domingo, 9 de junho de 2024

Gengis Khan e a Formação do Mundo Moderno Império Mongol Tribos Nômades versus Mundo Tamerlão ou Timur ou Timurlenk Jack Weatherford John Darwin

 INÍCIO:

Gengis Khan nasceu em meio a um mundo perturbado pelo caos e pela guerra, que incluia assassinatos, sequestros, escravização e guerras sem fim. Ainda adolesceente, matou seu meio-irmão mais velho. Já adulto, foi feito prisioneiro pela tribo Tayichiud. Temujin, futuro Gengis Khan, nasceu no século XII, em 1162. às margens do rio Onon, na atual Mongólia. Sua mãe, Hoelu, tinha sido sequestrada pelo seu pai Yesugei. 

SOCIEDADE DE CLÃS:

O Clã de Temujin era o Borijin, que era o de seu pai. Os Borijin estavam ligados a um clã maior, os Tayichiud. Quando o pai de Temujin morreu, a sua família foi largada a vagar sozinha pela estepe, pois não havia nenhum homem disposto a assumir a sua mãe em casamento. Na tradição da estepe, o meio-irmão mais velho de Temujin, Begter, fruto do casamento de seu pai com uma outra mulher, poderia se casar com sua mãe, Hoelu. Mas Temujin e Begter não se davam bem. Temujin não aceitava receber ordens de seu meio-irmão. Ver sua mãe casando-se com seu meio-irmão pressagiava um futuro tenebroso para Temujin, razão pela qual ele o assassinou. Ao saber que Temujin, ajudado pelo seu irmão mais novo, tinha matado Begter, Hoelu disse-lhes: "Vocês não têm outra companhia além das próprias sombras." Num primeiro momento, a professia de sua mãe se concretizou. Em razão desse crime, Temujin foi feito prisioneiro pelo clã Tayichiud. Amarraram uma canga de boi em Temujin, de forma que ele não podia beber nem se alimentar sem ajuda. No fim, a sorte sorriu para Temujin, na forma de uma família que o ajudou a fugir do cativeiro.

TEMUJIN LIVRE E CASADO

Depois de fugir do seu cativeiro, Temujin casou-se com Borte. Na sequência, foi procurar emprego com um velho amigo de seu pai, Torghil, da Tribo Kereyid. Ali, Temujin se reencontrou com Jamuka, do clã Jadaran. Temujin e Jamuka não eram parentes consanguíneos ou afins. Mas eram irmãos cerimoniais, uma espécie de parentesco nascido por meio de uma cerimônia, no qual duas pessoas prestavam um juramento, havendo ainda a troca de roupas entre elas, numa forma de compartilhar o cheiro delas, pois acreditavam que o cheiro era parte da alma de uma pessoa. 

Eterno Céu Azul

CRENÇA MONGOL:

Os mongóis acreditavam que o cheiro de uma pessoa era parte de sua alma. Os mongóis eram animistas, adorando espíritos à sua volta. Os espíritos estavam nas montanhas, nos rios, etc. Quando Temujin buscou refúgio Montanha Burkhan Khaldun, ele passou a vê-la como um espírito que o tinha ajudado a escapar de seus inimigos. Essa montanha passaria a ser a fonte de sua força. Os mongóis ainda cultuavam o Eterno Céu Azul. Quando Gengis Khan conquistou a cidade de Bucara, na Ásia Central, levaram-no a visitar uma Mesquita, dizendo-lhe que ali era a morada de Deus. Gengis Khan não disse nada, pois para ele o Eterno Céu Azul, que se estendia de horizonte a horizonte, não poderia ser encarcerado numa casa de pedra.

