quinta-feira, 5 de maio de 2022

Os Homens do Fim do Mundo Os criadores das Armas de Destruição em Massa Bomba Atômica



EXTINÇÃO DO SER HUMANO:

O ser humano é a única espécie que pode produzir a sua própria extinção. Esse feito só foi possível graças à engenhosidade dos cientistas que, conseguindo liberar a energia do átomo, conseguiram produzir armas de destruição em massa.

Mas antes das armas atômicas, outras armas postularam a posição de destruidoras em massa da espécie humana.

a) Armas Químicas: A primeira arma de destruição em massa foi o gás venenoso criado pelo alemão Fritz Haber. Ela então foi utilizada pela primeira vez na Primeira Guerra Mundial, na batalha de Ypres, em 1915.

b) Armas Biológicas: A segunda arma de destruição em massa foi a biológica. Ela utilizava vírus e bactérias. Ela começou a ser estudada na década de 30 do século XX, por um cientista japonês, Shiro Ishii. 

c) Energia do átomo: Por fim, a arma de destruição em massa mais famosa foi a bomba atômica. Um húngaro, radicado nos EUA, Leo Szilard, descobriu a maneira de liberar a energia do átomo, o que deu início à corrida pela obtenção de uma bomba atômica. 

"Leo Szilard foi o primeiro a descobrir, em 1933, a maneira de liberar as poderosas forças que atuam no coração de todos os átomos. A ideia lhe ocorreu como um estalo, quando ele atravessava uma rua perto de Russel Square, Bloomsbury, Londres. O ponto crucial estava em lograr uma reação em cadeia de nêutrons, para causar um efeito dominó que se expandisse pela matéria e liberasse um número cada vez maior de nêutrons. Fora de controle, ela produzia a maior explosão conhecida pelo homem. Sob controle, proporcionaria ao mundo um suprimento ilimitado de energia barata." (página 28)

Szilard foi além, teorizando sobre uma arma atômica que pudesse, sozinha, acabar com a vida na Terra. Esta arma do fim do mundo seria a Bomba de Cobalto (Bomba C). Essa arma seria originalmente uma Bomba de Hidrogênio, uma Bomba H, mas que, depois de envolta em Cobalto, que absorve radiação, causaria, após a sua detonação, uma nuvem de poeira radioativa, que uma vez precipitada sobre a superfície da Terra, causaria a extinção da vida tal qual como a conhecemos. 

O ÁTOMO:

"A história do átomo começa no século V a.C. Os filósofos gregos Leucipo e Demócrito acreditavam que a matéria era formada por átomos imutáveis e indestrutíveis, que constituíam as menores unidades do mundo físico. A palavra átomo vem do grego 'atomo', que significa indivisível. Em 1808, John Dalton, um quaker de Manchester, reviveu o atomicismo, que se tornou, graças a ele, um instrumento poderoso da ciência, dominante do século XIX, a química."(página 57)

Foi Dalton que propôs que os elementos podiam diferenciar-se uns dos outros pelos pesos relativos de seus átomos.

No final do século XIX e início do século XX, a ideia do átomo como indivisível caiu por terra. O átomos podia ser dividido. E dessa divisão poderia ser extraída energia. No século XX, essa energia resultaria na fabricação de bombas atômicas e em Usinas Nucleares para a produção de energia elétrica.

A ENERGIA ESCONDIDA NA MATÉRIA:

O primeiro cientista a vislumbrar a energia que estava escondida na matéria foi o francês Henri Becquerel, em 1896. O elemento químico que permitiu essa descoberta foi o Urânio. Becquerel descobriu uma energia que vinha do Urânio. Uma aluna de Henri Becquerel, Marie Curie, decide investigar essa energia vinda do Urânio. Trabalhando com o Urânio, Curie obtém outro elemento químico, o Rádio. Mas para entender de onde vinha essa energia do Urânio e do Rádio, era necessário estudar o átomo.

O coração do átomo é o seu núcleo, composto por nêutrons e prótons, que estão firmemente ligados. Eles permanecem fixo, imutáveis dentro do núcleo. E o número de prótons dentro do núcleo é que define o elemento químico. Um átomo com um próton em seu núcleo é o elemento químico Hidrogênio. O elemento químico Hélio tem em seu núcleo dois prótons e dois nêutrons. O ouro tem 79 prótons. Agora, o que nos interessa aqui, o núcleo do Urânio, tem 92 prótons e, geralmente, 146 nêutrons. É o maior núcleo da Terra. Ele é tão grande que expele pedaços de si mesmo. E esses pedaços expelidos são a Radiação. Assim, quando o núcleo do átomo de Urânio expele pedaços de si mesmo, na forma de radiação, ele está perdendo prótons, de forma que ele não terá mais os 92 que originalmente o compunham. E isso significa que ele não é mais Urânio, pois o núcleo do átomo do Urânio tem 92 prótons. Passamos a ter então um elemento químico diverso daquele Urânio com o qual estávamos lidando. Estamos diante da transmutação. Um elemento químico, o Urânio, ao expelir prótons de seu núcleo, transforma-se num novo elemento químico. 

a) Transmutação: 

O Urânio, quando expele, exala radiação e energia, mudando sua estrutura atômica, transforma-se em Tório, um elemento químico diverso do Urânio. O Tório também é radioativo, ele libera radiação e se transforma em Protactinio, um novo elemento químico, diverso do Urânio e do Tório. Então aparece o elemento descoberto por Marie Curie, o Rádio. O Rádio decai e temos agora um novo elemento químico, o Radônio, que é um gás. Na sequência, temos o Polônio, que já não é um gás. Enfim, o Urânio dá origens a 14 elementos químicos. O último é o chumbo. O chumbo não é radioativo, não decaindo, isto é, não se transformando em outro elemento químico. 

Toda vez, portanto, que um átomo de Urânio altera sua estrutura atômica, por meio de sua divisão, ele perde um pouco de sua massa, liberando energia. E essa energia poderá ser usada numa bomba atômica ou pacificamente, numa Usina Nuclear, para produzir energia elétrica para residências e indústrias. 

b) Reação em Cadeia:

Como vimos, o Urânio muda naturalmente sua estrutura atômica. Mas poderia o ser humano forçar essa mudança? Otto Hahn, um cientista alemão, descobriu que sim. Otto Hahn conseguiu dividir o núcleo do átomo de Urânio, que tem 92 prótons e 143 nêutrons. Somados, tem a massa atômica 235, razão pela qual é chamado Urânio 235. A força que mantém esse núcleo unido é a maior força do universo. Esse núcleo é tão grande e encontra-se em tal estado de tensão e instabilidade que, se for adicionado nele mais um nêutron, sua instabilidade aumentará ainda mais, de forma que o núcleo colapsa, sofrendo então uma divisão, uma fissão. Aquele núcleo original então se transforma em dois outros núcleos, com massa menor, sendo que essa perda de massa resultou na produção de energia. Essa divisão, além de produzir energia e dois novos núcleos de massa menor, ainda produz de dois a três nêutrons. E é aqui que a ideia de Leo Szilard, da reação em cadeia, se encaixa, porque esses dois ou três nêutrons liberados irão atingir outros núcleos de Urânio 235, que também irão sofrer uma divisão (fissão), liberando então mais energia e mais nêutrons. 

Dessa forma, um núcleo de Urânio pode se dividir em 2, que irão se dividir em 4, em 8, em 16 e assim por diante, numa reação em cadeia.

Fonte para o tópico "Energia escondida na matéria."

PBS: Uranium - Twisting the Dragon's Tail



A CIÊNCIA COMO SALVADORA DO MUNDO E COMO CAUSADORA DE SEU FIM:

Num primeiro momento, no início final do século XIX e início do século XX, a ciência foi vista como o instrumento para criar um mundo melhor para todos. Por exemplo, a manipulação do átomo, de forma a extrair a energia contida nele, possibilitou a criação do Raio-X, em 1895, que ajudou no desenvolvimento da medicina. 

A história do Raio-X:

Curiosamente, o criador do Raio-X, o alemão Wilhelm Conrad Rontgen, que trabalhava na Universidade alemã de Wurzburg, não sabia de onde provinha o Raio-X. Numa entrevista, ele respondeu às perguntas de um repórter da seguinte forma:

Seria Luz? Rontgen respondeu que não. Seria eletricidade? Rontgen respondeu que não nas formas que a conhecemos. Por fim, Rontgen respondeu que não sabia de onde provinha o Raio-X.

"As radiações eletromagnéticas de alta energia, como os raios-x, podem soltar elétrons dos átomos. Em consequência, os átomos passam a conter carga elétrica, em um processo conhecido como ionização. Os átomos ionizados podem ser muito instáveis." (página 68)

Na época não se sabia disso, de forma que as pessoas eram expostas aos raios-x sem proteção. Muita gente acabou morrendo por causa disso ou ficando gravemente doente. 

Clima de Otimismo com a ciência:

Nesse clima inicial de otimismo, cogitou-se até que a criação de uma arma de destruição em massa poderia acabar com todas as guerras. Essa utopia científica era exemplificada pelo surgimento de um mago científico que, a partir de seu laboratório, surgiria com uma arma tão terrível, tão devastadora, que nenhum país poderia confrontá-lo militarmente. Esse cientista então obrigaria os exércitos do mundo a desarmar-se. Assim, a figura do cientista-salvador e a sua superarma libertariam o mundo de séculos de guerras. (página 17)

FIM DAS UTOPIAS CIENTÍFICAS:

Em meados do século XX, com o início da Guerra Fria entre a União Soviética e os EUA, e com as explosões de bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, essa idealização da ciência e dos cientistas caiu por terra. A corrida atômica entre EUA e União Soviética colocou o mundo de sobressalto. Todos agora esperavam pelo fim do mundo, pelo apocalipse. Os cientistas então passaram a ser vistos como aqueles que iriam destruir o mundo. Essa nova ideia foi exemplificada pelo filme de Stanley Kubrick, "Doutor Fantástico" (Dr. Strangelove), que traz a figura de um cientista criador de uma arma que acabaria com a vida na Terra. https://www.youtube.com/watch?v=L2VN0TpIOPI

INÍCIO DA INVENÇÃO DA BOMBA ATÔMICA:

O primeiro reator nuclear, que iria produzir o material para a confecção das bombas atômicas jogadas sobre Hiroshima e Nagasaki, foi construído na Universidade de Chicago. Em dezembro de 1942, o primeiro experimento desse reator nuclear foi realizado com sucesso. Nesse reator, embrião das Usinas Nucleares modernas, o núcleo de um átomo sofreu um processo de divisão (fissão), resultando na alteração da sua massa e na liberação de energia. 

