sexta-feira, 19 de julho de 2024

A Istambul do Sultão Constantinopla Capital do Império Otomano.



BREVE HISTÓRIA DE ISTAMBUL:

Tradicionalmente fundada por Bizas, no ano 660 a.C., a cidade contava com uma excelente localização defensiva, entre o mar de Mármara e o Corno de Ouro, com vista para o Bósforo. A cidade de Bizâncio beneficiou-se imenso de todo o comércio por terra entre a Europa e a Ásia, e da navegação pelo Bósforo até o Mar Negro.

Numa cerimônia no dia 11 de maio de 330, o Imperador Romano Constantino declarou que a cidade era a nova capital do Império Romano. A cidade então passou de Bizâncio para Constantinopla, tendo como religião o cristianismo e como língua o grego.

Durante mil anos, o Império Bizantino (Império Romano do Oriente) foi a maior e mais rica potência no mundo mediterrâneo. Em 1453, após um cerco de seis semanas, o exército dos Turcos Otomanos, liderados por Mehmed II, o Conquistador, assaltou e conquistou a cidade. Durante o século XVI, sob o domínio de Solimão, o Magnífico, o Império Otomano foi o maior do mundo. Desde o fracasso do cerco a Viena, em 1683, o Império Otomano entrou em declínio.

O SULTÃO:

O Sultão é o governante supremo do Império Otomano, tanto nos assuntos laicos (seculares) como nos religiosos. Todos os seus súditos lhe devem obediência. Todas as leis emanam do Sultão. O Sultão é o califa, de forma que ele é o chefe religioso supremo. É ainda o comandando do exército. 

REGRAS DE SUCESSÃO:

"PASSE O SULTANATO PARA QUE FILHO MEU PASSAR, É JUSTO QUE MATE OS SEUS IRMÃOS, A BEM DA ORDEM DO MUNDO." (MEHMED, O CONQUISTADOR)

Como não havia direito de primogenitura, qualquer filho do Sultão poderia sucedê-lo. Mehmed, o Conquistador, introduziu a lei do Fraticídio, segundo a qual qualquer novo Sultão pode ordenar imediatamente a execução de todos os irmãos, por estrangulamento, a fim de evitar o derramamento de sangue real (evitar golpes).

O Sultão tinha filhos com suas concubinas. Seu Harém tinha várias mulheres, todas elas infiéis convertidas ao islão.

O Harém era um viveiro de intrigas, com todas as mulheres lutando para garantir que quem sucedia ao Sultão era seu filho. 

Quando Ahmed I tornou-se Sultão em 1603, a lei do fraticídio foi substituída pelo encarceramento nos aposentos do Topkapi conhecidos pelo nome de Gaiolas. 

DEIXEM-ME COMER AS MINHAS CASTANHAS ANTES DE ME ESTRANGULAREM" (Um dos filhos de Murad III, que tinha 20 filhos, 19 dos quais executados após a sua morte; o outro, Mehmed III, ordenou as execuções após aceder ao trono.)


ANOTAÇÕES EXTRAÍDAS DA LEITURA DO LIVRO "A INSTAMBUL DO SULTÃO POR CINCO KURUS POR DIA", CHARLES FITZROY, EDITORA BIZÂNCIO



quinta-feira, 11 de julho de 2024

História em Quadrinhos do Irã Pérsia Guerra Irã Iraque Revolução Islâmica 1979 Persépolis

HISTÓRIA DO IRÃ EM QUADRINHOS. A VIDA DE E DE SUA FAMÍLIA COMO PANO DE FUNDO DA HISTÓRIA DO IRÃ

ORIGENS DO IRÃ. SÍNTESE HISTÓRICA:



A origem gloriosa do Irã está no Império Persa do período Aquemênida (550-330 a.C.). O Império Persa era uma terra em abundância,que ligava o Mediterrâneo ao coração da Ásia. Conquistou áreas que hoje correspondem ao atual Irã, Iraque, Síria, Jordânia, Israel, Turquia, Egito, Usbequistão, Paquistão e Afeganistão. Seu primeiro grande líder foi Ciro. Com a morte de Ciro, o Império Persa foi dividido entre seus filhos Cambises e Bardiya. Cambises tornou-se Faraó do Egito. Na sequência, os persas foram governados por Dario. O Império Persa seria derrotado pelos macedôneos, sob o comando de Alexandre, o Grande. Com a morte de Alexandre, em 323 a.C., seu império recentemente conquistado foi dividido. Sua parte oriental, que ia do rio Tigre ao rio Indo, englobando o atual Irã, ficou na posse de um ex-oficial do exército de Alexandre, Seleuco, daí o nome da dinastia, Selêucidas. Os Selêucidas seriam superados pelos Arsácidas e, depois, pelos Sassânidas. 

Na sequência, no século VII, no ano de 642, os árabes invadiram a Pérsia. Uma só batalha foi o suficiente para conquistarem o país. Derrotados, os persas adotaram o Islã, mas um islã de vencidos, um islã subterrâneo, esotérico e revolucionário, o xiismo. Com a morte de Maomé em 632, sua família foi afastada do poder, em benefício dos companheiros do profeta. Um genro e primo de Maomé, Ali, e o filho de Ali, Hussein, que tinha se casado com uma princesa pérsia da derrotada dinastia sassânida, foram assassinados um após o outro. Desse conflito, nasceu a separação do islã entre os sunitas, vencedores desse embate inicial, e os xiitas, seguidores de Ali e Hussein. 

A fidelidade aos derrotados Ali e Hussein representa também a fidelidade à linhagem sassânida do passado glorioso da Pérsia. 

No século X, a Pérsia foi dominada pelos ghaznávidas. No século XI, vieram os seljúcidas, seguidos pelos khwarazimitas, que foram sucedidos pelos mongóis nos séculos XII até o XIV, com a fundação do Ilkhan. No século XIV, chegou Tamerlão. Mesmo sob diversos senhores, a Pérsia manteve a sua cultura e a sua língua. Depois dos mongóis, vieram os safávidas (dinastia turcomena). Em 1795, outra tribo turcomena fundou a dinastia Qadjar. A Pérsia, então, nos séculos vindouros, viria-se alvo da cobiça da Rússia, da Inglaterra e dos EUA. Com a descoberta do Petróleo, a Pérsia se tornou ainda mais atraente para esse predadores externos. Em 1925, um oficial, Rezah Khan, tomou o poder e expulsou a dinastia Qadjar. ELE DEU OFICIALMENTE O NOME DE IRÃ AO PAÍS. A ocidentalização do país foi acelerada, para grande ira dos religiosos. Na Segunda Guerra Mundial, o norte do país foi ocupado pelos soviéticos, e o sul pelos ingleses. Em 1953, a CIA, órgão de inteligência dos EUA, organizou um golpe de estado no Irã, derrubando o então chefe de governo, Mossadeq, que contestava a divisão de lucros proveniente da exploração de petróleo por empresas estrangeiras. Mohammad Rezah assumiu o trono iraniano. Ficaria no poder até 1979, quando foi derrubado pela Revolução Islâmica comandada pelo Aitolá Khomeini. Essa é basicamente a história do Irã, herdada por Marjane e pelos seus país. A história de Marjane serve de pano de fundo para a história do Irã, da Revolução Islâmica de 1979 aos dias de hoje.

TEMPOS DE REVOLUÇÃO:


Marjane

Marjane era filha única. Sua mãe, dona de casa, enquanto seu pai trabalhava para o governo. Eram tempos de revolução. Os ídolos de Marjane eram Che Guevara, Fidel, Trotski. Ela sabia tudo sobre as crianças palestinas. Torcia pelos vietnamitas que lutavam contra os EUA. Protestos aconteciam no Irã. Queriam a queda do rei Mohammad Rezah. Na escola, os livros de Marjane diziam que Mohammad Rezah havia sido escolhido por Deus. 

Mas seu pai disse-lhe que era tudo mentira. A verdade é que 50 anos atrás, o pai do atual rei (ou Xá, como era chamado), que era soldado,tramou um golpe de estado para derrubar o governante da época e instaurar uma república. As potências ocidentais ficaram interessadas no plano. Apoiariam o golpe em troca do Petróleo iraniano. O golpe foi bem sucedido. Deus, enfim, não teve nada a ver com a ascensão de Mohammad Rezah ao poder. O governo de Mohammad Rezah sempre foi um ditadura, apoiada pelos EUA, Inglaterra. Opositores do regime eram presos, torturados, mortos. O fim do regime estava próximo. O povo queria que ele fosse embora. E, assim, Mohammad Rezah, sem ter mais apoio, abandonou o Irã. O povo do Irã comemorava a liberdade. Mas foi por pouco tempo. Uma outra ditadura viria para substituir a ditadura derrubada.

REVOLUÇÃO ISLÂMICA:

O pai de Marjane não se conformava e dizia: "A Revolução é de esquerda, mas querem que a República seja Islâmica." 

E foi examente assim que aconteceu. A população do Irã, a maioria, era analfabeta, de forma que não dava para reunir ela em torno do materialismo de Marx. A única coisa que unia aquelas pessoas era o nacionalismo, o ódio ao ocidente predador. Outra coisa que as unia era a religião. No fim, as pessoas votaram a favor da República Islâmica.