TEMUJIN PASSA A SER GENGIS KHAN

Temujin passou a andar com seu amigo cerimonial Jamuka. Num primeiro momento, tratavam-se como iguais. Mas com o passar do tempo, Temujin começou a se sentir desprestigiado, sendo tratado como se fosse um subordinado de Jamuka. Esse estado de coisas ocasionou um rompimento entre ambos, de forma que Temujin largou Jamuka e buscou criar seu próprio grupo de seguidores. Essa separação fez com que Jamuka e Temujin se tornassem inimigos. Por duas décadas Jamuka e Temujin iriam lutar pela liderança das tribos da estepe. Para alcançar a liderança era necessário, por meio de uma assembleia, chamada de Kurultai, ser eleito pelas tribos e pelos clãs como Khan. O primeiro a consegui-lo foi Temujin, tornando-se, então, Gengis Khan. Depois de ser eleito, Gengis Khan empreendeu várias campanhas militares pelas estepes, de forma a angariar butim, saque, com estes, atrair seguidores. Todo mundo queria ser seguidor de um líder vitorioso, que distribuísse butim para quem o acompanhasse. O poder de Gengis Khan aumentou. Mas batalha final entre Gengis Khan e Jamuka só se daria no início do século XIII, no ano de 1204. Derrotado Jamuka, Gengis Khan tinha as estepes aos seus pés. Temujin controlava então um território aproximadamente do tamanho da Europa Ocidental moderna. Havia ali uma população de 1 milhão de habitantes, de diferentes tribos, e 15 a 20 milhões de animais, dois quais tiravam praticamente tudo do que precisavam: alimentação, vestuário, cobertura para suas moradias (daí o nome de Povo das Paredes de Feltro), etc. 

GENGIS KHAN VOLTA SEUS OLHOS PARA A RIQUEZA DO SUL DA ÁSIA:

Terminada a conquista das estepes da Mongólia, Gengis Khan volta seus olhos para o sul, uma região de muita riqueza, de onde vinham produtos manufaturados, como metais, têxteis, etc. 

GUERRA MUNDIAL MONGOL:

A Guerra Mundial Mongol do século XIII estava para começar. Dizia-se que os cascos dos cavalos mongóis vão a toda parte, escalando o céu e mergulhando mar adentro. E o alvo estava ao sul da Mongólia, uma região coalhada de estados e reinos independentes. A maioria deles tinha a mesma gênese: uma região agrícola e pastoril governada por uma tribo nômade que a havia conquistado. Essa tribo guerreira explorava a população local sedentária. Com o passar do tempo, essas duas realidades se misturavam, tornando-se uma coisa só: uma sociedade basicamente agrícola e sedentária. Na sequência, vinha uma nova tribo nômade guerreira que iria conquistar essa mesma área. E a história se repetia. Mas além dessas entidades políticas médias e pequenas, havia grandes Estados, como aquele governado pelos Jurched. Os Jurched, povo tribal originário das florestas da Manchuria,  dominavam a Manchuria, a Mongólia interior e o norte da China, com sua capital na cidade de Zhongdu, atual Pequim. Eram riquíssimos e eles seriam as primeiras vítimas da Guerra Mundial Mongol.

Depois de atravessar o deserto de Gobi, Gengis Khan e seu exército partiram para sua guerra contra os Jurched. Viajar grandes distâncias não era um problema para os mongóis. Cada homem carregava o necessário e nada mais. Mongóis, nesse primeiro momento, só tinham cavalaria. Não havia infantaria. O exército mongol, na época de Gengis Khan, não precisava despender energia com comboios de suprimentos. Seus homens eram acompanhados apenas por uma grande reserva de cavalos, que se alimentavam das pastagens por onde passavam. Esses animais, por sua vez, forneciam tudo do que os mongóis precisavam. Ainda pelo caminho, os mongóis se alimentavam da caça e do saque. 

CONTRASTE ENTRE UMA SOCIEDADE NÔMADE E UMA SOCIEDADE SEDENTÁRIA:

A Guerra Mundial Mongol colocou em combate duas espécies de sociedade: a sedentária e a nômade. Os mongóis, nômades, estranhavam a vida da sociedade sedentária. No caso do território Jurched, havia mais gente do que animais. Na Mongólia, ocorria o contrário, onde havia de 5 a 10 animais para cada ser humano. Para os mongóis, os campos cultivados com cereais eram apenas pastos e os camponeses que nele labutavam eram como animais que pastavam, comendo seus vegetais, enquanto que os mongóis eram comedores de carne e de laticínios. Durante a guerra, essas duas sociedades também se diferenciavam:

