos. Foi o Papa Aragonês, Alexandre VI, que alcunhou Fernando e Isabel como Los Reyes Católicos, um epíteto com certeza merecido, pois esses dois reis adotaram várias políticas que favoreceram a Igreja Católica. Ei-las:

- Em 1474, Fernando e Isabel uniram seus Reinos adotando a Santa Irmandade, um sistema extrajudicial de política política e religiosa.
- Em 1482, Fernando e Isabel lançaram a Inquisição em toda a Espanha, liderada pelo dominicano Tomás de Torquemada. 

"Em 1492, depois da queda de Granada, expulsaram muitos judeus e mouros que não se quiseram converter ao catolicismo."
(página 262)

Isabel morreu em 1504. Fernando então torna-se rei hereditário de Aragão e regente de Castela. 

"....Fernando e seus sucessores reinaram sobre os dois reinos (Castela e Aragão) numa união pessoal plena."
(página 260)

Essa União entre Castela e Aragão criou um conglomerado formado pelos seguintes territórios:

Reino de Castela: Burgos, Santiago de Compostela (Leão), Madri, Córdoba, Cádis e Múrcia
Reino de Aragão: Saragoça, Huesca, Barcelona, Perpinhão, Valência, Ilhas Baleares

Vizinhos desses territórios unidos de Castela e Aragão, tínhamos o Reino de Portugal, Granada (emirado islâmico), Reino de Navarra (Pamplona). 

"As Coroas de Aragão e Castela foram mantidas estritamente separadas. A posição de Aragão é comparável à da Escócia depois da união das Coroas com a Inglaterra, em 1603; o monarca partiu para feitos maiores mas o velho reino permaneceu intacto."
(página 263)

DIFICULDADE NA SUCESSÃO DOS REIS CATÓLICOS:

Isabel e Fernando tiveram 5 filhos. Mas três morreram antes da mãe. O neto mais velho e herdeiro também morreu antes de Isabel. A quarta filha era Joana, de epíteto a "Louca". Teve que ser descartada. A quinta filha, Catarina, foi a azarada que se casou com o rei inglês Henrique VIII. Foi a primeira esposa de Henrique. Foi a primeira de um total de 6. 

CARLOS E FERNANDO, OS FILHOS DE JOANA, A LOUCA:

A solução foi encontrada nos filhos de Joana, a Louca. Eles eram Carlos e Fernando. Carlos e Fernando eram filhos de de Joana e de Filipe, o Belo, um Habsburgo da Borgonha. 
Em 1506, aquando da morte de Filipe, o Belo, a Borgonha de Filipe foi repassada para Carlos, o filho mais velho. Em 1516 Carlos ainda sucedeu seu avô Fernando em Castela e em Aragão. Em 1519 Carlos ainda foi eleito Imperador do Sacro Império Romano Germânico, adotando o nome de Carlos V. 
Algumas ações de Carlos V:

- nomeação de seu irmão mais novo, Fernando, para Imperador interino em Viena, no ano de 1521.
- em 1555 fez a divisão permanente dos territórios habsburgos; e limitou a governação de seu filho, Filipe II, aos territórios espanhóis.



ABDICAÇÃO DE CARLOS V EM 1556:

Subiram ao trono 4 reis da Casa de Habsburgo:

- Filipe II, o Prudente ( 1556-1598)
- Filipe III, o Piedoso (1598-1621)
- Filipe IV, o Grande (1621-1625)
- Carlos II, o Enfeitiçado (1665-1700)

Observação: Filipe II foi o primeiro homem a usar o título de Rei da Espanha.

TERRITÓRIOS NÃO IMPERIAIS DO IMPERADOR:

Quando Carlos I, rei de Castela e Aragão, tornou-se Carlos V, Imperador do Sacro Império Romano Germânico, os territórios de Castela e Aragão eram denominados de territórios NÃO IMPERIAIS do Imperador. Traduzindo: Aragão e Castela eram territórios do Imperador Carlos X, mas não faziam parte do Sacro Império Romano Germânico.
Aragão e Castela permaneciam numa união pessoal mas não constitucional e a eleição de Carlos V não as tornou uma dependência do Império Sacro Romano Germânico. 