Muitos iranianos buscaram fugir do Irã. A maioria ia para os EUA. Enquanto isso, a repressão do novo regime começava, na forma de prisões e assassinatos. O tio de Marjane, pelo fato de ter morado na URSS por algum tempo, foi considerado comunista e, por essa razão, acabou morto na prisão. 



A República Islâmica buscava impor suas ideias à sociedade. Era preciso rever os livros e o sistema educacional. Era preciso acabar com a imoralidade vinda do ocidente, mantendo os jovens no caminho do islã. Para as mulheres, o véu passou a ser obrigatório. O código de roupas definia as pessoas. Uma mulher fundamentalista, usava devia cobrir todo o seu cabelo e corpo. Uma mulher moderna, deixaria à vista algumas mechas de seu cabelo. Um homem fundamentalista devia usar barba e as camisas para fora de sua calça. Já o homem progressista andaria barbeado ou com apenas um bigode e camisa para dentro da calça. Homens não deviam usar gravata, visto como um símbolo do ocidente. Mulher sem véu corria o risco de ser presa, pois o cabelo feminino era visto como algo que poderia excitar os homens. Para os homens, camisas de mangas curtas estavam proibidas, pois achava-se que os braços masculinos excitavam as mulheres.

GUERRA IRÃ IRAQUE:

Em 1980, começou a Guerra entre Irã e Iraque. A guerra piorou ainda mais a vida das pessoas que moravam no Irã. Supermercados quase vazios. Aumento do preço do combustível. Bombardeios do Iraque em cidades iranianas. Jornais iranianos saiam com páginas e páginas com os nomes dos mártires, jovens que tinham morrido na guerra. Meninos iam para a guerra, sob a promessa de, caso fossem mortos em combate, iriam ao paraíso. Para reforçar essa ideia, quando eram convocados, recebiam uma chave de plástico dourada. Caso tivessem a sorte de morrer em combate, essa chave abriria o Paraíso para eles. Geralmente eram meninos pobres, atraídos pela ideia de um Paraíso cheio de delícias, coisas que nunca tinham tido a chance de experimentar em vida. 

A CHAVE DO PARAÍSO ERA PARA OS POBRES. COM A PROMESSA DE UMA VIDA MELHOR,, MILHARES DE JOVENS IRANIANOS, COM A CHAVE PENDURADA NO PESCOÇO, EXPLODIRAM NOS CAMPOS MINADOS.

FINAL

Na escola, Marjane era rebelde, Durante as aulas, buscava contestar as mentiras que os professores contavam sobre o Regime Islâmico. Era uma atitude perigosa. Preocupados de que algo de muito ruim poderia acontecer com sua filha, os país de Marjane a mandaram para a Europa, onde ficou por 4 anos. Não foi uma experiência positiva para ela, tanto que seu viu obrigada a voltar para o Irã.

Ao retornar ao Irã, andando pelas ruas da capital, Teerã, se deu conta que a maioria das ruas contava com novos nomes. Eram os nomes dos soldados que tinha morrido na Guerra, já encerrada. Marjane ficou com a impressão de caminhar sobre um cemitério. Marjane, acabou entrando na Escola de Belas Artes. Mas Marjane não conseguia se readaptar à sociedade iraniana. Antes de partir, em 1994, a mãe de Marjane disse-lhe: "Desta vez você vai para sempre. Você é uma mulher livre. O Irã de hoje não é para você. Te proibo de voltar." 


ANOTAÇÕES EXTRAÍDAS DA LEITURA DO LIVRO PERSÉPOLIS, MARJANE SATRAPI, QUADRINHOS NA CIA.



A Morte de Stalin Uma História Soviética Real em Quadrinhos


 

A AGONIA DE STÁLIN:

Era final de fevereiro de 1953. Stálin estava no seu quarto, na sua Datcha, prestes a colocar um disco na vitrola quando teve um derrame.

A primeira pessoa a ver Stálin estirado no chão foi sua empregada, que achou que ele estivesse bêbado. Pediu ajuda a um guarda. O guarda colocou Stálin num sofá e foi embora correndo. Provavelmente ele seria fuzilado se Stálin viesse a se recuperar e soubesse que ele o tinha visto naquele estado deplorável. 

A empregada viu que a coisa era séria e telefonou para o Chefe da Guarda, que por sua vez ligou para Béria. Lavrenti Béria, de 54 anos, Membro do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética e Ministro do Interior. 

Béria

No momento do telefonema, Béria estava estuprando uma de suas funcionárias. Ao ser perguntado pelo Chefe da Guarda se deveria ser chamado um médico, Béria disse que não. Ninguém deveria tocar em nada. Béria, obviamente, não estava preocupado com a vida de Stálin. 

Béria chegou à Datcha de Stálin, sem antes mexer nos documentos do chefe. Eram os dossiês de Stálin. Nenhum médico foi chamado. Béria ligou então para Malienkov, dizendo-lhe que Stálin estava à beira da morte. Geórgi Malienkov, de 51 anos, era membro do Comitê Central do PCUS. Era secretário-geral adjunto. Ao chegar à Datcha de Stálin, Malienkov perguntou sobre os médicos, ao que Béria respondeu: "Não é de minha responsabilidade, de acordo com o último congresso do Partido. É você, Malienkov, o novo Secretário-Geral, que deve chamar os médicos." 

Malienkov, suando frio, afastou de si essa responsabilidade. Disse que seria preciso convocar um comitê para decidir sobre o acionamento de ajuda médica para Stálin. Assim, os outros membros do comitê foram chamados. Aos poucos, eles foram chegando.

O primeiro a chegar foi Nikita Kruschev, de 59 anos, membro do Comitê Central do PCUS. Na sequência, vieram Mikoyan, Kaganovitch e Bulganin. Todos eles se reuniram em torno do corpo de Stálin. Ele ainda estava vivo. Mas nada de um médico. O comitê precisava decidir sobre o óbvio: chamar um médico para tratar de um doente. O comitê então deixou o moribundo Stálin e se reuniu em torno de uma mesa para decidir. O problema é que o próprio Stálin, um pouco antes, tinha mandado prender, matar ou deportar os melhores médicos do Kremlin. Uma médica teria denunciando uma conspiração sionista que tinha como objetivo o assassinato de Stálin, daí o expurgo realizado por ele. 

Todos ali tenham medo de indicar algum médico. Béria então trouxe a solução: "Precisamos fazer uma lista de todos os médicos acima de qualquer suspeita. Cada um de nós deverá assinar a lista. Convocaremos então esses médicos."

A lista foi feita. Agora era procurar os médicos e trazê-los para a Datcha de Stálin. Nesse ínterim, começavam as conspirações em torno de quem iria assumir o lugar de Stálin. Havia dois candidatos: Béria e Kruschev.

Béria disse a Malienkov: "Faz tanto tempo que eu espero por isso. Durante anos suportei todos os caprichos desse velho senil, evitei suas armadilhas, chegou a hora, Georgi, a minha hora."

Os médicos, depois de examinarem Stálin, todos amedrontados, chegaram à conclusão de que ele teria sido vítima de uma hemorragia cerebral, que teria atingido partes vitais de seu cérebro. Seu lado direito estava paralisado. Coração funcionava com dificuldade. E como ele tinha ficado por várias horas sem atendimento médico, os prognósticos eram ruins. 

A filha e o filho de Stálin foram chamados. O filho de Stálin, general Vassíli, estava numa orgia regada a bebida e sexo. 

Ainda naquele dia, mais um membro do comitê do PCUS chegou à Datcha de Stálin, era Molotov, de 63 anos, Ministro das Relações Exteriores, conhecido pelo Pacto Ribbentrop-Molotov, de 23 de agosto de 1939. Esse Pacto causou furor na época, ao unir dois inimigos históricos, Hitler e Stálin. Hitler e Stálin dividiram a Polônia entre si. Stálin ganhou tempo e Hitler viu-se livre para atacar a França. 

Stálin finalmente morreu. Estava dada a largada para ver quem iria sucedê-lo. Béria e Kruschev disputavam a vaga. 

Béria estava confiante: "Tenho 1 milhão de homens sob minhas ordens. Tenho os dossiês de Stálin. Eles são meus. Todos estão em minhas mãos e não sabem disso. Em breve terei o poder."

A SUCESSÃO DE STÁLIN:

A notícia da morte de Stálin espalhou-se pelo mundo todo. 

Em março de 1953, o Comitê do PCUS se reuniu para decidir sobre o futuro da URSS sem Stálin.

Comitê formado por sete pessoas. Todas aquelas que foram chamadas à Datcha de Stálin quando de sua morte. Além delas, estava presente um herói russo, o Marechal Jukov, representando o Exército Vermelho. Muita roupa suja foi lavada durante a reunião. Ameaças foram feitas. Estava em jogo o futuro da URSS. Quem seria o seu novo líder? Mas essa decisão ficou para depois. Naquele momento, foi decidido que Kruschev ficaria responsável pelo funeral de Stálin.

Durante o funeral, houve um contratempo. Muitas pessoas foram à Moscou para ver o funeral. Num determinado local, houve um tumulto, que só foi solucionado pelo uso da força. Pessoas simples acabaram morrendo. 

Marechal Jukov

Enquanto isso, Béria seguia confiante, mas seu adversário, Kruschev, agindo de forma cautelosa e sábia, foi conseguindo aliados, dentre eles, o general Jukov, herói russo na vitória sobre os nazistas, e Molotov, o Ministro do Exterior. Molotov odiava Béria, pois este havia prendido sua esposa, acusando-a falsamente de um crime qualquer. 