"Como nômades, os mongóis aprenderam cedo a guerrear em movimento. Para o soldado camponês, fugir significava perder; perseguir significava vencer. O soldado sedentário buscava expulsar o lugar quem o atacava. O nômade buscava matar o inimigo , e não importava em nada se o matasse enquanto investia em sua direção ou enquanto fugia dele. Para o mongol, ambas as direções eram adequadas para lutar; conquista em fuga era tão boa quanto uma parada. Assim que atraíam seus oponentes para fora das cidades muradas, aplicavam técnicas que haviam aprendido para manejar o movimento de grandes rebanhos de animais. Mais comumente, faziam com que seus inimigos se enfileirassem em uma longa linha que se tornava cada vez mais desprotegida e era facilmente atacada tão logo fosse atraída para uma armadilha; ou então, em fuga, dividiam-se em pequenos pelotões e dispersavam os perseguidores em pequenos grupos, que podiam ser mais facilmente derrotados." (página 173, Gengis Khan e a formação do Mundo Moderno, Jack Weatherford, Editora Bertrand Brasil)

Em 1214, depois de um cerco bem sucedido em Zhongdu (atual Pequim), o líder do povo Jurched se rendeu a Gengis Khan. Em troca da paz, os Jurched deram aos mongóis grandes quantidades de prata, ouro, seda, cavalos, escravos, etc. Satisfeito com o acordo, Gengis Khan voltou para sua terra natal na Mongólia. Gengis Khan tinha um butim imenso para distribuir entre seu povo. Havia de tudo: seda da China, tabeçaria, porcelana, móveis, jogos de tabuleiro, facas de bronze, armaduras de metal, frascos de perfume, remédios, joias, chá preto, escravos, etc.

A GUERRA ERA O MEIO DE PRODUÇÃO DOS POVOS NÔMADES

Não obstante o sucesso da primeira campanha da Guerra Mundial Mongol, os mongóis queriam mais. O butim de hoje criava no mongol o apetite por mais. Cada butim adquirido incitava o desejo por mais. E, mais butim, significava mais guerras. 

"A guerra para os povos nômades era um meio de produção. Para os guerreiros significava sucesso e riqueza." (página 189, Gengis Khan e Formação do Mundo Moderno, Jack Weatherford, Editora Bertrand Brasil)

SULTÃO VERSUS KHAN

Gengis Khan tinha um novo alvo em mente. Tratava-se do Império Khwarizm, que englobava áreas que iam do Afeganistão ao Mar Negro. Era tentador. Em 1219, Gengis Khan partiu para o oeste, para conquistar Khwarizm. Gengis Khan, durante a campanha, tomou várias cidades da Ásia Central (Bucara, Samarcanda, Merv, Herat, Peshawar, Tabriz, Tbilisi, Astracã, etc). O sultão teve que fugir para uma ilha no Mar Cáspio. Das montanhas do Himalaia às montanhas do Cáucaso, Gengis Khan e seus homens só obtiveram vitórias. Após 4 anos de campanhas pela Ásia Central, Gengis Khan, com mais de 60 anos, estava no auge de seu poder. 

DIVISÃO DO PODER ENTRE OS MONGÓIS:

Com mais de 60 anos de idade, Gengis Khan começou a pensar como seria o Império após a sua morte. 

"Na tradição da estepe, cada filho em uma família de pastores recebia alguns animais de cada espécie que a família possuísse; assim como o direito de uso de alguma porção das terras de pastagem. Similarmente, Gengis Khan planejou dar a cada filho um império em miniatura, que refletisse, na medida do possível, as diversas propriedades de todo o império. Cada filho seria khan de um grande número de pessoas e rebanhos na estepe, assim como o proprietário de uma grande extensão de terras abarcando cidades, oficinas e plantações nas zonas sedentárias. Acima dos outros, no entanto, um filho seria o Grão-Khan, que administraria o governo central, ..." (página 205, Gengis Khan e a Formação do Mundo Moderno, Jack Weatherford, editora Bertrand Brasil)

Gengis Khan morreu em 1227. Seu filho Ogodei recebeu o título de Grão-Khan. Ogodei não era como seu pai. Ele achava que um reino conquistado na sela de um cavalo não poderia ser governando também sobre a sela de um cavalo, de forma que ele precisava de uma capital, de um palácio. Foi um erro ele pensar assim, porque foi justamente a mobilidade resultante do uso do cavalo que possibilitou que Gengis Khan conquistasse, em tão pouco tempo, um território imenso. 