O SONHO DOS ALQUIMISTAS DA ANTIGUIDADE E DA IDADE MÉDIA REALIZADO:

Como já visto acima, sim, os elementos químicos, tanto na natureza quanto em um laboratório, podem transmutar-se. O plutônio, elemento químico de número 94 na Tabela Periódica, foi descoberto num laboratório, da Universidade da Califórnia, em 1941, pelo químico americano Glenn Seaborg, "que bombardeou urânio com dêuteron (núcleos de átomos de hidrogênio pesado) e separou laboriosamente os elementos transmutados que resultavam do bombardeio." (página 53)

Seaborg comentou sobre a dificuldade, após esse experimento, juntar o elemento químico plutônio, resultante do bombardeamento do urânio com dêuteron:

"Em determinada ocasião, tínhamos apenas 5 átomos de dispúnhamos de umas poucas horas para fazer uma identificação positiva por meio de análises químicas. A dificuldade pode ser percebida quando se verifica que a tinta do pingo no "i" que aparece nessa página que você está lendo contém algo como 1 bilhão de átomos." (página 53)

Depois de todo o experimento realizado, Seaborg e um assistente seu tiveram que trabalhar arduamente para juntarem somente meio micrograma de plutônio. 

Glenn Seaborg foi premiado pelo seu trabalho. Foi trabalhar no Projeto Manhattan, responsável pela construção das bombas atômicas americanas. O elemento químico descoberto por Seaborg, o plutônio, foi utilizado na confecção de bomba atômica Fat Man (O Gordo), que seria jogada em Nagasaki. 

Como dito anteriormente, depois de realizar seu experimento de bombardeamento do urânio com dêuteron, para obter o elemento químico Plutônio, Seaborg e um assistente trabalharam arduamente para juntarem somente meio micrograma de Plutônio.

Já a bomba atômica da Nagasaki continha 6 quilos de plutônio, o que dá uma medida da quantidade de trabalho que os americanos tiveram que empregar para conseguir, num período curto de tempo, produzir material suficiente para armar uma bomba atômica. Somente um país como os EUA, com todos os seus recursos financeiros, tecnológicos, naturais e humanos poderia dar cabo de uma empreitada dessa magnitude em tão pouco tempo.

ANOTAÇÕES EXTRAÍDAS DA LEITURA DO LIVRO "OS HOMENS DO FIM DO MUNDO, O VERDADEIRO DR FANTÁSTICO E O SONHO DA ARMA TOTAL" P. D. SMITH, EDITORA COMPANHIA DAS LETRAS.

Fatos que antecederam a Batalha das Ardenas



A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL DEVERIA TER TERMINADO EM DEZEMBRO DE 1944:

Nos meses de agosto e setembro de 1944, imperava um clima de otimismo entre os aliados. Depois de dificuldades enfrentadas durante o Dia D, os aliados tinham conseguido avançar pela Bélgica e para Paris. 

Em 24 de agosto, os aliados libertaram Paris. Em setembro, os aliados libertaram a capital da Bélgica, Bruxelas.

Antes disso, em julho de 1944, um atentado contra Hitler, na sua Toca do Lobo, na Prússia Oriental, tinha criado entre os aliados o pensamento de que a Alemanha Nazista estava desmoronando, estava se desintegrando, assim como acontecera em setembro e outubro de 1918, quando o Império Alemão se viu confrontado por revoltas internas, capitaneadas por trabalhadores e militares, que levaram ao armistício de novembro de 1918.

Aliados Alemães, como Romênia, Bulgária e Finlândia começavam a abandonar o Terceiro Reich. Os soviéticos, depois de derrotarem o Grupo de Exércitos Centro, correram para o Vístula e para a fronteira da Prússia Oriental.

Enfim, todos esses acontecimentos criaram na mente dos aliados o sentimento de que a guerra iria terminar em dezembro de 1944. Esse era o sentimento entre os ingleses e os americanos. Estes últimos chegaram a cancelar a compra de armamentos, como artilharia. O pensamento americano agora voltava-se para a guerra no Pacífico, contra o Japão. Os ingleses, por sua vez, davam como certo que a guerra terminaria no natal de 1944.

APESAR DO OTIMISMO, NEM TUDO ERAM FLORES ENTRE OS ALIADOS:

Apesar do otimismo, havia problemas para os aliados. O principal deles dizia respeito ao abastecimento. Os aliados precisavam de um grande porto, pelo qual pudessem escoar todo o material militar desembarcado, além de combustível e rações para as tropas. Os portos de Dunquerque e Calai tinham sido destruídos pelos alemães. O porto de Antuérpia, no estuário do Escalda, na Bélgica, ainda contava com tropas alemãs que impediam o seu uso. Outro problema era que o sistema ferroviário francês tinha sofrido com os bombardeios aliados antes da invasão do Dia D. Sem o acesso aos trens, os aliados tinham que usar caminhões. Foram quase nove mil caminhões, que faziam viagens diárias entre o litoral francês e o front. Somente a riqueza econômica americana seria capaz de arcar com o uso de tantos caminhões e com o combustível usado para fazê-los rodar.

RUSGAS ENTRE OS ALIADOS:

Nesse final da Guerra, os ingleses começavam a se sentir preteridos. No começo, foram os ingleses que, praticamente sozinhos, seguraram Hitler. Agora, em agosto/setembro de 1944, o então protagonismo inglês foi deixado de lado. Os protagonistas agora eram os EUA que, com a sua riqueza em homens, combustíveis, materiais bélicos e alimentos, comandavam as ações contra os alemães. Isso gerou ciúmes entre os ingleses. 

Em meio a tudo isso, encontrava-se o General Dwight Eisenhower, o líder dos Aliados na invasão à França. Eisenhower teve que administrar, por exemplo, o ego do General inglês Montgomery, que pretendia ser a principal figura na ação militar que desencadeasse a derrota final da Alemanha. Mas Eisenhower tinha que lidar também com generais americanos, como Bradley e Patton. Desses dois, Patton tinha sido aquele que mais sucesso obteve, avançando de forma contundente pelo centro do território francês. 

TÁTICAS DIVERGENTES:

Os aliados tinham visões diferente de como dar a estocada final nos alemães. Pelo lado dos ingleses, o general Montgomery pretendia desferir o golpe final indo pelo litoral do Mar do Norte, atravessando então o Rio Reno e chegando no Ruhr, a região alemã rica em carvão, responsável pela sua produção bélica. Já os americanos pretendiam seguir para a região alemã do Saar. Em meio a essas divergências, Dwight Eisenhower, como comandante máximo das forças aliadas, tinha que decidir qual caminho seguir. 

OPERAÇÃO MARKET GARDEN:

Planejada pelos ingleses, pelo General Montgomery, ela seguia o plano de invadir a Alemanha seguindo pelo norte, passando pela Holanda, na cidade de Arnhem, atravessando então o Rio Reno e indo depois para a região do Ruhr. A operação contava com forças aerotransportadas. Montgomery acreditava que os alemães, que defendiam a região em torno de Arnhem, estavam desmotivados e sem força para responder a um ataque. No fim, a Operação Market Garden foi um retumbante fracasso. 

A CAMPANHA DE OUTUBRO DE 1944:

A Batalha de Aachen - 14/10/1944: Aachen, cidade alemã situada logo depois da fronteira holandesa. Capturá-la significava romper a linha de defesana fronteira ocidental do Reich alemão, chamada de Siegfried ou de Westwall. Aachen foi a cidade de Carlos Magno, então a capital do Sacro Império Romano Germânico. Chamada de Aix-La-Chapelle pelos franceses e Aquisgrano pelos romanos. Agora, em outubro de 1944, era apenas uma cidade que deveria ser conquistada pelos Aliados em sua marcha para alcançar o Rio Reno. Em 21 de outubro, Aachem se rendeu aos alemães. O Rio Reno agora estava a uma distância de 30 km. Parecia fácil percorrer esses 30 km, mas havia um obstáculo formidável pela frente, a Floresta de Hurtgen. 

A BATALHA NA FLORESTA DE HURTGEN:

Localizada a sudeste de Aachen, a floresta de Hurtgen seria um obstáculo terrível para os americanos. O 1º Exército americano, sob o comando do Tenente General Courtney H. Hodges, teria que atravessá-la para atingir o Rio Reno. Havia outra opção, mas o Tenente General Hodges insistiu nela e nenhum de seus subordinados ousava desafiá-lo. Lutar numa floresta colocava em desvantagem a superioridade americana em número de carros blindados. O apoio aéreo também ficava prejudicado. 

A batalha em meio aos Pinhais que formavam a Floresta de Hurtgen foi feita sob um constante fogo de artilharia, de ambos os lados. 

A artilharia disparava deliberadamente para que os projéteis explodissem no topo das árvores. O resultado disso era uma chuva de estilhaços da bomba com lascas de lascas de madeira caindo sobre os soldados, que corriam para dentro das trincheiras em busca de alguma proteção. Mas as trincheiras também podiam trazer problemas para os soldados que nelas buscavam refúgio. O frio intenso e a umidade causavam o "pé de trincheira', que nos casos mais graves poderia redundar na amputação do pé do soldado. 

Além da Artilharia, havia ainda as minas terrestres, usadas em abundância. Uma vez um soldado americano afastou, com um chute, uma bota ensanguentada. Depois esse mesmo soldado estremeceu de pavor ao ver que ainda havia um pé ali dentro. O dono daquele pé deveria ter pisado numa das milhares de minas espalhadas pela floresta. 