UNIDOS MAS SEPARADOS:

Mesmo depois de 1555, o Reino-Condado (Aragão e Barcelona) continuou vivo, mantendo suas leis, instituições, línguas, tradições e suas ligações culturais e comerciais com seu antigo império. E houve revoltas contra as pretensões de hegemonia demonstradas por Castela. Castela, pela posse das Américas, tinha mais peso no Conglomerado Aragão-Castela). 

"Apesar da predominância de Castela e da sucessão das medidas centralizadoras emanadas da nova capital, Madrid, o particularismo aragonês fez-se sentir ao princípio do século XVIII"
(página 265)

INSURREIÇÕES CONTRA O PODER CENTRAL DE MADRID:

Sublevação da Catalunha em 1640-1652: Provocado por um período de tributação excessiva e pelo recebimento forçado de tropas nas zonas rurais. Esse conflito saiu caro para os cofres espanhóis. Muito sangue foi derramado. Um exército francês se aproveitou da confusão e entrou no norte da Catalunha. A sublevação acabou com o Tratado de Paz do Pireneus (1659). O preço da paz foi a entrega do Rossilhão e a Cerdanha para os franceses. Perpinhão agora pertencia à França. 
Outras revoltas:
Revolta das Barretinas, também na Catalunha (1687-1697).
3º Insurreição 1700-1713: Eclodiu no contexto da Guerra da Sucessão Espanhola. Aragão, Valência e Catalunha se organizaram numa federação autônoma e declararam apoio ao candidato austríaco Dom Carlos de Habsburgo. Castela e França estavam do lado oposto. Exércitos de Castela e da França uniram suas forças para esmagar os rebeldes. Barcelona caiu em 1714; Valência caiu em 1707; Aragão caiu em 1708. Com a Paz de Utreque (Utrech), Dom Carlos voltou para Viena. O candidato francês, Filipe de Bourbon, já estava em Madrid como Filipe IV. Preparava-se para introduzir leis e práticas de Castela em toda a Espanha. A língua catalão foi proibida em 1714. 

"A partir dessa altura, os costumes, a língua e governação castelhanos seriam monopolistas."
(página 268)

O nome Aragão perdurou como pouco mais do que uma unidade administrativa espanhola.
Aragão passou a ser visto apenas como uma região histórica da Espanha e não mais como um Estado soberano. 

SENTIMENTO DE INDEPENDÊNCIA DA CATALUNHA:

Aragão foi esquecido inclusive por seus antigos parceiros do Reino-Condado, os catalães.
Os catalães preferiam se ver como um Estado Catalão Medieval ou um Império Catalão ou ainda por vezes um <<reino>> não identificado. 
O sentimento de independência catalã era tão grande que, na década de 80 do século passado (século XX), quando Aragão confeccionou uma bandeira usando as cores dourada com listas vermelhas, os catalães prontamente protestaram, dizendo que somente a catalunha poderia usar uma bandeira com esse desenho. Com efeito, a bandeira da catalunha é dourada com quatro listas vermelhas, cuja história remonta há mais de mil anos atrás, quando a bandeira nacional da Catalunha, a Senyera, foi dada a Vilfredo Cabeludo. Segundo a lenda, "o guerreiro hirsuto jazia ferido no campo de batalha. O imperador Luís meteu os dedos nas tripas do conde e fez quatro riscos sangrentos no tecido dourado da capa. Aragão ainda não tinha nascido."
(página 269)


ANOTAÇÕES EXTRAÍDAS DA LEITURA DO LIVRO "REINOS DESAPARECIDOS", história de uma Europa quase esquecida, Norman Davies, Edições 70, Capítulo 4, Aragão, páginas 189-272