Ogodei construiu a sua capital em Karakorum. Paulatinamento, os mongóis seriam transformados de uma nação de guerreiros montados em uma corte sedentária. Em 1235, Ogodei já havia esbanjado tanto dinheiro na sua capital, que praticamente toda a riqueza angariada por Gengis Khan tinha sido dilapidada. De onde Ogodei poderia tirar dinheiro? Seu povo não manufaturava, não cultivava a terra. Só havia uma alternativa: novas guerras. Havia 4 caminhos: guerra contra a dinastia Sung, no sul da China; guerra contra a Índia; invasão do Oriente Média (Bagdá, Damasco); invasão da Europa.

Não havia um consenso sobre qual alvo era o melhor. Num primeiro momento, pensou-se que a guerra deveria se dar em todas a direções. 

No que diz respeito à campanha europeia, ela durou 5 anos, e foi comandada por dois netos de Gengis Khan, Batu e Mongke. A invasão teve início na área do Rio Volga, em 1236 (século XIII). Do Volga partiram para a conquista pelo que mais tarde se tornaria a Rússia e a Ucrânia. Antes de invadir, os mongóis faziam uma proposta para suas vítimas. Ela consistia no pagamento de 10% de toda a riqueza produzida, em troca da qual os mongóis deixariam de destruir o principado/reino, deixando ainda de interferir na religião e no governo locais. A cidade de Kiev, na atual Ucrânia, não aceitou a proposta dos Mongóis, razão pela qual foi destruída em 1240. Depois da Rússia e da Ucrânia, os mongóis entraram na Hungria e na Polônia. Um exército europeu foi batido em Liegnitz, em 1241. O exército húngaro foi derrotado. Os mongóis perseguiram o rei húngaro até o Mar Adriático. Nada os detinha. Os europeus foram salvos pela por um detalhe. O Khan Ogodei tinha morrido. Um novo Khan teria que ser escolhido e, para isso, todos os mongóis deveriam ir para a Mongólia. E asssim, como um milagre, os mongóis deixaram a Europa em paz. 

NOVO KHAN - GUYUK:

O novo Khan escolhido para comandar os mongóis foi Guyuk. Depois de 18 meses no poder, ele morreu. Provavelmente foi assassinado. Em 1251, Mongke assumiu no seu lugar. 

"Nos anos seguintes, Mongke, Arik Boke e Kublai carregariam o título de Grão-Khan por diferentes períodos, e seu outro filho Halegu, se tornaria Il Khan da Pérsia e fundador de sua própria dinastia naquela região. Seus filhos ampliariam o império ao máximo ao conquistarem toda a Pérsia, Bagdá, Síria e Turquia. Eles viriam a conquistar a Dinastia Sung e chegariam ao Vietnã, ao Laos e à Birmânia. Destruiram a temida ordem dos Assassinos e executariam o califa muçulmano." (página 270, Gengis Khan e a Formação do Mundo Moderno, Jack Weatherford, Editora Bertrand Brasil)

IMPÉRIO MONGOL RETOMA A OFENSIVA:

Agora, os alvos eram a Dinastia Sung da China e a civilização muçulmana dos árabes e persas. Mongke designou seu irmão Halegu para atacar Bagdá, Cairo e Damasco. Kublai ficaria com a China. Em 1253, os mongóis partiram para mais uma aventura. 

No caminho para Bagdá, Halegu teria que atravessar uma área dominada por fortalezas ismaelitas nizari, uma ordem muçulmana herética de xiitas conhecidas como ASSASSINOS. Essas fortalezas, construídas nas montanhas, estendiam-se do Afeganistão à Síria. Sem um exército regular, essa ordem muçulmana extraía seu poder do terror e de assassinatos. Eles buscavam matar qualquer um que porventura se pusesse contra eles. Eram recrutados homens jovens, que eram doutrinados com a ideia de que, caso morressem pela causa, ganhariam a entrada para o paraíso. Esses jovens também eram atraídos por prazeres terrenos, como o Haxixe. 