"Havia um fluxo constante de soldados feridos a sair da floresta, escreveu o jovem artilheiro Arthur Couch, 'Reparei num homem que estaria agarrado à barriga num esforço para conter um grande ferimento que lhe deixava sair os intestinos.' " (página 99)

"Um sargento mais velho disse-me para me deitar atrás das pedras altas e depois movimentar-me na direção onde explodira a última peça de artilharia alemã. Disse que era o mais seguro a fazer, uma vez que os artilheiros alemães sempre viravam um bocadinho o seu canhão para atingir outra posição. Eu (Arthur Couch) corri em direção à última explosão e a seguinte ocorreu a 30 metros de distância. Foi um conselho que me salvou a vida." (página 99)

Os homens que combateram na floresta de Hurtgen vivenciaram casos de esgotamento nervoso/fadiga de combate. 

"Depois de lá passar 5 dias, falamos com as árvores, dizia uma das poucas piadas. Ao sexto dia, elas começam a responder-nos." (página 108)

"Bem, não é muito mau até os soldados de infantaria ficarem tão cansados que, quando saem da linha há um soldado morto da sua própria unidade deitado de costas no seu caminho, não são capazes de desviar os pés, e pisam no rosto rígido porque...que se lixe." (página 108)

Enquanto os combates se desenrolavam em meio aos pinhas da Floresta de Hurtgen, o 3º Exército de Patton, a sua da Floresta de Hurtgen, conquistava a cidade/fortaleza de Metz. Descendo ainda mais para o sul, forças americanos e francesas conquistaram a cidade de Estrasburgo, na Alsácia. A norte, os britânicos, sob o comando de Montgomery, avançavam pela fronteira holandesa/alemã, a partir de Nijmegen.

POR QUE OS ALEMÃES DEFENDERAM A FLORESTA DE HURTGEN COM TANTO AFINCO?

Era para evitar uma penetração das forças aliadas a norte do ponto inicial daquilo que viria a ser a última cartada de Hitler na guerra, a Ofensiva das Ardenas. Basta uma olhada no mapa para ver que o setor da Floresta de Hurtgens estava localizado naquilo que seria o flanco norte do avanço alemão pelas Ardenas. Os alemães não poderiam se dar ao luxo de iniciar uma ofensiva tendo, à sua direita, forças aliadas. A resistência alemã era empreendida por elementos do Grupo de Exércitos Centro, sob o comando do Generalfeldmarschall Model.



PREPARATIVOS PARA A OFENSIVA DAS ARDENAS:

Hitler teve a ideia da Ofensiva das Ardenas no mês de setembro de 1944. Hitler estava na Prússia Oriental, na Toca do Lobo (Wolfsschanze). Ele estava doente, com icterícia, mas não deixava de pensar numa forma mudar o curso da guerra. 

Na Alemanha, a Ofensiva das Ardenas seria chamada de Herbstnebel (Neblina de Outono)

Hitler achava que a aliança entre os capitalistas (França, Grã-Bretanha, EUA) e os comunistas (URSS), mais cedo ou mais tarde, iria ruir. Ela não poderia se sustentar, pois não era algo natural. A previsão de Hitler iria se concretizar, mas só depois do fim da Segunda Guerra Mundial, com a eclosão da Guerra Fria entre os EUA e a URSS. 

Hitler ainda acreditava que só se defender os ataques dos aliados, a leste e a oeste, não resultaria em nada de positivo para a Alemanha. Era necessário uma ofensiva que poderia mudar a sorte da guerra. O objetivo era avançar em direção ao porto de Antuérpia, na Bélgica. Com esse avanço, Hitler queria dividir os aliados, com canadenses e britânicos no norte, e americanos e franceses no sul, criando assim uma nova Dunquerque. A captura do porto de Antuérpia ainda iria dificultar a logística dos aliados, impedindo que seus navios  usassem o porto para abastecer as tropas no front. Enfim, os alemães não poderiam ficar somente se defendendo. A Alemanha teria que se arriscar para tentar mudar o curso da guerra. A escolha pelas Ardenas se deu pelo fato de ser a área menos defendida pelos Aliados. Outro motivo foi o fato das tropas alemãs ficarem concentradas na floresta de Eifel, do lado alemão da fronteira. Ali os alemães ficariam protegidos de ataques aéreos dos aliados. 

OS ALIADOS FORAM PEGOS DE SURPRESA:

O Comando Aliado do SHAEF (Quartel-General Supremo da Força Expedicionária Aliada), com sede em Versalhes, não fazia ideia que os alemães vinham preparando uma ofensiva nas Ardenas. Os aliados foram pegos de surpresa. Em 15 de dezembro, um dia antes do início da ofensiva alemã, um oficial de operações do SHAEF disse que não havia nada a reportar relativamente ao setor das Ardenas. A tranquilidade entre os aliados era tão grande que o Marechal de Campo Montgomery perguntou a Eisenhower se poderia passar o natal na Inglaterra. 

Os aliados achavam, naquele final de 1944, que a Alemanha nazista estava fragilizada demais para empreender uma ofensiva. 

O ESTÍMULO PARA O SOLDADO ALEMÃO CONTINUAR LUTANDO:

Soldados alemães envolvidos na ofensiva das Ardenas, por meio de cartas enviadas para casa, exprimiam a esperança de que a ofensiva seria a chance de expulsar os aliados da Alemanha. Havia ainda a propaganda feita por Goebbels, que usava o medo para manter viva, no soldado alemão, a vontade de lutar, mesmo diante de tantas dificuldades. A tática de Goebbels consistia em espalhar entre os soldados que eles, caso fossem capturados pelos americanos, seriam entregues aos russos. Seriam enviados para a Sibéria. O Slogan de Goebbels era: SIEG ODER SIBIRIEN (Vitória ou Sibéria).

INÍCIO DA OFENSIVA DAS ARDENAS:

Sábado, 16 de dezembro de 1944. A artilharia do 6º Exército Panzer de Sepp Dietrich abre fogo contra as posições americanas. 

ANOTAÇÕES EXTRAÍDAS DA LEITURA DO LIVRO "A BATALHA DE ARDENAS, A ÚLTIMA CARTADA DE HITLER", ANTONY BEEVOR, EDITORA BERTRAND


domingo, 17 de abril de 2022

Fernão de Magalhães Circum-navegação A Terra é uma esfera



OBJETIVO DA CIRCUM-NAVEGAÇÃO:

"O escopo da viagem era alcançar as fabulosas Ilhas das Especiarias, mas não como os portugueses, pelo caminho do levante, circum-navegando a África, percorrendo o Oceano Índico e por fim velejando pelo Mar de Sonda. Mas sim contornando as Américas (que era a direção atribuída pelo Santo Padre à Espanha), embora a maior parte dos cartógrafos, costumasse representar nos mapas aquele remoto continente como terra soldada ao Polo Antártico. Na pior das hipóteses, abriria caminho através de uma passagem secreta que Magalhães seria o único a conhecer." (página 31)

As ilhas das especiarias (Molucas - atual Indonésia) já eram frequentadas pelos portugueses. Eram nas Molucas que cresciam as especiarias desejadas pelos europeus (noz-moscada, cravo da índia, etc). Era o comércio mais lucrativo daqueles dias. 

Os espanhóis queriam tomar essas ilhas dos portugueses, estabelecendo um monopólio no comércio das especiarias. O Estado Moderno do século XVI, substituto do feudalismo então vigente, buscava fontes de produtos que pudessem ser comercializados, redundando em dinheiro para o país que detivesse o monopólio desse comércio. Portugal e Espanha foram os primeiros nessa transição do Estado feudal para o Estado Moderno acumulador de capital

Fernão de Magalhães, então, deveria, ao chegar às Molucas, estabelecer um monopólio espanhol, resultando que aquelas ilhas só poderiam negociar com emissários do rei espanhol. 

FERNÃO DE MAGALHÃES:

Súdito português que optou trabalhar para a Espanha, para o rei Carlos V. Foi capitão-general de uma esquadra financiada pela Espanha, responsável pela primeira circum-navegação da história, iniciada em 20 de setembro de 1519 e encerrada em 6 de setembro de 1522. 

Fernão tinha se desentendido com o rei de Portugal. Trabalhar para o rei da Espanha e, pior ainda, buscar uma rota alternativa para o oriente, tornou Fernão de Magalhães persona non grata em Portugal, pois colocava em risco o monopólio português no comércio das especiarias. 

Fernão de Magalhães foi o idealizador da circum-navegação, iniciando-a mas não conseguindo completá-la. Fernão de Magalhães foi morto numa batalha com indígenas na ilha de Mactan (atual Filipinas), em abril de 1521. Quem efetivamente conseguiu completar a circum-navegação no comando da frota espanhola foi Juan Sebastian Elcano, natural do país Basco, no norte da Espanha.

Fernão de Magalhães já tinha comandado a sua frota na travessia do Oceano Atlântico, passando pelo que hoje é o Rio de Janeiro. Passou ainda pelo Rio da Prata, cuja foz cogitou-se ser a passagem para o Oceano Pacífico. Não era. A frota espanhola continuou descendo pela costa da atual Argentina.Descobriu, por fim, uma passagem para o Oceano Pacífico, na região que foi batizada como Tierra del Fuego, no extremo sul da América do Sul, no atual Chile ( Estreito de Todos os Santos - Estreito de Magalhães). 

Entrando no atual Oceano Pacífico, na época chamado de Mar del Sur, a frota espanhola teve que percorrer um longo caminho até encontrar Terra. Enquanto Cristovão Colombo levou um mês e alguns dias para avistar Terra, Fernão de Magalhães e sua frota só vieram a encontrar Terra no dia 21 de janeiro de 1521, depois de percorridos mais de 100 dias de navegação rumo ao oeste. Parecia que aquele oceano era uma espécie de deserto que iria engolir a frota espanhola. E a Terra descoberta naquele 21 de janeiro não era grande coisa. Mas era "...uma ilhota de rochas escuras, com árvores sem frutas, ...nem uma gota de água doce." (página 163)

"A sensação de termos encalhado num planeta feito só de água, água e mais água. Para não falar da eterna calmaria - foi assim que Magalhães pensou, não sem irritação, em chamar aquele mar traiçoeiro de Oceano Pacífico." (página 154)

Na sequência da viagem outras ilhas iam surgindo. a principal delas o conjunto de ilhas que hoje constituem as Filipinas ( arquipélago das Filipinas, 16/03/1521)

A circum-navegação tinha sido um êxito. As Molucas, ilhas das Especiarias foi alcançada em 6 de novembro de 1521. Mas nessa data Fernão de Magalhães já estava morto.