Molotov

Houve, por fim, mais uma reunião do Comitê Central do Partido Comunista da URSS. A sorte estava lançada. Kruschev havia preparado uma cilada para Béria. O exército vermelho, sob o comando de Jukuv, iria ajudá-lo. Durante a reunião Béria começou a ser atacado pelos seus colegas. Ele teria traído os interesses da União Soviética em nome dos interesses capitalistas, etc. Essas acusações eram padronizadas, usadas contra qualquer pessoa que já não se prestasse aos interesses do regime. Então, aproveitando-se desse clima de acusação, Kruschev acionou Jukov e seus soldados, que invadiram a sala do comitê e prenderam Béria. A autoridade do Marechal Jukov, herói da URSS na vitória sobre a Alemanha Nazista, era incontestável. Tratava-se de um aliado fortíssimo para Kruschev. 

Ao ser ver aprisionado, Béria pensou consigo mesmo: "Sempre soube que esse dia chegaria. Pensei muito nele. Sobretudo nesses últimos anos, quando Stálin pensava em me descartar. Eu mesmo selei o destino daqueles que me precederam. Não posso me iludir. Sei que amanhã vai sair no Pravda (principal jornal da URSS), esse jornaleco que tantas vezez teceu loas para mim, um comunicado preparado há muito tempo, que vai anunciar que a justa sentença do Tribunal Popular foi aplicada e que o tirano, o assassino, o criminoso, o espião, o agente imperialista - ou seja, todas essas calamidades de nosso belo mundo - Lavrenti Béria foi executado."

Béria, de carrasco passou para vítima. Acabou sendo vítima de seus próprios métodos. Foi fuzilado. 

Stálin foi sucedido por Nikita Kruschev, que recordaria depois: "Todos nós, em torno de Stálin, éramos condenados em liberdade condicional." 

Na corte de Stálin, o medo e a mais abjeta servidão vicejavam por todos os lados. 

ANOTAÇÕES EXTRAÍDAS DA LEITURA DO LIVRO A MORTE DE STÁLIN, DE FABIEN NURY E THIERRY ROBIN, EDITORA TRÊS ESTRELAS. 


quinta-feira, 4 de julho de 2024

Feudalismo Direito Feudal Introdução Histórica ao Direito Fundação Calouste Gulbenkian


 

O DIREITO FEUDAL:

Com a desfazimento do Império Carolíngio no século IX, floresceu aquilo que viria a ser chamado de Feudalismo. O Império Carolíngio acaba dividido entre os filhos de Luís, o Piedoso. Invasões húngaras, sarracenas e dos vikings enfraquecem ainda mais os carolíngios, de forma que o poder real desagrega-se. Assim, os grandes vassalos dos reis e imperadores carolingios, duques, marqueses, condes e mesmo bispos,, possuidores de vastos feudos, organizam-se internamente, fortalecem-se e assim se tornam praticamente independentes em relação ao soberano carolíngio.

A Europa Ocidental então irá se dividir numa multiplicidade de pequenos, médios e grandes senhorios, na posse de nobres turbulentos, que nenhuma autoridade é capaz de dominar. 

O regime feudal chegou ao seu completo desenvolvimento nos séculos X, XI e XII. O Feudalismo tocou de forma relevante países como a Alemanha, França, e, com menor importância, Inglaterra, Itália e Espanha. 

"O feudalismo é caracterizado por um conjunto de instituições das quais as principais são a vassalagem e o feudo. Nas relações feudo-vassálicas, a vassalagem é o elemento pessoal: o vassalo é um homem livre comprometido para com o seu senhor por um contrato solene pelo qual se submete ao seu poder e se obriga a ser-lhe fiel e a dar-lhe ajuda e conselho (consilium et auxilium), enquanto o senhor lhe deve proteção e manutenção. A ajuda geralmente é militar, isto é, o serviço a cavalo, porque a principal razão de ser do contrato vassálico para o senhor é poder dispor de uma força armada composta por cavaleiros." (página 189, Introdução Histórica do Direito, 8º Edição, John Gilissen, Fundação Calouste Gulbenkian)

O Feudo é o elemento real nas relações feudo-vassálicas. O Feudo consiste numa tenência, geralmente uma terra, concedida gratuitamente por um senhor ao seu vassalo, com vista a garantir-lhe a manutenção legítima e dar-lhe condições de fornecer ao seu senhor o serviço requerido.

Tenência refere-se a tenanceiros. Em francês, Tenanciers, cujos correspondentes às vezes usados em português (rendeiro, tenente, etc). Palavra surgida em 1461, por derivação de Tenance (século XII), por sua vez vinda do verbo Tener (fins do século X), saído do latim tenire, "ter em mãos", "manter", "possuir". (Fonte: página 522, Dicionário Analítico do Ocidente Medieval, Jacques Le Goff e Jean Claude Schmitt, volume 2, editora Unesp)

A instituição feudo aparece sob o nome de Beneficium. O termo fevum ou feodum, de origem germânica, acaba por gerar o nome Feudo e se tornará dominante. Primeiro como possessão vitalícia, o feudo tornar-se-á hereditária. 

No plano econômico, o feudo forma geralmente um domínio agrícola, explorado pelo senhor com a ajuda dos servos. Trata-se de uma economia fechada, na qual os homens vivem do produto do domínio, quase sem trocas com outros domínios. O comércio desaparece quase que completamente. 

O DIREITO:

O Direito fica restringido às relações feudo-vassálicas e às relações dos senhores com os servos dos seus domínios. São os laços de dependência de homem para homem. Toda a organização estatal ficou irrelevante. 

FONTES DO DIREITO FEUDAL:

Com a decadência do poder central, a atividade legislativa praticamente desapareceu, com algumas exceções, sobretudo na Inglaterra e na Alemanha do período otoniano. Na França, por exemplo, o rei já não é capaz de impor a sua vontade em todo o reino. Embora esteja no topo da hierarquia feudal, não tem muito poder sobre ela, sendo que a maior parte do reino está nas mãos de grandes senhores, tais como o duque da Normandia. O poder real está desmembraado em benefício desses grandes vassalos. 

"Mas, com certas reservas, os três séculos do período feudal são efetivamente séculos sem legislação." (página 190, Introdução Histórica do Direito, 8º Edição, John Gilissen, Fundação Calouste Gulbenkian)

O Costume acaba sendo a única fonte do direito laico. O único direito escrito na época era o Canônico. Na Itália ainda sobrevivia o Direito Romano. O Direito Canônico aproveita esse vácuo legislativo para regrar não só relações entre eclesiásticos, mas também áreas do direito civil, como o casamento. 

"Os séculos X e XI foram séculos sem escritos jurídicos: nem leis, nem livros de direito nem sequer atos reduzidos a escrito. Os contratos tão numerosos que estão na base dos laços de dependência de homem para homem (vassalagem, servidão) e dos direitos sobre a terra (feudos, foros, etc) raramente eram reduzidos a escrito; quando muito, algumas instituições eclesiásticas (abadias, por exemplo) mandaram redigir os atos (sobretudo doações) que lhe interessavam;..  Aliás, à parte alguns clérigos, ninguém sabe ler nem escrever; há poucas escolas;...A justiça é feita, a maior parte das vezes, apelando para Deus, com a ajuda de Ordálios ou de duelos judiciários." (página 191 Introdução Histórica do Direito, 8º Edição, John Gilissen, Fundação Calouste Gulbenkian)

Exemplo de um Documento de dá conta de um Contrato Vassálico:




ANOTAÇÕES EXTRAÍDAS DA LEITURA DO LIVRO Introdução Histórica do Direito, 8º Edição, John Gilissen, Fundação Calouste Gulbenkian)



sábado, 29 de junho de 2024

Pelo Bem da Humanidade Carta de Gandhi para Hitler


 

História da Carta de Mohandas Gandhi para Adolf Hitler

23 de julho de 1939

Enquanto a tensão na Europa aumentava com a ocupação nazista da Tchecoslováquia, Gandhi, líder do movimento de independência da Índia, famoso pela sua postura contrária à violência, escreveu uma carta para Adolf Hitler. Era um pedido para que Hitler evitasse a guerra, para o bem da humanidade. A carta nunca chegou a Hitler por causa da intervenção britânica. A Índia vivia sob a ocupação britânica desde o século XIX. 