"Supostamente devido à importância dos narcóticos para os ismaelitas, eles eram chamados de hashshashin, isto é, usuários de Haxixe. Com o passar do tempo, esse nome evoluiu para a palavra assassino." (página 286, Gengis Khan e a formação do Mundo Moderno, Jack Weatherford, Editora Bertrand Brasil)

Em 1256, os assassinos se renderam aos mongóis. O caminho para Bagdá estava livre para Halegu. Bagdá era a maior e mais rica cidade do mundo muçulmano. Em fevereiro de 1258, os mongóis conquistaram Bagdá. Damasco rendeu-se e os mongóis chegaram às praias do Mediterrâneo. Mas o mongóis não eram invencíveis. Ao tentarem conquistar o Egito, foram derrotados pelos mamelucos em 1260. 

Kublai, por sua vez, conseguiu conquistar a China. Em 1260, foi proclamado Imperador Chinês. Kublai também conquistou o título Grão-Khan dos mongóis. 

O Império Mongol dividia-se agora em quatros zonas :

1) Kublai (Dinastia Yuan) governava a China, o Tibet, a Manchuria, a Coreia e a Mongólia Oriental.

2) Um outro ramo do poder mongol, denominada Horda Dourada, dominava os países eslavos da Europa oriental, e se recusava a reconhecer Kublai como Grão-Khan. Essa Horda Dourada dominava cidades como Kiev, Moscóvia, Kazan, Astracã, etc.

3) As terras governadas por Halegu, que se estendiam do Afeganistão até a Turquia, ganharam o nome de ilkhanato, isto é, império vassalo

4) Os mongóis mais tradicionais ocuparam as estepes centrais, que ficaram conhecidas como Mogolistão, e abrangiam uma área que hoje engloba o Cazaquistão e a Sibéria no norte, e através do Turquistão, na Ásia Central, até o Afeganistão, no sul.

A divisão acima exposta foi o início do fim do domínio mongol. Na europa oriental, o principado de Moscóvia se tornou o Império Russo, tomando todos os territórios antes dominados pelos mongóis. Nos países muçulmanos, turcos, persas e árabes retomaram o poder, em prejuízo dos mongóis. Na China, os chineses retomaram o seu país das mãos dos mongóis.

"O império de Gengis Khan foi o último grande império tribal da história. O herdeiro de 10 mil anos de guerras entre as tribos nômades e o mundo civilizado, a antiga luta do caçador e pastor contra o fazendeiro. Uma história tão antiga quanto aquelas das tribos beduínas que seguiram Maomé para destruir a idolatria pagã da cidade, das campanhas romanas contra s hunos, dos gregos contra os citas nômades, dos moradores das cidades egípcias e persas que oprimiam as tribos nômades dos pastores hebreus e, em última análise, de Caim, o lavrador, que matou seu irmão Abel, o pastor." (página 403, Gengis Khan e a Formação do Mundo Moderno, Jack Weatherford, Editora Bertrand Brasil)

Divisão do Império Mongol 1300

TAMERLÃO OU TIMUR, O COXO, OU TIMURLENK. VITÓRIA DAS SOCIEDADES SEDENTÁRIAS SOBRE AS TRIBOS NÔMANES. A ÚLTIMA TENTATIVA DE REVIVER O IMPÉRIO MONGOL

Tamerlão nasceu na década de 30 do século XIV, num clã menor no interior de uma confederação tribal turco-mongol, em uma das quatro grandes regiões em que o Império Mongol de Gengis Khan e seus descendentes se tinha dividido. Tamerlão acabou se destacando como líder, reunindo em torno de si as tribos e clãs locais. Entre 1380 e 1390 (século XIV), lançou-se na conquista do Irã, da Mesopotâmia (atual Iraque), Armênia e Geórgia. Dirigiu ainda ataques ao sul da Rússia e ao norte da Índia, destruindo Déli. Depois, regressou ao Oriente Médio, atacando as cidades sírias de Alepo e Damasco. Em 1402, derrotou o sultão otomano na Batalha de Ancara. As suas conquistas tentaram reproduzir o grande Império Mongol. Assim como o Império Mongol, o Império de Tamerlão sustentava-se com a exploração da rota comercial eurasiática (Eurásia). A capital do seu Império timúrida ficava na cidade de Samarcanda, na Ásia Central. 