MORTE DE FERNÃO DE MAGALHÃES:

Entre março e abril de 1521, a frota espanhola ficou explorando as ilhas que hoje compõem o moderno país das Filipinas. No começo, tudo correu bem. Os espanhóis foram bem recebidos pelos locais. que estavam fascinados pelo poder das armas espanholas (seus canhões, suas armaduras, etc)

Num primeiro momento, essa mistura de admiração e medo fez com que os indígenas locais se submetessem aos espanhóis. Parecia que os locais tinham sinceramente se convertido ao cristianismo, tornando-se ainda súditos do rei espanhol. Parecia tudo muito fácil. E essa facilidade inicial tornou Fernão de Magalhães cheio de si, achando que poderia, em pouco tempo, transformar todos os habitantes daquelas ilhas em cristãos e súditos espanhóis. Fernão de Magalhães não iria aceitar qualquer oposição aos seus planos.

"A essa altura Fernão de Magalhães deveria sentir-se tocado pela graça do Senhor; e esse excesso de confiança acabou por ser uma das causas da sua ruína." (página 196)

Fernão de Magalhães cria, acreditava que sua missão estava próxima de ser realizada em sua integralidade. 

"Assim que se crê firmemente em alguma coisa, ela se torna real." (página 197)

Naquela altura dos acontecimentos, para Fernão de Magalhães bastava a sua vontade para tornar verdadeiro tudo o que desejava. 

"A verdade é só uma questão de vontade." (página 197)

Essa confiança excessiva de Fernão de Magalhães seria a causadora de sua morte no dia 27 de abril de 1521. Ao ver seus planos sendo contestados pelo príncipe Cilapulapu, líder de uma das ilhas (Mactan) componentes do arquipélago da atual Filipinas, Fernão de Magalhães organizou uma expedição armada para enfrentá-lo. Mas Fernão organizou mal o ataque. Acreditava que os nativos iriam se render ao primeiro tiro de canhão. No fim, a falta de organização do ataque espanhol, somada à bravura dos nativos de Mactan, acabou por determinar a derrota dos espanhóis. Em meio à luta, Fernão de Magalhães acabou sendo morto. 

Enquanto isso, os nativos das outras ilhas, ao verem a derrota dos espanhóis, perderam o respeito por eles. Se deram conta que os espanhóis não eram deuses. Eram humanos e frágeis como eles e podiam ser derrotados. A partir daí, os nativos começaram a perder o respeitos pelos espanhóis. O resultado é que os espanhóis foram expulsos das ilhas. Os nativos então abandonaram o cristianismo e voltaram para seus deuses. 

Sem Fernão de Magalhães no comando da frota, os espanhóis saíram das Filipinas. A frota passou então pelo Oceano Índico. Desceu pela costa oriental africana. Passou pelo Cabo da Boa Esperança, seguindo então pelo Oceano Atlântico, até chegar à Espanha, completando a circum-navegação em setembro de 1522

QUEM TERMINOU A CIRCUM-NAVEGAÇÃO:

A frota espanhola chegou à Espanha em setembro de 1522, sob o comando do espanhol Juan Sebastian Elcano. A frota então estava reduzida a um navio, o Victoria. Os méritos da circum-navegação ficaram com o espanhol Juan Sebastian Elcano. Fernão de Magalhães foi esquecido por motivos políticos. Ele era português. A Espanha era rival de Portugal. Dessa forma, a Espanha agiu para desaparecer com Fernão de Magalhães, atribuindo o mérito da primeira circum-navegação da Terra ao espanhol Elcano. 

DESTINO DA PASSAGEM DESCOBERTA POR FERNÃO DE MAGALHÃES:

O caminho descoberto por Fernão de Magalhães se mostrou economicamente inviável e extremamente perigoso, caindo em desuso.

Agora, quem seguia aquele caminho preferia transportar as mercadorias em caravanas pelo istmo do Panamá." (página 246)

A TERRA É REDONDA. NÃO É PLANA:

Com a chegada às Filipinas e às ilhas Molucas, ficava confirmado "...que a Terra é uma esfera e que, seguindo em linha reta, mais cedo ou mais tarde, chega-se de volta ao ponto de partida" (página 172)

ANOTAÇÕES EXTRAÍDAS DE LEITURA DO LIVRO "FERNÃO DE MAGALHÃES" A MAGNÍFICA HISTÓRIA DA PRIMEIRA CIRCUM-NAVEGAÇÃO DA TERRA", GIANLUCA BARBERA, EDITORA VESTÍGIO.

quarta-feira, 13 de abril de 2022

A Morte de Hitler Teorias da Conspiração Hitler teria fugido do bunker?




A VERDADE:

Hitler fugiu para a Argentina ou cometeu suicídio? 
Vamos aos fatos:
Nas últimas semanas de abril de 1945, Hitler rejeitou todas as propostas para fugir e se esconder dos aliados. Testemunhas que estavam com Hitler, no Bunker da Chancelaria, relataram que ele dizia estar tudo perdido. 

"A 22 de abril de 1945, dois dias após o seu 56º aniversário, disse aos seus generais e à sua equipe que se suicidaria com um tiro..." (página 196)

Albert Speer, no dia 24 de abril, ficou sabendo, pela boca de Hitler, que Eva Braun queria compartilhar do mesmo destino de seu companheiro, suicidando-se. 
Como planejado, no dia 30 de abril de 1945, Hitler, acompanhado por Eva Braun, trancou-se no seu escritório, no bunker da Chancelaria, em Berlim. Posteriormente, testemunhas que entraram no escritório de Hitler encontraram-no no sofá, a escorrer sangue de um buraco na têmpora direita, a pistola caída no chão ao seu lado. O corpo de Eva Braun estava ao lado do corpo de Hitler. O corpo de Eva Braun exalava um forte odor, indicativo que tinha se envenenado. 
Os corpos de Hitler e de Eva foram então enrolados em cobertores, embebidos em combustível e queimados no jardim da Chancelaria do Reich. Após isso, os corpos carbonizados de Hitler e Eva foram enterrados no mesmo local.
Com o fim da guerra, soldados soviéticos desenterram os corpos de Hitler e Eva. Pouco restou de Hitler e Eva. Os soldados soviéticos conseguiram pagar próteses dentárias e uma parte de um maxilar. De posse deles, os soviéticos procuraram o técnico que trabalhava para o dentista de Hitler, que confirmou que os restos mortais encontrados no jardim da Chancelaria do Reich pertenciam a Hitler e a Eva Braun (página 197)

"Os restos mortais de Adolf Hitler, como Ian Kershaw conclui na sua monumental biografia do líder nazi, 'cabiam, ao que parece, numa caixa de charuto'." (página 197)

A conclusão de que Hitler não fugiu e que se matou no Bunker é baseada em várias investigações, feitas pelos britânicos, pelos soviéticos e por um Tribunal alemão de Berchtesgaden, que em 1956, após uma exaustiva investigação, concluiu pela morte de Hitler, emitindo então sua certidão de óbito.

AS TEORIAS CONSPIRATÓRIAS:

Quem preparou o terreno para o surgimento das teorias conspiratórias, sobre a morte ou não de Hitler, foi o ditador comunista Stalin. Por que Stalin agiu dessa forma? Para Stalin era importante que as pessoas achassem que Hitler ainda estava vivo, de forma a justificar sua política de ser o mais duro possível com os alemães, de forma a erradicar o nazismo de uma vez por todas, e de colocar os alemães de joelhos. 
Stalin ainda tinha outro objetivo. Ele queria rechaçar a versão de que Hitler teria lutado até fim contra o bolchevismo, sendo morto em combate. Essa narrativa tinha sido divulgada na noite do dia 1 de maio de 1945: "Às 22h26 do dia 1 de maio de 1945, a morte de Hitler foi oficialmente anunciada na rádio alemã. O almirante Donitz, apontado para lhe suceder no cargo, disse à Wehrmacht que o Fuhrer fora morto 'na luta contra o bolchevismo, até ao seu último fôlego'". (página 191)

Stalin então queria que Hitler fosse visto como um covarde, um fujão. Para conseguir seu objetivo, Stalin colocou em segredo um relatório de mais de 400 páginas, concluído em 1949, que concluía que Hitler tinha se suicidado no Bunker da Chancelaria do Reich. Esse relatório só viria à luz com a queda da União Soviética (1989/1991). Para Stalin, a mitologia de que Hitler ainda estaria vivo ajudaria seu plano de manter o controle sobre a Europa a leste da Cortina de Ferro. Até a presença anglo-americana e de tropas francesas em território alemão, após o fim da guerra, ajudava a fomentar a mitologia de que Hitler estaria vivo. Seria o medo de que Hitler, emulando Napoleão Bonaparte, voltasse à Alemanha para recomeçar a guerra.
Logo após a guerra, revistas sensacionalistas americanas e inglesas contavam histórias de que Hitler estaria vivo. Eram histórias que não se escoravam em documentos ou depoimentos de testemunhas reais, mas ajudavam na venda das revistas.
Muito foi dito e escrito na época sobre o destino de Hitler: ele estaria numa ilha no Báltico; ele teria sido visto em Dublin, vestido de mulher; teria até sido visto como mendigo nas ruas da Albânia. Mas a história mais contada era a de que Hitler teria fugido para a Argentina
Contribuíram para as narrativas de que Hitler tinha fugido para a Argentina, o fato de alguns nazistas terem de fato fugido para aquele país, como por exemplo, Adolf Eichmann. 