Fonte: CARTAS EXTRAORDINÁRIAS, A CORRESPONDÊNCIA INESQUECÍVEL DE PESSOAS NOTÁVEIS, ORGANIZAÇÃO SHAUN USHER, EDITORA COMPANHIA DAS LETRAS



quarta-feira, 19 de junho de 2024

Kaputt Carros Blindados Cães Vermelhos Concurso de Leitura no qual aprovados eram fuzilados Alemães e Russos na Segunda Guerra Mundial


CÃES VERMELHOS

Fazia vários dias que chovia e o mar de lama da Ucrânia subia lentamente no horizonte. Já a guerra relâmpago, a Blitzkrieg, terminara.
A guerra vencida terminara, agora começava a guerra perdida.
Eu via nascer no fundo dos olhos mortiços dos oficiais e dos soldados alemães a mancha branca do medo. 
À medida que o medo crescia, os alemães começaram a matar os prisioneiros que não podiam caminhar, começaram a queimar aldeias que não conseguiam entregar as quantidades de trigo e de gado requisitadas.
E  quando começaram a escassear os judeus, principiaram a matar os camponeses, pendurando-os pelo pescoço ou pelos pés aos galhos das árvores, nas pequenas praças das aldeias.
Um belo dia, os alemães começaram a caçar os cães.
Aqueles pobres cães mestiços.
Os mais ferozes nessa caçada eram os soldados dos tanques, os Panzerschutzen.
A princípio, pensei que se tratasse de um caso de hidrofobia. Depois, percebi que devia haver outro motivo.
Mal entrávamos numa aldeia, antes ainda da caçada aos judeus, começava a caçada aos cães.
Os pobres bichos fugiam, buscando se esconder. Os alemães iam no encalço deles, entrando nas casas, expulsando-os de seus esconderijos e matando-os a tiros e coronhadas.
Os ucranianos, sentados diante das portas das casas, riam à vontade, batendo com as mãos nos joelhos, dizendo pobres cães, rindo gaiatamente, como se tivessem pena não daqueles pobres bichos, mas daqueles pobres alemães. 
Mas por quê?
Eram os cães antitanque soviéticos; ensinados pelos russos a buscar seu repasto no ventre dos carros de combate. 
Não era algo novo, pois Pavlov, um fisiologista russo, já tinha criado, no início do século XX, uma forma de condicionar o comportamento de cães.
Cães eram então levados para a linha de frente...
E mantidos em jejum um ou dois dias.


A matilha esfaimada corria veloz para buscar o seu alimento debaixo dos Panzer alemães.
Esses cães famintos traziam nos corpos mochilas carregadas de explosivos, com uma antena de contato ereta sobre as costas.


Assim que os Panzer apareciam na planície, os russos gritavam "pachol", "pachol" (pega, pega!), e os cães saiam em busca dos tanques, metendo-se debaixo deles, os quais iam pelos ares, explodindo.
Modernas armas de combate explodidas por cães famintos.
Quando tiverem matado todos...
Quando não houver mais cães...
Os meninos russos vão meter-se debaixo dos tanques alemães.


Diante disso, um alemão disse: "São todos da mesma raça. Todos filhos de cães, e afastou-se cuspindo no chão com profundo desprezo.  

APROVADOS NUM CONCURSO E FUZILADOS EM SEGUIDA:


Em áreas ocupadas pelo exército alemão na URSS, os prisioneiros russos eram submetidos a um concurso de leitura. 
Os prisioneiros russos recebiam um jornal, do qual deveriam ler um texto da forma mais correta possível.
Aos prisioneiros, era dito que:
Aqueles que conseguissem ler o texto de forma correta, seriam encaminhados para um trabalho mais suave, de escrevente num escritório do exército alemão.
Quem fosse reprovado, teria que fazer trabalho braçal, sob o sol, sob a chuva, sob a neve, como, por exemplo, construir estradas.
Acreditando nessa história, os prisioneiros se esforçavam na leitura. Os aprovados, comemoravam. Os reprovados, ficavam cabisbaixos e macambúzios. 
No final, a verdadeira razão desse concurso vinha à tona.
Os aprovados eram colocados a marchar rumo a uma cerca, diante da qual se perfilavam. Em seguida, um pelotão das SS, situado defronte a eles, abria fogo, fuzilando todos os prisioneiros russos letrados.
Os reprovados, analfabetos, sobreviviam.
O objetivo dos alemães era decapitar os elementos pensantes da Rússia. Ler bem era um perigo para o regime nazista. Quem sabia ler, provavelmente, deveria ser um membro do Partido Comunista.
A seguir, um trecho do Livro Kaputt, no qual Curzio Malaparte, que foi testemunha de um desses concursos, numa área da Ucrânia ocupada pelos alemães, relata o que abaixo segue:

"Ach so _ disse o Sonderfuhrer de Melitopol perto de mim _ é preciso limpar a Rússia de toda essa cambada de letrados. Os camponeses e os operários que sabem ler e escrever bem demais são perigosos. Todos comunistas.
_ Naturlich _ respondi_mas na Alemanha todos, operários e camponeses, sabem ler e escrever perfeitamente.
_ O povo alemão é um povo de elevada Kultur.
_ Naturalmente _ respondi _ o povo alemão é um povo de elevada Kultur.
_ Nicht wahr? _ disse rindo o Sonderfuhrer; e encaminhou-se para os escritórios do comando.
Fiquei sozinho no meio do pátio, diante dos prisioneiros que não sabiam ler direito, e tremiam como varas verdes." (página 219, Kaputt, Curzio Malaparte, editora Civilização Brasileira, 1970)

Fontes: 
Kaputt, Adaptação e arte Guazzelli da Obra Kaputt de Curzio Malaparte, editora Martins Fontes, 2014.
Kaputt, Curzio Malaparte, editora Civilização Brasileira, 4º edição, 1970.


Nem a Vida de um Gato faz sentido


Ontem à noite, caminhando pela minha cidade, encontrei um gato estendido na calçada. Grande, de cor laranja. Acredito que já o tinha visto antes, numa rua abaixo, ao lado de outros dois gatos. Há algumas pessoas ali por perto que os alimentam, daí eles ficarem num mesmo local. Onde o encontrei, numa rua acima, uma Avenida movimentanda, com carros e motos passando o tempo todo. Um frio de rachar. Devia estar morto. Seria impossível dormir ali. Ademais, depois da morte de minha mãe, eu só penso na morte. Mas para confirmar, mexi nas patinhas dele. Nada. Era a morte mesmo, eu realmente a conheço bem. Não me equivoquei. Não encontrei ninguém da Prefeitura para removê-lo dali. Enfim, deixei-o ali mesmo. Mais abaixo do local onde eu o encontrei, outros 2 gatos continuavam com suas vidas, provavelmente os mesmos que andavam com ele. Eles não estavam nem aí com o sumiço do companheiro. Pensei comigo: nem a vida de um gato faz sentido. Menos mal que ele não tem consciência da finitude dele e de seus entes queridos. Provavelmente deve ter passado o resto da noite e toda a madrugada estendido ali, no frio, com carros e motos passando ao lado dele.


Hoje, 25/06/2024, confirmei que o gatinho havia realmente morrido. Morreu atropelado. Conversei com a mulher que cuida desses gatos naquele local e ela me confirmou.