O Império de Tamerlão acabou desaparecendo após a sua morte. A sua morte assinalou o fim de uma longa fase da história mundial:

1) O Império de Tamerlão foi a última tentativa de unir a Eurásia num bloco uniforme sob o governo de uma só pessoa. A partilha da Eurásia entre o Extremo Ocidente (Europa), a Eurásia Central Muçulmana (Iraque, Síria, etc) e a Ásia Oriental (China) estava consolidada. 

2) O derradeiro insucesso de Tamerlão assinalou a vitória dos Estados fundados em sociedades sedentárias sobre os Estados fundados em sociedades nômades. O campo semeado venceu o domínio da estepe.

3) A decadência do estilo nômade de governo originou a decadência do centro da Eurásia. Em seu lugar, floresceram os extremos da Eurásia: extremo ocidente na Europa e extremo oriente na Ásia.

4) A morte de Tamerlão também assinalou o começo do fim da Eurásia como corredor do comércio mundial - rota oriente - ocidente. A rota da seda perderia relevância. A descoberta das rotas marítimas (século XIV) por  Portugal abriu um espaço comum pelo qual o comércio seria realizado, ligando todos os campos do mundo. 

Anotações extraídas dos Livros

1) Gengis Khan e a formação do mundo moderno, Jack Weatherford, Editora Bertrand Brasil

2) Ascensão e Queda dos Impérios Globais, 1400-2000, John Darwin, editora Edições 70




terça-feira, 4 de junho de 2024

Regicídio Parricídio FilIcídio Mariticídio e Duplo Parricídio Hediondo na Rússia do século XVIII

DURANTE O SÉCULO XVIII, NA RÚSSIA CZARISTA, HOUVE UMA SÉRIE DE HOMICÍDIOS, DE REIS, DE FILHO PELO PAI, DE PAI PELO FILHO, DE MARIDO PELA ESPOSA E UM CASO TENTATIVA DE DUPLO PARRICÍDIO HEDIONDO.


1) TENTATIVA DE DUPLO PARRICÍDIO HEDIONDO E FILICÍDIO:


Pedro I, o Grande

Alexei

Alexei era filho de Pedro I, Imperador da Rússia. Pedro I foi o criador da moderna Rússia. Venceu a Suécia na Grande Guerra do Norte, participando inclusive da Batalha de Poltava, em 1709. Criou a cidade de São Petersburgo. Criou a frota naval russa. Pedro I abriu a Rússia para o Ocidente. Trouxe para a Rússia a tecnologia e muitos costumes ocidentais. Procurou casar princesas russas com a nobreza alemã. Não era um homem religioso. Ele tinha um único herdeiro, seu filho Alexei. Alexei era o contrário de Pedro. Alexei era um russo tradicional. Não aprovava, por exemplo, o casamento de russos com estrangeiras. Era religioso. Não tinha interesse por assuntos militares. Não tinha interesse pela frota naval de seu pai. Sua mãe, Eudóxia, tinha sido mandada para um Monastério, para que Pedro, enjoado dela, pudesse se casar outra vez. Na visão de Pedro I, Alexei era um herdeiro insatisfatório. Pedro I temia que seu filho jogasse no lixo todo o seu legado. Mas era seu filho e ele tentou corrigi-lo, dizendo-lhe que, caso ele não se emendasse, iria eliminá-lo da sua sucessão, como se imputa um membro inútil. 

"Pai (Pedro) e filho (Alexei) se estranhavam. Durante uma festa, Pedro se abriu parao embaixador da Dinamarca: quando um monarca arrisca a vida para criar um país respeitável, será que deveria deixar o trono para um tolo que começaria a destruição de todas as suas realizações? Se a gangrena começa no dedo, disse Pedro, mostrando o polegar ao embaixador, não serei obrigado a cortá-lo fora?" ( Os Románov, Simon Sebag Montefiore, 1613-1918, editora Companhia das Letras, página 173)

Diante da pressão que sofria, em 1716, Alexei acabou fugindo. Buscou refúgio na corte austríaca. Alexei nutria a esperança de derrubar seu pai do trono russo. Ele pretendia restabelecer a capital em Moscou, abandonaria a frota naval do pai e não faria mais guerras. Para Pedro I, diante de tal desrespeito, era uma questão de honra trazer seu filho de volta e puni-lo. Pedro I conseguiu trazer seu filho de volta, em janeiro de 1718.