SÉCULO XXI E O RESSURGIMENTO DAS TEORIAS CONSPIRATÓRIAS SOBRE O DESTINO FINAL DE HITLER:

O século XXI viu o renascimento das teorias conspiratórias sobre o destino final de Hitler. Livros, filmes e até documentários foram lançados. Como toda teoria conspiratória, elas buscam desqualificar estudos feitos por acadêmicos profissionais que são rejeitados simplesmente pelo fato de serem acadêmicos profissionais. 
Defensores de teorias conspiratórias seguem um script definido:

a) Só eles conhecem a verdade. Eles lutariam contra grupos de pessoas malévolas e ricas que manipulam nos bastidores.
b) Só eles levantam o véu do conhecimento oficial.
c) Avalanche de frases do tipo: 'Poderia ter havido'; É possível que Hitler tenha vindo por aqui'; 'Se havia de fato um bunker'.
d) Por que não contam a verdade?
e) Veem-se como perseguidos.
f) Usam de especulações, suposições, insinuações, sugestões e simplesmente invenções.
g) Procuram sistematicamente desacreditar o saber produzido nas Universidades.
h) Procuram desacreditar a ciência, buscando promover um conhecimento alternativo de natureza diversa.

O livro de Richard E. Evans comenta esses novos livros, filmes e documentários, de forma exaustiva, mostrando as suas falhas, rebatendo todas essas teorias conspiratórias. Chega a ser cansativo ler o autor rebatendo os vários absurdos criados em torno do destino final de Hitler. Há de tudo. Apenas alguns exemplos: 

a) Hitler teria fugido para a Argentina. 
b) Hitler teria fugido para uma ilha do Báltico. Hitler teria fugido para o Estado do Mato Grosso, no Brasil. Hitler então teria se estabelecido na cidade de de Nossa Senhora do Livramento, perto de Cuiabá, onde, munido de um mapa dado por aliados do Vaticano, se lançou na busca de um tesouro escondido. 
c) Haveria um sósia de Hitler no Bunker, que se passava por ele, enquanto o Hitler original fugia de Berlim. 

Apesar de cansativo, o trabalho do autor é necessário nesses tempos de pós-verdade, de fake news. É necessário, nesse mundo no qual há gente disposta a acreditar em qualquer absurdo, como por exemplo, que a Terra é plana.

ANOTAÇÕES EXTRAÍDAS DA LEITURA DO LIVRO "AS CONSPIRAÇÕES EM TORNO DE HITLER, O TERCEIRO REICH E A IMAGINAÇÃO PARANÓICA", RICHARD E. EVANS, EDITORA EDIÇÕES 70.

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Uma das razões para a queda do Império Romano do Ocidente Perda de Cartago



A INVASÃO DOS BÁRBAROS:

A incursão de povos bárbaros pelo interior do Império Romano do Ocidente não chegava a ser uma novidade. 

O Império Romano do Ocidente lidava com as incursões dos povos bárbaros criando políticas para absorvê-los. 

Essa absorção podia ser feita de várias formas. O exército romano atuava para absorvê-los. Havia ainda políticas de assentamento, como por exemplo o caso dos visigodos, que foram assentados na região de Toulouse, na atual França. Os Borgonheses foram assentados nas proximidades de Genebra, na atual Suíça.

O que importa dizer é que algo aconteceu no século V que esgotou a capacidade do Império Romano do Ocidente em lidar com essas incursões bárbaras, resultando na sua desintegração política.

A PERDA DA PROVÍNCIA NA ÁFRICA DO NORTE:

A hipótese levantada por este livro para explicar esse esgotamento está na perda de Cartago, onde hoje se localiza a Tunísia. Cartago era a fonte de cereais e de azeite do Império Romano do Ocidente. 

Cartago caiu no ano 439 para os vândalos. 

"O problema eram os vândalos, cuja confederação havia entrado no império a partir do norte, atravessando o Reno em 407, deslocando-se através da Gália para Espanha, na década seguinte. Embora estivessem parcialmente esmagados em 417, não estavam dominados e invadiram o norte da África, em 429, sob a liderança de Genserico (✝477), o seu novo rei. O seu assentamento em 435 não foi de maneira alguma acompanhado de uma derrota militar e o seu novo território, não muito fértil em si mesmo, situava-se nos limites das principais fontes de cereais e de azeite do império ocidental - as terras ricas em redor da cidade romana de Cartago, na atual Tunísia. Por que razão não quereriam eles controlar este território e por que motivo não o compreenderiam os romanos e não defenderiam melhor Cartago? Mas Aécio (✝454), o supremo chefe militar e político no Ocidente à época, não o fez e Cartago, por conseguinte, caiu em 439. Esta opção - um erro - constituiu um dos pontos de viragem mais importantes na capacidade dos romanos controlarem os tempos da mudança política no Ocidente." (página 57/58)

"Sem a riqueza da África, o Império Romano do Ocidente começou a esgotar os recursos tributários. Sem receitas tributárias, era mais difícil pagar exércitos regulares, cada vez mais necessários na situação política complexa naquele período. Sem exército regular, era cada vez mais necessário utilizar exércitos de bárbaros, como aliados, mas era também cada vez mais difícil controlá-los." (página 58) 

ANOTAÇÕES EXTRAÍDAS DA LEITURA DO LIVRO "EUROPA MEDIEVAL", DE CHRIS WICKHAM, EDITORA EDIÇÕES 70

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Muhammad Ali Paxá O Modernizador do Egito


Muhammad Ali ou Mehmet Ali


ORIGEM:

Antes de tudo, é preciso esclarecer sobre a grafia do nome de Muhammad Ali. O livro "Os árabes", de Eugene Rogan, grafa o nome como Muhammad Ali. Já o livro "Uma História Concisa do Oriente Média, de Arthur Goldschmidt Júnior e Ibrahim Al-Marashi, grafa o nome como Mehmet Ali.

Muhammad Ali ou Mehmet Ali era de etnia albanesa. Nasceu em 1770, na cidade de Kavala, na Macedônia, que na época fazia parte do Império Otomano. Muhammad Ali era então um comandante a serviço do Império Otomano. Comandava um contingente de 6 mil albaneses. 

A modéstia não era uma característica da personalidade de Muhammad Ali, que dizia: nasci no mesmo ano que Napoleão Bonaparte e na terra de Alexandre, o Grande. 

Na condição de comandante a serviço do sultão otomano, Muhammad Ali foi escalado para debelar o caos que havia tomado conta do Egito, então uma província otomana, na esteira da saída das tropas napoleônicas em 1801. 

Quatro anos depois de chegar ao Egito, com a situação local apaziguada, como recompensa de seu bom trabalho, Muhammad Ali foi alçado pelo sultão otomano para a posição de Paxá, que o credenciava a servir como governador em qualquer província otomana. Num primeiro momento, Muhammad Ali foi nomeado governador na província otomana do Hejaz, na qual se localizava a cidade sagrada de Meca. Mas Muhammad Ali queria mesmo era ser governador do Egito, que tornou-se realidade somente em junho de 1805. 

GOVERNADOR DO EGITO:

Muhammad Ali Paxá, na condição de governador da província otomana do Egito, passou a colocar seu plano em marcha, consubstanciado no desejo de fazer do Egito um trampolim a partir do qual buscaria derrubar o sultão otomano, tornando-se então ele próprio o líder do Império Otomano. O Egito, apesar de ser uma província otomano, era dotado de autonomia, cuja obrigação com o Império Otomano consistia no pagamento de um tributo a Istambul. Isso dava a Muhammad Ali, que no papel era somente um vice-rei do sultão otomano,  uma grande liberdade de ação, podendo governar o Egito da forma mais independente possível.  

"...Muhammad Ali era um otomano e buscava dominar o Império Otomano." (página 101)

Para conseguir dominar o Império Otomano, antes de tudo Muhammad Ali passou a modernizar e a fortalecer o Egito. Muhammad buscou a tecnologia industrial europeia para produzir armas e têxteis para o seu exército. Para pagar por essa tecnologia, o Egito investiu na sua agricultura.

"Mehmet Ali foi ainda o primeiro governante não ocidental a compreender a importância da revolução industrial." (página 185, Uma História Concisa do Oriente Médio).

"O Egito se tornou o primeiro país do Oriente Média a fazer a transição da agricultura de subsistência (na qual os produtores cultivavam o que consumiam, mais o que tinham de pagar em arrendamento e impostos) para o cultivo agrícola comercial (no qual cultivavam produtos para serem vendidos). Tabaco, açúcar, índigo e algodão se tornaram os principais produtos agrícolas. Usando as receitas do que produziam, Mehmet Ali financiava seus esquemas para o desenvolvimento industrial e militar." (página 185 - Uma História Concisa do Oriente Médio).

A autonomia que o Império Otomano concedia à sua província egípcia permitia que Muhammad Ali negociasse diretamente com outros países, como se o Egito fosse um país soberano.

"Ele apreciava ter relações diretas com as grandes potências da Europa, que o tratavam mais como um soberano independente do que como um vice-rei do sultão otomano." (página 101)

CONSOLIDAÇÃO DO PODER NO EGITO:

Muhammad Ali levou 6 anos para consolidar seu poder no Egito. Internamente não enfrentava nenhum desafio. 

A primeira campanha militar empreendida pelo Egito de Muhammad Ali foi feita para atender a uma ordem emanada do sultão otomano. A campanha (1812-1818) foi para debelar uma revolta na península arábica, encabeçada pela seita wahabita. O wahabismo foi um movimento que pretendia uma reforma do islamismo, que se opunha ao sultão otomano, por ver no Império Otomano a representação de um islamismo degradado. As forças egípcias, então comandadas por Ibrahim, filho de Muhammad Ali, derrotaram os wahabitas em 1818. 

Em reconhecimento aos serviços prestados, o Império Otomano deu a Ibrahim o título de Paxá (governador), nomeando-o governador da província do Hejaz. A província otomana do Hejaz fica no oeste da península arábica, na qual ficam as cidades de Meca, Medina e Jidá (Jedah). Pelo porto de Jidá, milhares de peregrinos chegam, indo depois para a cidade de Meca, na qual realiza-se a peregrinação sagrada que todo muçulmano deve fazer pelo menos uma vez em sua vida (Hajj). Essa peregrinação anual rendia um bom dinheiro para o governador do Hejaz. 

Com seu filho no cargo de governador da província Hejaz, na prática Muhammad Ali a adicionou ao seu Egito.

CONQUISTA DO SUDÃO (1820/1824):

Depois da campanha na península arábica, os egípcios sob o comando de Muhammad Ali partiu para o sul, conquistando o Sudão, dominando assim o litoral do Mar Vermelho, conseguindo o monopólio do comércio local, ajudando a enriquecer ainda mais o Egito.