sábado, 15 de junho de 2024

Destino traçado desde a maternidade O Inferno é aqui

Tudo começou num casamento que não deveria ter ocorrido. A mulher se viu sozinha, pai (pedreiro) e mãe (do lar) prematuramente mortos. Morando com a tia, sem emprego, na década de 50, acabou casando-se com seu namorado, indo morar na casa de sua sogra. Vida difícil. Filhos vão nascendo. Mudam de casa. Pode ser que o marido a ame, mas ela não o ama, pelo menos agora. Pode ter amado lá atrás. Ele a trata mal. Não por maldade, mas por falta de discernimento. Por falta de tato. Ela também tem uma personalidade difícil. Filhos crescem. A infância é boa. Será aliás, a única parte boa da vida do caçula deles, mesmo que ele já apresente sinal de TOC (transtorno obsessivo compulsivo) e de transtorno de ansiedade. Os pais brigam, eles não têm tempo de notar esses problemas no filho caçula, ademais, naquela época, década de 70, ninguém devia ter conhecimento dessas patologias. O clima de guerra fria naquela casa só tendia a piorar a cabeça do caçula. Divórcio? Seria difícil para ambos, principamente para ela. Onde ela iria morar? Salário de professora era uma porcaria. E o preconceito? Hoje, o divórcio é algo simples, tem a emenda constitucional nº 66, mas não o era nas décadas de 70 e 80. Mulher divorciada era mal vista. Lembrem-se que a lei do divórcio é de 1977 e, para ser aprovada, teve que enfrentar uma oposição ferrenha da Igreja Católica. Hoje, a pessoa casa num dia e, se quiser, se divorcia no dia seguinte. Os irmãos mais velhos saem de casa, para estudar e trabalhar. Ficam na casa o caçula e os dois pais que viviam separados, cada um dormindo num quarto. Na adolescência, ele, o caçula, vive só. Introspectivo, tímido, envolto em traumas diversos, inclusive relacionados ao seu órgão sexual, que ele não achava adequado devido ao tamanho e à fimose que estrangulava sua glande. Só mais tarde ele iria operar a fimose. Ninguém duvida do amor que seus pais devotavam a ele, ao caçula. Nunca lhe faltou nada. Pai e mãe fariam qualquer sacrifício pelo caçula e por seus irmãos. Pagaram faculdade para os três, fisioterapia, engenharia e direito. O pai deles, gerente de banco. Na verdade, subgerente. E de um Banco que iria falir, o Comind, gerando mais sofrimento ainda para ele. Desgraça pouca é bobagem. Ele morreu como nasceu, pobre. A mãe dele ainda teve um derrame. Ele gastou uma nota para mantê-la. Pagar enfermeira, ajudante, etc, por mais de 10 anos. Agora, a mãe dos três meninos, era professora dedicada. Trabalhou de início na zona rural. Numa sala, dava aula para quatro séries, 1º, 2º, 3º e 4º. Além de professora, era merendeira. Depois melhorou um pouco, indo dar aula na escola da cidade, na zona urbana. Professora concursada do Estado de São Paulo. Mãe e Pai, duas pessoas sérias, honestas e sofridas. Passada a adolescência, a vida adulta não seria melhor para o caçula. O TOC e o transtorno de ansiedade o aprisionavam, impedindo que tivesse uma vida plena e feliz. A doença é como uma prisão, do qual a pessoa anseia por se libertar. O corpo doente é a sua prisão, do qual somente a cura ou a morte o libertará. Mas ele não conseguia se libertar.  Só mais tarde iria descobrir o que tinha. Já seria tarde. Apesar de tudo, se formou numa faculdade. O medo sempre o acompanhou. A falta de confiança em si mesmo, idem. E o mundo é cruel com gente como ele. Era visto como "esquisito". Ninguém ajuda. Exerceu por algum tempo o serviço para o qual fora formado. Mas daí começou a ter problemas de saúde: psoríase, em razão de nervosismo. Problemas na vista, moscas volantes, uma espécie de degeneração do vítreo, ainda na casa dos trinta anos, quando normalmente isso só acontece depois dos 50 anos. Tive ainda um derrame na mácula do olho esquerdo, que praticamente o inviabilizou para a leitura. Foi mais um azar. Se o derrame tivesse acontecido em outra parte da retina, disse o médico, a capacidade de leitura não teria sido atingida. Bem, isso só piorou ainda mais seu TOC e sua ansiedade. Na sequência, três ataques de Pânico. Mas as coisas ainda iriam piorar para o caçula. Sua mãe era depressiva, acarrentando nela vários problemas de saúde. Quase perdeu uma perna por bobeira. Na sequência, seu pai foi diagnosticado com Mal de Parkinson. Dois anos de sofrimento. Quem cuidava dele? O mais novo dos três irmãos, o caçula. Era sempre o caçula. O pai já estava morrendo, insuficiência cardíaca, pés inchados, água no pulmão. Ele tinha que usar uma bombinha, para dar algum conforto. E sempre pedia ajuda para o filho caçula. Uma vez, a mãe disse que ele estava incomodando o menino, ao que ele, o pai, respondeu para ela, em tom profético, e o caçula no meio disso tudo, ouvindo tudo: "Um dia você saberá o que é ficar doente." E a mãe iria acabar descobrindo mesmo. Namorada? Ele, o caçula, nunca teve. Com baixíssima auto-estima, foi iludido por um romance virtual de 4 anos... .Depois da morte do pai, a mãe começou a ficar doente. Teve uma queda no prédio onde morava. Um enfermeiro vinha todo dia para cuidar dela. Com depressão, ela não se cuidava. Ia ficando cega, tumores iam crescendo no seu rosto e no seu braço. Com ela viviam dois filhos, o mais velho e o mais novo, o caçula. O caçula, coitado, mal podia cuidar da própria vida, imagine se iria conseguir cuidar da mãe. Ele não tinha forças para mudar a trajetória da mãe. Uma pessoa doente cuidando de uma outra pessoa doente. Não tinha como dar certo.Mas mesmo doente, ele, da forma que podia, cuidava dela. Era o companheiro dela e ela era a companheira dele. Ele dizia para ela: "Eu amo a senhora", ao que ela respondia: "Eu amo o senhor." Fazia companhia para ela, mas ela também fazia companhia para ele. E o outro filho dela, o o meio? Bem, esse vivia fora, com outra família. Era quem poderia ter ajudado mas não ajudou. Bem, a mãe foi ficando cega, com sinais de senilidade e com  seus tumores crescendo no rosto e no braço. O tumor no rosto começou a sangrar. Tinha que operar. E o fez. Deu tudo errado. Mesmo pagando caro, mais de 10 mil reais, não teve o tratamento adequado. Ela morreu, depois de duas semanas de agonia, sem poder se despedir de forma digna de seus dois filhos, que estavam com ela, nos seus momentos finais, nos quais buscava, sem sucesso, respirar. Ela morreu sufocada, nos braços deles. No atestado de óbito constou broncoaspiração.  O caçula dela sabia que ela tinha morrido, ali no quarto mesmo. Mas ele estava em estado de choque emocional. No choque emocional, o sujeito fica entorpecido, como que morto, ou surta, começa a berrar, etc. No caso dele, houve entorpecimento, um estado de "não sei o que fazer", diante de tanto sofrimento. Mas ainda houve um toque final de crueldade. Chamaram o SAMU. SAMU chegou e levou ela, que já deveria estar morta, para o Hospital. E não é que o atendende do SAMU esquece um fichário de atendimento no quarto dela? Sim, esqueceu. Depois que levaram ela para o hospital, o irmão mais velho liga para a residência onde estava seu irmão caçula. Pergunta para ele o número do SUS da mãe deles. Nasceu uma esperança no coração do irmão caçula? Se perguntam o número do SUS, então a mãe dele está viva, está sendo atendida? Nada disso. Era só a burocracia brasileira. O telefone toca outra vez e o irmão dele diz do outro lado da linha: "É pra avisar que o cara do SAMU vai passar aí para pegar um fichário de atendimento que ele esqueceu no quarto da mãe. E a mãe faleceu." E foi assim que o filho caçula de três irmãos descobriu que aquela pessoa que conviveu com ele por tanto tempo (51 anos), não existia mais. Ele não a veria mais, não a beijaria mais, não a pegaria mais pelas mãos, não conversaria mais com ela. Mas o caçula, sozinho no apartamento, não podia esquecer de algo importante: pegar o fichário do SAMU e levá-lo lá embaixo do prédio, para entregá-lo ao rapaz ou à moça que viesse pegá-lo. E lá foi ele, com a prancheta com o fichário do SAMU debaixo do braço. Ficou um dez minutos no sereno da noite esperando a ambulância. Antes que a ambulância do SAMU viesse, ele ficou vendo uma moçada se divertindo num posto de gasolina que ficava ali perto. Enquanto uns choram, outros riem. Bem, a ambulância chegou e ele entregou o fichário para a moça do SAMU. E subiu de volta para o apartamento, onde sua mãe não estava mais. Isso é o epítome da solidão, do vazio. Acho que nem a sua própria morte é pior do que vivenciar algo assim. E o outro filho, o do meio, eu ia esquecendo de perguntar. Bem, este nem estava aqui, só apareceu para o enterro. E agora a vida virou um pesadelo sem fim. O caçula é hoje um velho. Sem perspectiva alguma. Mais sozinho do que nunca. E com morte da mãe, somado ao seu TOC, que o acompanha desde seu nascimento, fica, num círuclo vicios, preso a pensamentos que lhe causam mais sofrimento. Basicamente fica pensando se não seria o culpado pela morte da mãe, se não poderia ter feito, lá atrás, algo que pudesse ter ajudado a sua mãe, de forma que ela tivesse mais alguns anos de vida. O caçula queria que tudo isso fosse apenas um pesadelo, do qual haveria de acordar em algum momento, mas não, não era um pesadelo, não estava dormindo, foi apenas a minha vida. 


Nova Lei da Laqueadura 14.443/2022 Machado de Assis Não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria

 Capítulo CLX Das Negativas

"................Somadas umas cousas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve mingua nem sobra, e consequentemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a esse outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa desse capítulo de negativas - Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria."

(Fonte: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis)

O maior das nossas misérias é a mortalidade. Nascer com um prazo de validade, ao final do qual você morre. No fim, você não difere tanto de um Iogurte. E, antes disso, geralmente, você ainda irá enterrar as pessoas que você amou que amaram você. Mas para essa miséria, e para as outras que nos acompanham, há uma solução, já antevista por Machado de Assis e que é, atualmente, contemplada pela lei brasileira. Trata-se da Lei da Laqueadura, cujo resumo segue abaixo:



Tao Te Ching Lao-Tsé Filósofo Chinês Taoísmo

Sob o céu, só podemos

ver a beleza como beleza

porque existe a feiura

Só podemos conhecer

o bem como bem

porque existe o mal

Por isso, o ter 

e o não ter

surgem juntos

O díficil e o fácil

completam um ao outro

Esvazie-se de tudo

Deixe a mente descansar em paz

O retorno à origem é a quietude,

esta é a maneira de ser da natureza

A maneira de ser da natureza é imutável

Os textos acima foram escritos há cerca de 2500 anos, supostamente por um filósofo chinês, que pode ou não ter existido. 

Lao-Tsé significa Velho Mestre.

Mas provavelmente Lao-Tsé nunca tenha existido, de forma que todos os escritos atribuídos a ele são na verdade uma coletânea de aforismos de vários autores

Os escritos de Lao-Tsé são os fundadores do Taoísmo, que influenciou outros sistemas religiosos orientais. 

Fonte:

Cânone Gráfico, Clássicos da Literatura Universal em Quadrinhos, Volume 1, editora Barricada, 2014.



sexta-feira, 14 de junho de 2024

Curzio Malaparte Kaputt Cadáveres de Soldados Soviéticos usados como sinais de trânsito na URSS ocupada


Curzio Malaparte estava numa região no norte da URSS, na frente de Leningrado, ocupada pelos nazistas. Ele viajava de carona num carro do exército alemão, tendo ao seu lado o Tenente Schultz.

Atravessavam uma densa floresta coberta pela neve.