"O pai furioso e o filho ansioso convergiram para Moscou para um embate sombrio." ( Os Románov, Simon Sebag Montefiore, 1613-1918, editora Companhia das Letras, página 178)

Alexei acabou sendo preso. Foi torturado de forma atroz. Pedro descobriu o intento golpista de seu filho. Alexei, por ordem de seu pai, acabou condenado à morte por parricídio duplo hediondo, contra Pedro I, que era o pai de seu país, a Rússia, e seu pai por natureza.

Em razão das torturas, Alexei acabou morrendo em junho de 1718. 


2) REGÍCIDIO E MARITICÍDIO

Pedro e Catarina

Catarina II, a Grande, com quase 60 anos de idade

Em 1741, a Rússia tinha uma nova governante, a Imperatriz Isabel, que era filha da Pedro, o Grande. Ela nunca se casou. Não tinha herdeiros, razão pela qual foi atrás de um herdeiro na Alemanha, no ducado de Holstein. Tratava-se de Karl Peter Ulrich, seu sobrinho, filha de sua irmã, duque de Holstein, neto de Pedro, o Grande. Ao chegar à Rússia, Karl Peter começou seu aprendizado da língua russa e da religião ortodoxa, adotando o nome de Pedro Fiódorovitch. Na sequência, Isabel foi atrás de uma noiva para Pedro. Essa noiva foi buscada na Alemanha. A escolhida foi Sophie, princesa de um pequeno estado alemão, de Anhalt-Zerbst. Chegando na Rússia em 1744, Sophie foi rebatizada como Catarina. A relação entre Pedro e Catarina sempre foi conturbada. A Imperatriz Isabel esperava que aquele casal que não se amava fornecesse um herdeiro para o Império russo. E ele veio em em 1754, quando Catarina deu à luz um filho, que ela chamou de Paulo. Enquanto dava à luz, Pedro se embebedava com seus cortesãos. Paulo era filho de Pedro ou de algum dos amantes de Catarina? Catarina teria escrito que Paulo não era filho de Pedro. Seria então filho de seu amante, Saltikov? 

"Na verdade, Paulo não tinha nada do le beau Saltikov, mas também não se parecia com Pedro nem se comportava como ele." ( Os Románov, Simon Sebag Montefiore, 1613-1918, editora Companhia das Letras, página 254)

Com a morte de Isabel, em 1761, Pedro assume o poder na Rússia como Pedro III. Seu governo foi errático desde o início, angariando contra si antipatia e desprezo. As pessoas que odiavam Pedro uniram-se em torno da figura de Catarina, que nela viam uma alternativa de poder. Entre essas pessoas, estava seu amante, Grigóri Orlov. Grigóri Orlov e seus 4 irmãos eram populares entre os militares russos da Guarda. O mais popular era Alexei Orlov, que tinha o apelido de Cicatriz, notório pela sua força bruta e pela sua falta de coração, justamente o tipo de assassino que seria necessário para a derrubada de Pedro.

A queda de Pedro III ocorreu em junho de 1762. O poder ficou com Catarina, que governaria a Rússia enquanto seu filho Paulo não atingisse a maioridade. Essa era a ideia original. No fim, Catarina ficou no poder até a sua morte, quando então Paulo assumiu o seu lugar. Como foi o fim de Pedro III? Catarina lançou um comunicado dizendo que Pedro tinha morrido de cólica hemorroidal. Esse diagnóstico absurdo acabou se tornando, durante o século XVIII, um eufemismo para assassinato político.

"Quando Catarina convidou o philosophe Jean d' Alembert para uma visita, ele respondeu brincando que não se atrevia a ir, pois sofria de hemorroidas, uma condição muito perigosa na Rússia." ( Os Románov, Simon Sebag Montefiore, 1613-1918, editora Companhia das Letras, página 272)

Na realidade, Pedro III foi morto por estrangulamento, pelo irmão do amante de Catarina, Alexei Orlov, o Cicatriz. 