INDEPENDÊNCIA DA GRÉCIA E INTERVENÇÃO EGÍPCIA:

Com a eclosão do movimento de independência na Grécia, o sultão otomano teve que mais uma vez se socorrer do exército de Muhammad Ali. 

O exército egípcio de Muhammad Ali foi bem sucedido na contenção da rebelião grega. Como prêmio, a família de Muhammad Ali foi premiado pelo governo otomano com províncias na Grécia e no Mar Egeu. 

"Os egípcios estavam conseguindo sufocar rebeliões que haviam resistido aos otomanos e expandindo o território sob controle do Cairo. Se Muhammad Ali se rebelasse, não estava claro se os otomanos seriam capazes de resistir a suas tropas." (página 110)

Resumo da história: O Império Otomano, nos anos 1812/1818, não conseguiu conter a rebelião da seita Wahabita na península arábica. Precisaram então se socorrer do exército egípcio de Muhammad Ali. Na sequência, com a rebelião na Grécia, os otomanos mais uma vez se viram obrigados a se socorrer com o exército de Muhammad Ali. O Império Otomano não conseguia mais resolver os problemas que eclodiam em suas províncias, dependendo cada vez mais do exército egípcio de Muhammad Ali. E a cada serviço prestado ao Império Otomano, a família de Muhammad Ali ganhava mais e mais províncias, aumentando ainda mais o seu poder. 

BATALHA DE NAVARINO. INDEPENDÊNCIA GREGA E INSUBORDINAÇÃO DE MUHAMMAD ALI:

Mesmo depois da intervenção egípcia na Grécia, a rebelião não foi totalmente debelada. E para piorar a situação do Império Otomano, as potências ocidentais França e Grã-Bretanha passaram a apoiar a independência da Grécia. Em 1827, na batalha naval de Navarino, França e Grã-Bretanha derrotaram as forças combinadas de egípcios e otomanos. No ano de 1832, um reino independente grego seria estabelecido na Conferência de Londres.

Num ato de insubordinação explícita, Muhammad Ali negociou um tratado em separado com a Grã-Bretanha. Era uma afronta ao sultão otomanos que, um vassalo seu, Muhammad Ali, negociasse com os europeus sem consultá-lo. E o pior de tudo é que o sultão otomano não tinha força militar para obstar a insubordinação de Muhammad Ali. 

A CONQUISTA DA SÍRIA:

Muhammad Ali era um insubordinado. Não prestava contas para o sultão otomano, que nominalmente era seu superior. Negociou em separado com os europeus, numa afronta ao sultão otomano. Mas o pior, para o Império Otomano, estava por vir. Muhammad agora visava conquistar militarmente a província otomana da Síria. Agora o exército egípcio estava em guerra contra o Império Otomano. Em 1831, Ibrahim Paxá, o filho de Muhammad Ali, a frente de um exército egípcio bem treinado, nos moldes de um exército europeu, partir para conquistar a Síria. 

No caminho para conquistar a Síria, o exército egípcio conquistou a cidade de Acre e a Palestina (1832). Damasco caiu para os egípcios. Agora o exército egípcio partiu para conquistar as cidades de Alepo e Homs. Em outubro de 1832 os egípcios entraram na Anatólia, Na batalha de Konya, em dezembro de 1832, o exército egípcio conseguiu uma grande vitória sobre os otomanos. Os egípcios estavam então a uma distância de 200 quilômetros de Istambul, a capital otomana. O sultão otomano então se viu obrigado a negociar com Muhammad Ali, concedendo a ele as províncias do Hejaz, Creta, Acre, Damasco, Trípoli e Alepo. Muhammad Ali ainda foi reconduzido à posição de Governador do Egito, que tinha perdido quando seu filho Ibrahim Paxá invadiu a Síria (Paz de Kutahya - 1833)

DOMÍNIO EGÍPCIO NA SÍRIA:

O domínio egípcio na Síria causou descontentamento entre a população local. Aumento de impostos e recrutamento para o exército fizeram com que os sírios passassem a odiar a presença egípcia. Rebeliões então eclodiram na Palestina e no Líbano,  que faziam parte da Grande Síria (a Grande Síria do século XIX abrangia os atuais Líbano, Síria, Jordânia, Israel, Cisjordânia, Faixa de Gaza). 

Muhammad Ali não se deixou amedrontar pela rebelião. Ele estava tão confiante de seu poder que passou a trabalhar pelo desmembramento definitivo da Síria e do Egito do Império Otomano, buscando até uma forma de indenizar o sultão otomano. 

O problema para Muhammad Ali era que a França e a Grã-Bretanha não iriam aceitar o desmembramento do Império Otomano. Então, quando tudo parecia perdido para o Império Otomano, ele foi socorrido por uma coalização europeia, constituída por Grã-Bretanha, Áustria, Prússia e Rússia. 

Em janeiro de 1841, acossado por rebeliões e pela coalização europeia, os egípcios saíram da Síria. 

CAPITULAÇÃO DE MUHAMMAD ALI:

Um acordo intermediado pelos britânicos estabeleceu que Muhammad Ali teria o governo hereditário do Egito e do Sudão. Em troca, Muhammad Ali, além de abandonar a Síria, reconheceu o sultão otomano como seu suserano, concordando ainda a fazer um pagamento anual ao Império Otomano. Enfim, pelo menos nominalmente, o Egito voltava a ser uma província otomana. 

"O Egito teria o seu próprio governo e faria suas próprias leis, mas permaneceria vinculado à política externa do Império Otomano." (página 121)

MORTE DE MUHAMMAD ALI:

Muhammad Ali morreu em agosto de 1849. Foi sucedido pelo seu neto Abbas. 

A dinastia inaugurada por Muhammad Ali governaria o Egito até que a revolução de 1952 a derrubasse. 

ANOTAÇÕES EXTRAÍDAS DAS LEITURAS DOS LIVROS "UMA HISTÓRIA CONCISA DO ORIENTE MÉDIO, DE ARTHUR GOLDSCHMIDT JUNIOR E DE IBRAHIM MARASHI, EDITORA VOZES E "OS ÁRABES", DE EUGENE ROGAN, EDITORA ZAHAR




domingo, 24 de outubro de 2021

IMPÉRIO OTOMANO COMO SUCESSOR DO IMPÉRIO ROMANO CHRIS WICKHAM



É CERTO DIZER QUE O IMPÉRIO ROMANO DUROU ATE À PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL, QUANDO O ESTADO OTOMANO COLAPSOU?

Sim, da leitura do presente livro é possível dizer que, em certo sentido, o Império Romano durou até o colapso o Império Otomano, em 1918, no final da Primeira Guerra Mundial.

Por que o autor afirma isso?

A afirmação se baseia no fato de que o Império Otomano utilizou algumas das estruturas fiscais e administrativas básicas do passado romano/bizantino na construção do seu próprio Estado. A própria capital do Império Otomano, Istambul, foi erigida sobre a antiga capital do Império Romano do Oriente (Império Bizantino), Constantinopla. 

O que colapsou, portanto, no século V, foi o Império Romano do Ocidente. O Império Romano do Oriente, com base na sua capital em Constantinopla, iria durar ainda quase mil anos, sob o nome de Império Bizantino, ",,,embora os seus habitantes se chamassem a si próprios romanos até ao seu fim.." (página 53)

"Por que razão caiu o Império Romano? A resposta curta é dizer que não caiu. Metade do império, a sua metade oriental (os atuais Bálcãs, Turquia, Levante, Egito), governada a partir de Constantinopla, continuou a existir sem problemas durante o período de desagregação imperial e da conquista por forasteiros da metade ocidental (correspondente ao atual território da França, Espanha, Itália, norte da África e Bretanha), ocorrida no século V." (página 53)

O autor justifica a ideia de que o Império Romano sobreviveu até o século XX dizendo que não pretende "evocar a imagem de um passado que nunca muda. Existem sempre elementos do passado no presente, mas tal não significa que não tenha havido grandes mudanças." (página 53)

ANOTAÇÕES EXTRAÍDAS DA LEITURA DO LIVRO "EUROPA MEDIEVAL", CHRIS WICKHAM, EDITORA EDIÇÕES 70

terça-feira, 19 de outubro de 2021

A Decisão da Alemanha Nazista de romper o Pacto Ribbentrop Molotov e preparar uma Guerra contra a União Soviética


Encontro de Hitler com Molotov, Novembro de 1940

NEGOCIAÇÕES ENTRE A ALEMANHA NAZISTA E A UNIÃO SOVIÉTICA. 12 DE NOVEMBRO DE 1940. MOLOTOV VAI A BERLIM PARA SE ENCONTRAR COM HITLER E RIBBENTROP. NEGOCIAÇÕES PARA A CONTINUIDADE DO ACORDO NAZI-SOVIÉTICO, ASSINADO EM 23 DE AGOSTO DE 1939. DIRETIVA N°21 A DECISÃO DE HITLER DE ATACAR A UNIÃO SOVIÉTICA, DEZEMBRO DE 1940.

MOLOTOV VAI A BERLIM:

Em 12 de novembro de 1940, Molotov, o Ministro das Relações Exteriores da União Soviética, vai a Berlim para negociar a continuidade do Pacto Ribbentrop/Molotov, o acordo Nazi-Soviético assinado em 23 de agosto de 1939. 

"O tempo não ofereceu um bom presságio na chegada de Molotov a Berlim. Céus de chumbo e chuva fustigante receberam o Ministro do Exterior soviético na capital de Hitler." (página 224)

Nessa viagem, Molotov se encontrou com Ribbentrop, Ministro das Relações Exteriores da Alemanha Nazista e com o próprio Hitler.

Nesse momento, tanto a Alemanha quanto a União Soviética desejavam manter o acordo. Mas esse era o único ponto em comum entre as duas ditaduras, pois de resto não havia pontos de convergência. 