No decorrer de um diálogo entre Curzio e Schultz, descobrimos que os alemães, no norte da URSS, usavam cadáveres congelados de soldados soviéticos como placas sinalizadoras de trânsito. Schultz, além de  não demonstrar nenhuma empatia em relação aos soldados soviéticos, ainda fazia pilhéria da situação, enquanto Curzio demorava para compreender que realmente estava diante de seres humanos congelados, usados como "policiais de trânsito" ou como placas de sinalização de trânsito.

Abaixo, o diálogo entre Curzio Malaparte e Sch, retirado do livro Kaputt:

"Nesse momento, enquanto a floresta era mais cerrada e profunda, e uma estrada atravessava a nossa, vi surgir de repente no nevoeiro, lá longe, diante de nós, no cruzamento das duas estradas, um soldado imerso na neve até à barriga: estava em pé, imóvel, com o braço direito estendido a indicar-nos o caminho. Quando passamos na frente dele, , Schultz levou a mão à pala do quepe como para saudá-lo e agradecer-lhe. Depois disse: 

_ 'Aí está outro que iria de bom grado para o Cáucaso _ e desatou a rir, recostando-se pesadamente na almofada do carro.'

Após outro trecho de estrada, noutro cruzamento, eis que aparece ao longe outro soldado, também imerso na neve, com o braço estendido.

_ 'Morrerão de frio, esses coitados, disse eu.'

Schultz virou-se para me olhar:

_ Não há perigo que morram de frio, disse, e ria.

Perguntei-lhe então por que julgava que aqueles coitados não corriam perigo de morrer congelados.

_'Porque, agora, já estão acostumados ao frio, respondeu Schultz, e ria batendo-me com a mão no ombro. Mandou parar o automóvel e virou-se para mim, sorrindo: 

_ 'Quer vê-lo de perto? Assim poderá perguntar-lhe se está com frio.'

Descemos do carro, aproximamo-nos do soldado: lá estava ele, em pé, imóvel, com o braço direito estendido a nos indicar o caminho. Estava morto. Tinha os olhos esbugalhados, a boca entreaberta. Era um soldado russo morto.

_ 'Eis a nossa polícia de trânsito, disse Schultz; nós a chamamos a polícia silenciosa.

_ 'Tem certeza que não fala?'

_ 'De que não fala? Ach so! ExperimentE interrogá-lo.

_ 'É melhor não experimentar; tenho a certeza de que me responderia, retruquei.'

_ 'Ach, sehr amusant!, exclamou Schultz, rindo.

_ 'Ja, sehr, amusant, nicht wahr? _ Em seguida acrescentei, com ar indiferente: _ Quando os levam para ali, estão vivos ou mortos?

_ 'Vivos, e claro, respondeu Schultz.

_ 'E depois morrem de frio, é claro, observei.

_ 'Nein, nein, não morrem de frio!'

Olhe aqui, e Schultz mostrou-me um grumo de sangue, um grumo de gelo rubro, na frente do morto.

Em seguida, Schultz acrescentou rindo:

_'Afinal, é preciso que os prisioneiros russos sirvam para alguma coisa.'



(páginas 17/18, Kaputt, Curzio Malaparte, 4º edição, Editora Civilização Brasileira, ano 1970.)

Obs.: Curzio Malaparte é o pseudônimo de um jornalista, escritor e diplomata italiano de nome Kurt Erich Suckert (1898 - 1957). Trata-se de um trocadilho com o nome de Napoleão Bonaparte. Nasceu na Toscana, na Itália, de pai alemão e mãe italiana. Foi correspondente durante a 2º Guerra Mundial, de onde extraiu a inspiração para escrever Kaputt.


ANOTAÇÕES EXTRAÍDAS DA LEITURA DOS SEGUINTES LIVROS:

1) Kaputt, Adaptação e arte Guazzelli, da obra de Curzio Malaparte, editora Martins Fontes, 2014.

2) Kaputt, Curzio Malaparte, Editora Civilização Brasileira, 4º edição, ano de 1970




domingo, 9 de junho de 2024

Gengis Khan e a Formação do Mundo Moderno Império Mongol Tribos Nômades versus Mundo Sedentário Tamerlão ou Timur ou Timurlenk Pax Mongolica

 INÍCIO:

Gengis Khan nasceu em meio a um mundo perturbado pelo caos e pela guerra, que incluia assassinatos, sequestros, escravização e guerras sem fim. Ainda adolescente, matou seu meio-irmão mais velho. Já adulto, foi feito prisioneiro pela tribo Tayichiud. Temujin, futuro Gengis Khan, nasceu no século XII, em 1162. às margens do rio Onon, na atual Mongólia. Sua mãe, Hoelu, tinha sido sequestrada pelo seu pai Yesugei. 


Guerreiros Mongóis a cavalo

SOCIEDADE DE CLÃS:

O Clã de Temujin era o Borijin, que era o de seu pai. Os Borijin estavam ligados a um clã maior, os Tayichiud. Quando o pai de Temujin morreu, a sua família foi largada a vagar sozinha pela estepe, pois não havia nenhum homem disposto a assumir a sua mãe em casamento. Na tradição da estepe, o meio-irmão mais velho de Temujin, Begter, fruto do casamento de seu pai com uma outra mulher, poderia se casar com sua mãe, Hoelu. Mas Temujin e Begter não se davam bem. Temujin não aceitava receber ordens de seu meio-irmão. Ver sua mãe casando-se com seu meio-irmão pressagiava um futuro tenebroso para Temujin, razão pela qual ele o assassinou. Ao saber que Temujin, ajudado pelo seu irmão mais novo, tinha matado Begter, Hoelu disse-lhes: "Vocês não têm outra companhia além das próprias sombras." Num primeiro momento, a professia de sua mãe se concretizou. Em razão desse crime, Temujin foi feito prisioneiro pelo clã Tayichiud. Amarraram uma canga de boi em Temujin, de forma que ele não podia beber nem se alimentar sem ajuda. No fim, a sorte sorriu para Temujin, na forma de uma família que o ajudou a fugir do cativeiro.

TEMUJIN LIVRE E CASADO

Depois de fugir do seu cativeiro, Temujin casou-se com Borte. Na sequência, foi procurar emprego com um velho amigo de seu pai, Torghil, da Tribo Kereyid. Ali, Temujin se reencontrou com Jamuka, do clã Jadaran. Temujin e Jamuka não eram parentes consanguíneos ou afins. Mas eram irmãos cerimoniais, uma espécie de parentesco nascido por meio de uma cerimônia, no qual duas pessoas prestavam um juramento, havendo ainda a troca de roupas entre elas, numa forma de compartilhar o cheiro delas, pois acreditavam que o cheiro era parte da alma de uma pessoa. 

ANIMAIS E MOBILIDADE:

A mobilidade dos mongóis veio da necessidade. Deslocavam-se na busca de pastagens para seus animais. Tinham cavalos, ovelhas, camelos, etc. Dentre eles, destacavam-se os cavalos e as ovelhas. Os cavalos eram fontes de transporte e de leite. Mortos, forneciam carne e couro. As ovelhas forneciam carne e peles para roupas de lã e para o isolamento de suas casas portáteis (yurt).

Eterno Céu Azul

CRENÇA MONGOL:

Os mongóis acreditavam que o cheiro de uma pessoa era parte de sua alma. Os mongóis eram animistas, adorando espíritos à sua volta. Os espíritos estavam nas montanhas, nos rios, etc. Quando Temujin buscou refúgio na Montanha Burkhan Khaldun, ele passou a vê-la como um espírito que o tinha ajudado a escapar de seus inimigos. Essa montanha passaria a ser a fonte de sua força. Os mongóis ainda cultuavam o Eterno Céu Azul. Quando Gengis Khan conquistou a cidade de Bucara, na Ásia Central, levaram-no a visitar uma Mesquita, dizendo-lhe que ali era a morada de Deus. Gengis Khan não disse nada, pois para ele o Eterno Céu Azul, que se estendia de horizonte a horizonte, não poderia ser encarcerado numa casa de pedra.

TEMUJIN PASSA A SER GENGIS KHAN

Temujin passou a andar com seu amigo cerimonial Jamuka. Num primeiro momento, tratavam-se como iguais. Mas com o passar do tempo, Temujin começou a se sentir desprestigiado, sendo tratado como se fosse um subordinado de Jamuka. Esse estado de coisas ocasionou um rompimento entre ambos, de forma que Temujin largou Jamuka e buscou criar seu próprio grupo de seguidores. Essa separação fez com que Jamuka e Temujin se tornassem inimigos. Por duas décadas Jamuka e Temujin iriam lutar pela liderança das tribos da estepe. Para alcançar a liderança era necessário, por meio de uma assembleia, chamada de Kurultai, ser eleito pelas tribos e pelos clãs como Khan. O primeiro a consegui-lo foi Temujin, tornando-se, então, Gengis Khan. Depois de ser eleito, Gengis Khan empreendeu várias campanhas militares pelas estepes, de forma a angariar butim, saque, com estes, atrair seguidores. Todo mundo queria ser seguidor de um líder vitorioso, que distribuísse butim para quem o acompanhasse. O poder de Gengis Khan aumentou. Mas batalha final entre Gengis Khan e Jamuka só se daria no início do século XIII, no ano de 1204. Derrotado Jamuka, Gengis Khan tinha as estepes aos seus pés. Temujin controlava então um território aproximadamente do tamanho da Europa Ocidental moderna. Havia ali uma população de 1 milhão de habitantes, de diferentes tribos, e 15 a 20 milhões de animais, dois quais tiravam praticamente tudo do que precisavam: alimentação, vestuário, cobertura para suas moradias (daí o nome de Povo das Paredes de Feltro), etc. 

GENGIS KHAN VOLTA SEUS OLHOS PARA A RIQUEZA DO SUL DA ÁSIA:

Terminada a conquista das estepes da Mongólia, Gengis Khan volta seus olhos para o sul, uma região de muita riqueza, de onde vinham produtos manufaturados, como metais, têxteis, etc. 

GUERRA MUNDIAL MONGOL:

Império Mongol 1227

A Guerra Mundial Mongol do século XIII estava para começar. Dizia-se que os cascos dos cavalos mongóis vão a toda parte, escalando o céu e mergulhando mar adentro. E o alvo estava ao sul da Mongólia, uma região coalhada de estados e reinos independentes. A maioria deles tinha a mesma gênese: uma região agrícola e pastoril governada por uma tribo nômade que a havia conquistado. Essa tribo guerreira explorava a população local sedentária. Com o passar do tempo, essas duas realidades se misturavam, tornando-se uma coisa só: uma sociedade basicamente agrícola e sedentária. Na sequência, vinha uma nova tribo nômade guerreira que iria conquistar essa mesma área. E a história se repetia. Mas além dessas entidades políticas médias e pequenas, havia grandes Estados, como aquele governado pelos Jurched. Os Jurched, povo tribal originário das florestas da Manchuria,  dominavam a Manchuria, a Mongólia interior e o norte da China, com sua capital na cidade de Zhongdu, atual Pequim. Eram riquíssimos e eles seriam as primeiras vítimas da Guerra Mundial Mongol.

Depois de atravessar o deserto de Gobi, Gengis Khan e seu exército partiram para sua guerra contra os Jurched. Viajar grandes distâncias não era um problema para os mongóis. Cada homem carregava o necessário e nada mais. Mongóis, nesse primeiro momento, só tinham cavalaria. Não havia infantaria. O exército mongol, na época de Gengis Khan, não precisava despender energia com comboios de suprimentos. Seus homens eram acompanhados apenas por uma grande reserva de cavalos, que se alimentavam das pastagens por onde passavam. Esses animais, por sua vez, forneciam tudo o que os mongóis precisavam. Ainda pelo caminho, os mongóis se alimentavam da caça e do saque. 

CONTRASTE ENTRE UMA SOCIEDADE NÔMADE E UMA SOCIEDADE SEDENTÁRIA:

A Guerra Mundial Mongol colocou em combate duas espécies de sociedade: a sedentária e a nômade. Os mongóis, nômades, estranhavam a vida da sociedade sedentária. No caso do território Jurched, havia mais gente do que animais. Na Mongólia, ocorria o contrário, onde havia de 5 a 10 animais para cada ser humano. Para os mongóis, os campos cultivados com cereais eram apenas pastos e os camponeses que nele labutavam eram como animais que pastavam, comendo seus vegetais, enquanto que os mongóis eram comedores de carne e de laticínios. Durante a guerra, essas duas sociedades também se diferenciavam:

"Como nômades, os mongóis aprenderam cedo a guerrear em movimento. Para o soldado camponês, fugir significava perder; perseguir significava vencer. O soldado sedentário buscava expulsar do lugar quem o atacava. O nômade buscava matar o inimigo , e não importava em nada se o matasse enquanto investia em sua direção ou enquanto fugia dele. Para o mongol, ambas as direções eram adequadas para lutar; conquista em fuga era tão boa quanto uma parada. Assim que atraíam seus oponentes para fora das cidades muradas, aplicavam técnicas que haviam aprendido para manejar o movimento de grandes rebanhos de animais. Mais comumente, faziam com que seus inimigos se enfileirassem em uma longa linha que se tornava cada vez mais desprotegida e era facilmente atacada tão logo fosse atraída para uma armadilha; ou então, em fuga, dividiam-se em pequenos pelotões e dispersavam os perseguidores em pequenos grupos, que podiam ser mais facilmente derrotados." (página 173, Gengis Khan e a formação do Mundo Moderno, Jack Weatherford, Editora Bertrand Brasil)

Em 1214, depois de um cerco bem sucedido em Zhongdu (atual Pequim), o líder do povo Jurched se rendeu a Gengis Khan. Em troca da paz, os Jurched deram aos mongóis grandes quantidades de prata, ouro, seda, cavalos, escravos, etc. Satisfeito com o acordo, Gengis Khan voltou para sua terra natal na Mongólia. Gengis Khan tinha um butim imenso para distribuir entre seu povo. Havia de tudo: seda da China, tabeçaria, porcelana, móveis, jogos de tabuleiro, facas de bronze, armaduras de metal, frascos de perfume, remédios, joias, chá preto, escravos, etc.

A GUERRA ERA O MEIO DE PRODUÇÃO DOS POVOS NÔMADES

Não obstante o sucesso da primeira campanha da Guerra Mundial Mongol, os mongóis queriam mais. O butim de hoje criava no mongol o apetite por mais. Cada butim adquirido incitava o desejo por mais. E, mais butim, significava mais guerras. 

"A guerra para os povos nômades era um meio de produção. Para os guerreiros significava sucesso e riqueza." (página 189, Gengis Khan e Formação do Mundo Moderno, Jack Weatherford, Editora Bertrand Brasil)

SULTÃO VERSUS KHAN

Gengis Khan tinha um novo alvo em mente. Tratava-se do Império Khwarizm (CORÁSMIA), que englobava áreas que iam do Afeganistão ao Mar Negro. Era tentador. Em 1219, Gengis Khan partiu para o oeste, para conquistar Khwarizm. Gengis Khan, durante a campanha, tomou várias cidades da Ásia Central (Bucara, Samarcanda, Merv, Herat, Peshawar, Tabriz, Tbilisi, Astracã, etc). O sultão teve que fugir para uma ilha no Mar Cáspio. Das montanhas do Himalaia às montanhas do Cáucaso, Gengis Khan e seus homens só obtiveram vitórias. Após 4 anos de campanhas pela Ásia Central, Gengis Khan, com mais de 60 anos, estava no auge de seu poder. 

DIVISÃO DO PODER ENTRE OS MONGÓIS:

Com mais de 60 anos de idade, Gengis Khan começou a pensar como seria o Império após a sua morte. 

"Na tradição da estepe, cada filho em uma família de pastores recebia alguns animais de cada espécie que a família possuísse; assim como o direito de uso de alguma porção das terras de pastagem. Similarmente, Gengis Khan planejou dar a cada filho um império em miniatura, que refletisse, na medida do possível, as diversas propriedades de todo o império. Cada filho seria khan de um grande número de pessoas e rebanhos na estepe, assim como o proprietário de uma grande extensão de terras abarcando cidades, oficinas e plantações nas zonas sedentárias. Acima dos outros, no entanto, um filho seria o Grão-Khan, que administraria o governo central, ..." (página 205, Gengis Khan e a Formação do Mundo Moderno, Jack Weatherford, editora Bertrand Brasil)

Gengis Khan morreu em 1227. Seu filho Ogodei recebeu o título de Grão-Khan. Ogodei não era como seu pai. Ele achava que um reino conquistado na sela de um cavalo não poderia ser governando também sobre a sela de um cavalo, de forma que ele precisava de uma capital, de um palácio. Foi um erro ele pensar assim, porque foi justamente a mobilidade resultante do uso do cavalo que possibilitou que Gengis Khan conquistasse, em tão pouco tempo, um território imenso. 

Ogodei construiu a sua capital em Karakorum. Paulatinamento, os mongóis seriam transformados de uma nação de guerreiros montados em uma corte sedentária. Em 1235, Ogodei já havia esbanjado tanto dinheiro na sua capital, que praticamente toda a riqueza angariada por Gengis Khan tinha sido dilapidada. De onde Ogodei poderia tirar dinheiro? Seu povo não manufaturava, não cultivava a terra. Só havia uma alternativa: novas guerras. Havia 4 caminhos: guerra contra a dinastia Sung, no sul da China; guerra contra a Índia; invasão do Oriente Média (Bagdá, Damasco); invasão da Europa.

Não havia um consenso sobre qual alvo era o melhor. Num primeiro momento, pensou-se que a guerra deveria se dar em todas a direções. 

No que diz respeito à campanha europeia, ela durou 5 anos, e foi comandada por dois netos de Gengis Khan, Batu e Mongke. A invasão teve início na área do Rio Volga, em 1236 (século XIII). Do Volga partiram para a conquista pelo que mais tarde se tornaria a Rússia e a Ucrânia. Antes de invadir, os mongóis faziam uma proposta para suas vítimas. Ela consistia no pagamento de 10% de toda a riqueza produzida, em troca da qual os mongóis deixariam de destruir o principado/reino, deixando ainda de interferir na religião e no governo locais. A cidade de Kiev, na atual Ucrânia, não aceitou a proposta dos Mongóis, razão pela qual foi destruída em 1240. Depois da Rússia e da Ucrânia, os mongóis entraram na Hungria e na Polônia. Um exército europeu foi batido em Liegnitz, em 1241. O exército húngaro foi derrotado. Os mongóis perseguiram o rei húngaro até o Mar Adriático. Nada os detinha. Os europeus foram salvos pela por um detalhe. O Khan Ogodei tinha morrido. Um novo Khan teria que ser escolhido e, para isso, todos os mongóis deveriam ir para a Mongólia. E asssim, como um milagre, os mongóis deixaram a Europa em paz. 