A POSIÇÃO ALEMÃ:

Os alemães estavam desgostosos com o comportamento da União Soviética. A Alemanha se via como a única parte do acordo que tinha se arriscado, entrando em guerra contra a Polônia, a Grã-Bretanha e a França. Enquanto isso, a União Soviética anexou territórios nos países Bálticos (Letônia, Lituânia, Estônia), no leste da Polônia e na Bessárabia e na Bucovina, sem precisar disparar um tiro sequer. 

A parte econômica do acordo, consistente no envio de matéria-prima soviética para a indústria alemã, também não estava sendo vantajosa para a Alemanha.

A Alemanha queria que a União Soviética se abstivesse da Europa. A Alemanha não via com bons olhos o desejo da União Soviética de se imiscuir em assuntos europeus. A URSS já tinha anexado os países bálticos, uma parte da Finlândia, o leste da Polônia, a Bessarária e a Bucovina. Para a Alemanha seria melhor que a União Soviética se concentrasse na expansão territorial para o sul, na direção do Golfo Pérsico/Oceano Índico, onde iria se chocar com os interesses da Grã-Bretanha. Esse seria o melhor dos mundos para a Alemanha nazista: 

Ver a URSS esquecer a Europa, deixando-a para a Alemanha, expandindo-se para a região do Golfo Pérsico e do Oceano Índico, chocando-se com os interesses do Império Britânico. 

"Hitler claramente queria a União Soviética de Stalin fora da Europa, incapaz de intrometer-se em assuntos balcânicos, ou do mar Báltico e do Bósforo. Ao tentar empurrar a URSS para o sul, canalizando suas ambições para o Oceano Índico e o 'falido' Raj britânico, ele não só queria alcançar esse objetivo mas também levar a União Soviética a um conflito com os britânicos, o que desestabilizaria a URSS e impossibilitaria qualquer suposta reaproximação anglo-soviética." (página 242)

Para conseguir convencer a URSS de seu plano, Ribbentrop e Hitler, em novembro de 1940, tentaram convencer Molotov de que a guerra já tinha praticamente acabado, com a Grã-Bretanha em vias de se render, de forma que o Império Britânico poderia então ser dividido entre a Alemanha e a União Soviética. A ironia da história é que, durante a estada de Molotov em Berlim, em meados de novembro de 1940, aviões britânicos bombardearam a cidade, mostrando que a Grã-Bretanha estava longe de uma rendição.

Num desses bombardeios, Molotov e Ribbentrop foram se refugiar num abrigo, num bunker.

"Enquanto Molotov e Ribbentrop discutiam como dividir o mundo fora do bunker, portanto, ouviram sem dúvida a cacofonia do ataque aéreo (britânico), particularmente o gemido ondulante das sirenes e os sustentados disparos das baterias antiaéreas de Berlim. Naquelas circunstâncias, as reiteradas afirmações de Ribbentrop de que os britânicos estavam acabados e a guerra contra a Grã-Bretanha 'ja estava ganha' devem ter soado um pouco prematuras. De acordo com Stalin, Molotov conteve as presunções de Ribbentrop com uma estocada certeira, perguntando 'por que estamos neste abrigo e de quem são essas bombas que caem', se a Grã-Bretanha tinha sito derrotada. Ribbentrop finalmente calou-se, tinha tinha o que responder." (páginas 239/240)

A POSIÇÃO DA UNIÃO SOVIÉTICA:

A União Soviética via-se em ótima situação. Tinha tido ganhos territoriais sem precisar entrar em guerra. Estava em paz, enquanto via Alemanha e Grã-Bretanha brigando entre si. Stálin tinha o desejo de manter o acordo Ribbentrop-Molotov. 

"No que dizia respeito a Moscou, as negociações deveriam continuar. As conversações de Berlim tinham sido apenas a abertura do processo." (página 240)

A União Soviética, no encontro de novembro de 1940, deixou claro sua posição:

- A Finlândia deveria fazer parte de sua esfera de influência, não aceitando qualquer ingerência alemã ali

- A União Soviética queria ter alguma forma de controle sobre os estreitos de Dardanelos e Bósforo. A União Soviética queria uma garantia de que suas bases no Mar Negro não seriam atacadas por meio desses estreitos pertencentes à Turquia. 

- Queria que a Alemanha explicasse as razões do acordo Tripartite entre esta, a Itália e o Japão. 

- A União Soviética tinha interesse na expansão para o sul do Cáucaso, na direção do Golfo Pérsico

- A União Soviética também tinha interesse no status dos estreitos de Kattegat e Skagerrak , que ligam o Mar Báltico ao Mar do Norte, e depois ao Oceano Atlântico.

- A União Soviética queria discutir a neutralidade da Suécia.

- A União Soviética ainda queria discutir assuntos relacionados à Hungria e à Iugoslávia.

Como vemos então, a União Soviética, ao contrário do que desejava a Alemanha, tinha interesses na Europa. Não se contentaria apenas com uma expansão para o sul, em direção ao Golfo Pérsico e Oceano Índico. A União Soviética também tinha interesses na Europa.

A DECISÃO DA ALEMANHA NAZISTA DE ATACAR A UNIÃO SOVIÉTICA - UMA DECISÃO ESTRATÉGICA, NÃO IDEOLÓGICA:

Em novembro de 1940, a Hitler ainda não tinha batido o martelo no sentido de ordenar um ataque à União Soviética. O encontro de novembro de 1940 entre Hitler e Molotov não tinha a intenção de enrolar os soviéticos. Ainda havia, por parte dos nazistas, a intenção de manter o acordo Nazi-Soviético. Os alemães, na realidade, naquela altura dos acontecimentos, mantinham todas as possibilidades em aberto: solução diplomática e solução militar. Uma solução militar contra a URSS já tinha sido aventada por Hitler em julhos de 1940, mas sem maiores consequências. 

A decisão concreta de realmente  travar uma guerra contra a União Soviética só veio em dezembro de 1940, por meio da Diretiva número 21. O que desencadeou essa decisão extrema foi o comportamento da União Soviética durante a Conferência do Danúbio - Comissão Internacional do Danúbio (outubro/dezembro de 1940). 

"A Comissão Internacional do Danúbio pertencia a esse tipo de organização regional cujas atividades raramente afetam os negócios internacionais (...) fazia reuniões periódicas, e em várias iterações, para regulamentar o tráfego no Danúbio e servir de fórum para as potências vizinhas resolverem suas diferenças. Mas, em 1940, aquilo que até então tinha sido uma questão bastante provinciana já se tornara o joguete das ditaduras totalitárias europeias, com a Alemanha e a União Soviética - esta  ultima uma 'Potência Danubiana' - disputando a supremacia." (página 244)

Mais uma vez, para desgosto dos alemães, a União Soviética resolver se meter em assuntos europeus, agora sobre a regulação da navegação no Rio Danúbio. Esse comportamento soviético foi a gota d'água que fez o copo alemão transbordar. Estava claro para a Alemanha que a URSS não iria deixar a Europa somente para a Alemanha. Diante disso, Hitler resolveu emitir ordens para o planejamento de um ataque à União Soviética. 

Tudo o que acima foi dito comprova que o que levou Hitler a preparar uma guerra contra a URSS foi a questão estratégica, nada tendo a ver com ideologia.

"A maior queixa do Fuhrer contra Moscou, portanto, não era ideológica, mas estratégica. A virada contra a União Soviética costuma ser descrita quase exclusivamente em termos ideológicos, como expressão de um preconceito antibolchevique que vinha de longa data e nunca foi suprimido por completo. Há qualquer coisa de verdade nisso, claro. (...) Mas preocupações estratégicas e geopolíticas  ainda tinham mais influência do que a ideologia (...) Consequentemente, só em dezembro, quando Moscou insistiu mais uma vez em seu papel europeu durante a conferência da Comissão Danubiana, quando a resposta soviética às propostas de Ribbentrop em Berlim foram recebidas e as perspectivas de uma solução negociada pareciam esgotadas, é que Hitler tomou a decisão irrevogável de atacar Stalin. Esse nexo fica mais claro quando se leva em conta o momento escolhido. A conferência da Comissão Danubiana finalmente entrou em colapso em 17 de dezembro, com as delegações italiana e soviética trocando socos. Na manhã seguinte, Hitler baixou sua Diretiva número 21, ordenando às forças alemãs que preparassem para 'esmagar a Rússia soviética numa campanha fulminante'. Com isso, a sentença de morte do Pacto Nazi-Soviético foi decretada - e nasceu a Operação Barbarossa." (página 246)

ANOTAÇÕES EXTRAÍDAS DA LEITURA DO LIVRO "O PACTO DO DIABO, A ALIANÇA DE HITLER COM STALIN, 1939-1941", ROGER MOORHOUSE, EDITORA OBJETIVA



segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Um Príncipe árabe traído pela Grã-Bretanha Nascimento da Arábia Saudita


No centro da foto, Emir (Príncipe) Faisal, filho do Xarife de Meca Hussein. Ele iria se tornar, pelas mãos dos Britânicos, Rei do Iraque

UM PRÍNCIPE ÁRABE TRAÍDO PELA GRÃ-BRETANHA. DOIS PRÍNCIPES ÁRABES LUTANDO PELO DOMÍNIO DA PENÍNSULA ARÁBICA. QUEDA DO IMPÉRIO OTOMANO. SURGIMENTO DA ARÁBIA SAUDITA.


UM PRÍNCIPE ÁRABE TRAÍDO PELA GRÃ-BRETANHA:

O príncipe árabe traído pela Grã-Bretanha foi o Xarife Hussein Ibn Ali de Meca. 

Hussein era da tribo Hachemita, a mesma de Maomé. Era o xarife de Meca, a cidade sagrada do islã. Xarife era o título dado ao descendente de Maomé (Muhammad). Era ainda senhor da província de Hejaz, localizada no oeste da península arábica, na costa do mar vermelho. Hussein era vassalo do Império Otomano. Meca e o Hejaz faziam parte do Império Otomano

Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914, a Grã-Bretanha passou a negociar com Hussein. O Império Otomano tinha entrado na guerra ao lado da Alemanha. A Grã-Bretanha viu em Hussein um possível aliado contra o Império Otomano. 