PAX MONGOLICA:

A conquista mongol do século XIII possibilitou uma expansão comercial e cultural. Houve um florescimento comercial na Eurásia.

Os mongóis cuidaram da rota comercial ao longo da Eurásia, transformando a Rota da Seda numa via de comunicação expressa. Criaram uma infraestrutura na forma de estações, situadas a cada 40 ou 50 km. Essas estações ofereciam cavalos e provisões para usuários autorizados, enviados diplomáticos, mensageiros e comerciantes. 

"Os viajantes carregavam um medalhão inscrito em mongol para provar que sua viagem tinha sanção oficial. Esse paizi (palavra chinesa) foi o ancestral do nosso sistema de passaporte." ( página 151, Impérios Uma Nova Visão da História Universal, Jane Burbank e Frederick Cooper, Editora Crítica)

Nessas estações os mercadores podiam ser controlados e taxados, enquanto que "...mensageiros oficiais podiam mudar de cavalo, seguir em frente e percorrer até 320 km em um único dia." (página 151 Impérios Uma Nova Visão da História Universal, Jane Burbank e Frederick Cooper, Editora Crítica)

Essa rede mongol ao longo da Eurásia estendia-se desde o Pacífico até o Mediterrâneo e o Báltico, viabilizando uma intensa troca de técnicas, conhecimentos e ideias. 

NOVO KHAN - GUYUK:

O novo Khan escolhido para comandar os mongóis foi Guyuk. Depois de 18 meses no poder, ele morreu. Provavelmente foi assassinado. Em 1251, Mongke assumiu no seu lugar. 

"Nos anos seguintes, Mongke, Arik Boke e Kublai carregariam o título de Grão-Khan por diferentes períodos, e seu outro filho Halegu, se tornaria Il Khan da Pérsia e fundador de sua própria dinastia naquela região. Seus filhos ampliariam o império ao máximo ao conquistarem toda a Pérsia, Bagdá, Síria e Turquia. Eles viriam a conquistar a Dinastia Sung e chegariam ao Vietnã, ao Laos e à Birmânia. Destruiram a temida ordem dos Assassinos e executariam o califa muçulmano." (página 270, Gengis Khan e a Formação do Mundo Moderno, Jack Weatherford, Editora Bertrand Brasil)

IMPÉRIO MONGOL RETOMA A OFENSIVA:

Agora, os alvos eram a Dinastia Sung da China e a civilização muçulmana dos árabes e persas. Mongke designou seu irmão Halegu para atacar Bagdá, Cairo e Damasco. Kublai ficaria com a China. Em 1253, os mongóis partiram para mais uma aventura. 

No caminho para Bagdá, Halegu teria que atravessar uma área dominada por fortalezas ismaelitas nizari, uma ordem muçulmana herética de xiitas conhecidas como ASSASSINOS. Essas fortalezas, construídas nas montanhas, estendiam-se do Afeganistão à Síria. Sem um exército regular, essa ordem muçulmana extraía seu poder do terror e de assassinatos. Eles buscavam matar qualquer um que porventura se pusesse contra eles. Eram recrutados homens jovens, que eram doutrinados com a ideia de que, caso morressem pela causa, ganhariam a entrada para o paraíso. Esses jovens também eram atraídos por prazeres terrenos, como o Haxixe. 

"Supostamente devido à importância dos narcóticos para os ismaelitas, eles eram chamados de hashshashin, isto é, usuários de Haxixe. Com o passar do tempo, esse nome evoluiu para a palavra assassino." (página 286, Gengis Khan e a formação do Mundo Moderno, Jack Weatherford, Editora Bertrand Brasil)

Em 1256, os assassinos se renderam aos mongóis. O caminho para Bagdá estava livre para Halegu. Bagdá era a maior e mais rica cidade do mundo muçulmano. Em fevereiro de 1258, os mongóis conquistaram Bagdá. Damasco rendeu-se e os mongóis chegaram às praias do Mediterrâneo. Mas o mongóis não eram invencíveis. Ao tentarem conquistar o Egito, foram derrotados pelos mamelucos em 1260. 

Kublai, por sua vez, conseguiu conquistar a China. Em 1260, foi proclamado Imperador Chinês. Kublai também conquistou o título Grão-Khan dos mongóis. 

O Império Mongol dividia-se agora em quatros zonas :

1) Kublai (Dinastia Yuan) governava a China, o Tibet, a Manchuria, a Coreia e a Mongólia Oriental.

2) Um outro ramo do poder mongol, denominada Horda Dourada, dominava os países eslavos da Europa oriental, e se recusava a reconhecer Kublai como Grão-Khan. Essa Horda Dourada dominava cidades como Kiev, Moscóvia, Kazan, Astracã, etc.

3) As terras governadas por Halegu, que se estendiam do Afeganistão até a Turquia, ganharam o nome de ilkhanato, isto é, império vassalo

4) Os mongóis mais tradicionais ocuparam as estepes centrais, que ficaram conhecidas como Mogolistão, e abrangiam uma área que hoje engloba o Cazaquistão e a Sibéria no norte, e através do Turquistão, na Ásia Central, até o Afeganistão, no sul.

A divisão acima exposta foi o início do fim do domínio mongol. Na europa oriental, o principado de Moscóvia se tornou o Império Russo, tomando todos os territórios antes dominados pelos mongóis. Nos países muçulmanos, turcos, persas e árabes retomaram o poder, em prejuízo dos mongóis. Na China, os chineses retomaram o seu país das mãos dos mongóis.

"O império de Gengis Khan foi o último grande império tribal da história. O herdeiro de 10 mil anos de guerras entre as tribos nômades e o mundo civilizado, a antiga luta do caçador e pastor contra o fazendeiro. Uma história tão antiga quanto aquelas das tribos beduínas que seguiram Maomé para destruir a idolatria pagã da cidade, das campanhas romanas contra s hunos, dos gregos contra os citas nômades, dos moradores das cidades egípcias e persas que oprimiam as tribos nômades dos pastores hebreus e, em última análise, de Caim, o lavrador, que matou seu irmão Abel, o pastor." (página 403, Gengis Khan e a Formação do Mundo Moderno, Jack Weatherford, Editora Bertrand Brasil)


Império Mongol 1297

Divisão do Império Mongol 1300

TAMERLÃO OU TIMUR, O COXO, OU TIMURLENK. VITÓRIA DAS SOCIEDADES SEDENTÁRIAS SOBRE AS TRIBOS NÔMANES. A ÚLTIMA TENTATIVA DE REVIVER O IMPÉRIO MONGOL

Tamerlão nasceu na década de 30 do século XIV, num clã menor no interior de uma confederação tribal turco-mongol, em uma das quatro grandes regiões em que o Império Mongol de Gengis Khan e seus descendentes se tinha dividido. Tamerlão acabou se destacando como líder, reunindo em torno de si as tribos e clãs locais. Entre 1380 e 1390 (século XIV), lançou-se na conquista do Irã, da Mesopotâmia (atual Iraque), Armênia e Geórgia. Dirigiu ainda ataques ao sul da Rússia e ao norte da Índia, destruindo Déli. Depois, regressou ao Oriente Médio, atacando as cidades sírias de Alepo e Damasco. Em 1402, derrotou o sultão otomano na Batalha de Ancara. As suas conquistas tentaram reproduzir o grande Império Mongol. Assim como o Império Mongol, o Império de Tamerlão sustentava-se com a exploração da rota comercial eurasiática (Eurásia). A capital do seu Império timúrida ficava na cidade de Samarcanda, na Ásia Central. 

O Império de Tamerlão acabou desaparecendo após a sua morte. A sua morte assinalou o fim de uma longa fase da história mundial:

1) O Império de Tamerlão foi a última tentativa de unir a Eurásia num bloco uniforme sob o governo de uma só pessoa. A partilha da Eurásia entre o Extremo Ocidente (Europa), a Eurásia Central Muçulmana (Iraque, Síria, etc) e a Ásia Oriental (China) estava consolidada. 

2) O derradeiro insucesso de Tamerlão assinalou a vitória dos Estados fundados em sociedades sedentárias sobre os Estados fundados em sociedades nômades. O campo semeado venceu o domínio da estepe.

3) A decadência do estilo nômade de governo originou a decadência do centro da Eurásia. Em seu lugar, floresceram os extremos da Eurásia: extremo ocidente na Europa e extremo oriente na Ásia.

4) A morte de Tamerlão também assinalou o começo do fim da Eurásia como corredor do comércio mundial - rota oriente - ocidente. A rota da seda perderia relevância. A descoberta das rotas marítimas (século XV) por  Portugal abriu um espaço comum pelo qual o comércio seria realizado, ligando todos os campos do mundo. 

Conquistas de Tamerlão

Anotações extraídas da leitura dos Livros abaixo relacionados:

1) Gengis Khan e a formação do mundo moderno, Jack Weatherford, Editora Bertrand Brasil

2) Ascensão e Queda dos Impérios Globais, 1400-2000, John Darwin, Editora Edições 70

3) Impérios Nova Visão da História Universal Jane Burbank e Frederick Cooper, Editora Crítica