Em troca do apoio de Hussein na guerra contra os Otomanos, a Grã-Bretanha prometeu a criação de um Reino Árabe independente, que abrangeria as atuais Síria, Líbano, Iraque, Israel, Jordânia, Cisjordânia, Faixa de Gaza e o Hejaz. Esse Reino Árabe seria então dado a Hussein e aos seus filhos, Faisal e Abdullah.

Hussein então, ao lado de seus filhos, deu início a uma rebelião contra os Otomanos. Em julho de 1917, Faisal tomou a fortaleza otomana de Ácaba, localizada atualmente na Jordânia. Com a ajuda dos britânicos, os árabes as forças otomanas na Síria, tomando a cidade de Damasco.

Terminada a Primeira Guerra Mundial, Hussein foi traído pelos britânicos e pelos franceses. As atuais Síria e Líbano foram dadas para a França. A Palestina (atuais Israel, Jordânia, Faixa de Gaza, Cisjordânia) e o Iraque ficaram com a Grã-Bretanha. No fim, Hussein teve que se contentar com a província do Hejaz, com suas cidades de Meca, Medina e Jidá (Jedah). 

DOIS PRÍNCIPES ÁRABES LUTANDO PELO DOMÍNIO DA PENÍNSULA ARÁBICA:

O Xarife de Meca, Hussein, além de ter sido traído pela Grã-Bretanha, se deparou com outro problema: a ascensão de Ibn Saud, um governante árabe cujo centro de poder localizava-se no centro da península arábica, num oásis próximo da cidade de Diriyah. 

O poder de Ibn Saud foi resultado da união de seus antepassados com um movimento reformista islâmico, o Wahabismo. O Wahabismo foi criado por Muhammad Ibn Abd al-Wahab. O Wahabismo defendia um retorno ao islã puro do profeta e seus sucessores, os califas. O Wahabismo defendia que o islã que voltasse no tempo, englobando os três primeiros séculos do islã após a revelação do Alcorão. Tudo o que tinha vindo depois deveria ser descartado.

Num primeiro momento, os antepassados de Ibn Saud e os seguidores do Wahabismo foram contidos pelo Império Otomano, por meio dos exércitos de Muhammad Ali, o senhor do Egito.

Mas no século XIX o movimento reformista do Wahabismo retornou, mais uma vez com o patrocínio da família saudita. A expansão dos sauditas, sob o comando de Ibn Saud, foi rápida. Partindo do coração da península arábica (Najd), os sauditas conquistaram áreas da península arábica na costa do Golfo Pérsico. Enquanto o Xarife de Meca, Hussein, lutava contra os Otomanos, os sauditas se expandiam pela península arábica, chegando nas proximidades do Hejaz. 

Com o fim da Primeira Guerra Mundial, as forças de Ibn Saud partiram de Riad (atual capital da Árabia Saudita) para conquistar o Hejaz de Hussein. Os ingleses nada fizeram para socorrer seu antigo aliado Hussein, Sozinho, Hussein foi derrotado pelos sauditas e teve que abandonar a sua terra.

Ibn Saud, depois de derrotar Hussein, unificou grande parte da península arábica sob o seu governo. Ibn Saud então renomeou seu reino, criando o moderno estado da Arábia Saudita. 

PRÊMIO DE CONSOLAÇÃO:

Hussein ajudou os ingleses a derrotar o Império Otomano. Hussein foi traído pelos ingleses, que não o ajudaram na luta contra os sauditas. Os ingleses ainda não entregaram o prometido Reino Árabe. 

Mas os ingleses deram dois prêmios de consolação a Hussein:

Faisal, um dos filhos de Hussein, foi premiado com o Reino do Iraque.

Abdullah, outro filho de Hussein, foi premiado com o Reino da Transjordânia (atual Jordânia)

Esses dois prêmios de consolação dados aos filhos de Hussein foram denominados de Solução Xarifiana.

"Como Secretário das Colônias, Winston Churchill, explicou à Câmara dos Comuns em junho de 1921: 'Estamos cada vez mais inclinados para o que eu chamaria de solução xarifiana, tanto na Mesopotâmia, para onde se encaminha agora o emir Faisal, como para a Transjordânia sob o atual comando do emir Abdullah.' Ao pôr no trono dos mandatos britânicos os filhos de Hussein, Churchill esperava de alguma forma redimir as promessas quebradas da Grã-Bretanha aos hachemitas, ao mesmo tempo que assegurava ao Reino Unido governantes leais e dependentes em suas possessões árabes." (página 262/263)

ANOTAÇÕES EXTRAÍDAS DA LEITURA DO LIVRO "OS ÁRABES, UMA HISTÓRIA" EUGENE ROGAN, EDITORA ZAHAR



terça-feira, 28 de setembro de 2021

Clientelismo Patronato no Império Romano





CLIENTELISMO NO IMPÉRIO ROMANO

> PATRONATO

Quem tem padrinho não morre pagão. Essa máxima se aplicava ao dia a dia do Império Romano. 

Em Roma, quem tinha poder tinha uma rede de clientes, na qual podia buscar ajuda. Essas redes clientelares significavam que alguém tinha boas conexões eclesiásticas ou governamentais. Em Roma, você não podia ser bem sucedido sem um padrinho, sem um patrono. 

"Sinésio, bispo de Ptolemais, na Cirenaica (atual leste da Líbia), entre 411 e 413, enfrentou um governador brutal, Andronikos, na sua chegada como bispo. Andronikos, como reclama Sinésio em suas cartas, era particularmente violento com os senadores, causando a morte de um deles por supostas infrações fiscais. Sinésio conseguiu que ele fosse demitido, o que mostra que somente um bispo determinado e com boas conexões em Constantinopla poderia confrontar o abuso de poder - ou então que um oficial local, fosse ele bom ou mau, poderia não sobreviver a um ataque frontal de um determinado oponente político com suas próprias redes clientelares, eclesiásticas ou governamentais." (página 62)

Na administração civil era necessário ter dinheiro para buscar nomeações e para manter uma rede de patronato. O suborno era algo comum.

"No exército acontecia a mesma coisa; embora ele fosse mais aberto ao mérito, todos os generais de sucesso tornaram-se ricos." (página 70)


ANOTAÇÕES EXTRAÍDAS DA LEITURA DO LIVRO "O LEGADO DE ROMA, ILUMINANDO A IDADE DAS TREVAS, 400-1000", CHRIS WICKHAM, EDITORA UNICAMP

sábado, 25 de setembro de 2021

Os Vizinhos do Mundo Romano



OS OUTROS:

O mundo romano tinha seus vizinhos. Eram então os "outros". Esses outros despertavam nos romanos sentimentos de incompreensão e de desprezo. Esses "outros" podiam receber o nome de 'barbari", os bárbaros. 

VIZINHO DO LESTE:

A leste havia a Pérsia, então governada pela dinastia Sassânida (220/640 d.C). 

"O estado persa era quase tão grande quanto o Império Romano, estendendo-se a leste para a Ásia Central e para o atual Afeganistão; (...) manteve-se unido por um complexo sistema fiscal, apesar de ter tido uma poderosa aristocracia militar também, ao contrário de Roma." (página 86)

"A Pérsia era uma ameaça contínua, porém estável: as guerras aconteciam apenas nas fronteiras, no máximo estendiam-se até a Síria, pelos 250 anos entre a desastrosa invasão de Juliano ao território que hoje é o Iraque (então o coração econômico e político da Pérsia), em 363, e a temporária conquista persa do Oriente romano, em 614-628, que culminou no cerco de Constantinopla, em 626." (página 86)

A maior parte dos persas adotava o zoroastrismo. Havia ainda minorias cristãs e judaicas. 

"O Zoroastrismo certamente contribuiu para a 'estranheza' persa aos olhos romano; por exemplo, seus sacerdotes, chamados 'magoi', em grego, ou 'magi', em latim, deram seu nome à mágica em ambas as línguas, mesmo que a religião zoroastriana favorecesse uma teologia abstrata e rituais públicos, como fazia o cristianismo." (página 87)

VIZINHOS DO SUL:

Na África os romanos tinham que lidar com os Berberes, que constituíam tribos nômades e seminômades do Saara e de suas margens. 

"...por muito tempo essas (tribos berberes) não foram levadas a sério como ameaças militares, porém tais grupos estavam ganhando em coerência social e militar, em grande parte como resultado da influência romana." (página 87)

VIZINHOS NA BRITÂNIA:

A Britânia corresponde hoje à Inglaterra, Escócia, Irlanda e Irlanda do Norte. Nos tempos romanos, os vizinhos da Britânia romana eram os Pictos a norte e os irlandeses a oeste. 

VIZINHOS DAS FRONTEIRAS DOS RIOS DANÚBIO E RENO:

Francos, Frísios, Saxões, Godos, Alamanos, Longobardos, Lombardos, Quados e muitos mais. 

"A longa fronteira do Reno e do Danúbio voltava-se para comunidades tribais, em sua maioria falantes de línguas germânicas, que os historiadores, desde Tácito, no século I, tinham visto como um bloco, os 'germani', apesar de não haver qualquer evidência de que essas pessoas reconhecessem algum vínculo comum. Os principais grupos ao longo da fronteira eram, por volta do século IV, os francos, no Baixo Reno, os alamanos, no centro e no Baixo Reno, e os godos, no Baixo Danúbio e no noroeste das estepes do que é hoje a Ucrânia. Mais para trás estavam os frísios, na moderna Holanda, os saxões, ao norte da moderna Alemanha, os vândalos e longobardos e lombardos , a leste. Esses eram os principais grupos, porém havia dúzias de outros. Os quados, que se localizavam no que são agora a Eslováquia e a Hungria, são dignos de menção, talvez apenas porque, depois de travarem uma pequena guerra contra Valentiniano I, em 374/375, reuniram-se com o imperador e argumentaram (corretamente, de fato) que seus próprios ataques eram uma justificada e, em grande parte, defensiva resposta à agressão romana: isso foi visto por Valentiniano como algo tão insolente que ele teve um ataque apoplético e morreu." (página 88/87)

ANOTAÇÕES EXTRAÍDAS DA LEITURA DO LIVRO "O LEGADO DE ROMA, ILUMINANDO A IDADE DAS TREVAS, 400-1000", CHRIS WICKHAM, EDITORA UNICAMP.