Ao saber da morte de Pedro, Catarina teria achado que ficaria marcada para sempre por um mariticídio e um regicídio. 

"Minha glória foi arruinada, a posteridade nunca me perdoará. Mas a posteridade a perdoou." (Os Románov, Simon Sebag Montefiore, 1613-1918, editora Companhia das Letras, página 271)

De fato, ninguém mais falou no mariticídio e no regicídio. Catarina II passou para a história como Catarina, a Grande. No seu governo, a Rússia teve muitas vitórias militares e muitas conquistas territoriais. A Rússia, no governo de Catarina II, conquistou a península da Criméia e várias cidades que hoje fazem parte (ou faziam) da Ucrânia, como Odessa, Mariúpol, Dnipropetrovski, etc. Sob Catarina II,, a Ucrânia era chamada de a Nova Rússia.


3) REGÍCIDIO E PARRÍCIDIO


Alexandre I

Paulo I "Deixe que me odeiem, desde que me temam"

Com a morte de Catarina II, a Grande, Paulo, seu filho, assumiu o trono russo. Governou de 1796 até ser assassinado, em 1801. Paulo foi um legítimo autocrata. Ele batia no peito e dizia que a lei estava aqui. Era uma emulação da frase do rei francês Luís XIV, que dizia que "O Estado sou eu." Durante seu governo, ele criou muitos desafetos, inclusive entre os nobres russos. Paulo revogou a lei que proibia punição física aos nobres. Ele batia publicamente nas pessoas. Ele citava a máxima de Calígula: "Deixe que me odeiem, desde que me temam. Mas, além de ser temido, Paulo também era visto como objeto de chacota. E nada prejudica mais o poder de um soberano do que quando ele é alvo de risos. As pessoas riam dele, por exemplo, pela mania que ele tinha de vestir o exército russo como se fosse um exército prussiano. A gota d'água que transbordou o copo de Paulo foi a sua aliança com Napoleão. Durante as guerras napoleônicas, num primeiro momento, Paulo fez a Rússia se aliar com a Inglaterra e com a Áustria na guerra contra Napoleão. A Rússia obteve vitórias contra a França no norte da Itália. Mas essa aliança com a Inglaterra e com a Áustria não foi exitosa, de forma que Paulo alterou sua política, passando a considerar a França como aliada e a Inglaterra como inimiga. Paulo chegou a cogitar uma coalizão com a França para invadir a Índia britânica.

"Em questão de meses, Napoleão e Paulo estavam planejando um esquema fantástico para mandar o general francês Masséna, com 35 mil homens, para se juntar em Astracã (Astrakhan) com um exército russo de 35 mil infantes e 50 mil cossacos. Juntos, eles atravessariam o Mar Cáspio, para capturar Kandahar e em seguida invadir a Índia Britânica." (Os Románov, Simon Sebag Montefiore, 1613-1918, editora Companhia das Letras, página 346)

Enquanto Paulo planejava invadir a Índia Britânica, seus súditos mais próximos planejavam a sua queda, a favor de seu filho, Alexandre. Apesar de todo cuidado tomado por Paulo, ele acabou sendo apeado do poder. Foi assassinado de forma brutal. Seu filho Alexandre participou da conspiração. Mas ele foi enganado, pois disseram a ele que seu pai não seria morto. Mas isso era pura ingenuidade. Um imperador não poderia governar em paz tendo um imperador deposto vivo. Não se poderia, enfim, fazer um omelete sem quebrar os ovos, de forma que Paulo teria que ser morto. 

Ao saber da morte de seu pai, Alexandre entrou em desespero e disse:

"O povo vai dizer que sou o assassino do meu pai, soluçou Alexandre. Prometeram-me que a vida dele seria poupada. Sou a mais infeliz das criaturas." (Os Románov, Simon Sebag Montefiore, 1613-1918, editora Companhia das Letras, página 357)

Infeliz ou não, Alexandre assumiu o trono russo, sob o manto de um parricídio e de um regicídio. 

"O assassinato do pai paraiva sobre ele (Alexandre) como um abutre, e ele costumava ver na imaginação o corpo de Paulo mutilado e ensanguentado nos degraus do trono. Ficava horas sozinho, sentado em silêncio." ( Os Románov, Simon Sebag Montefiore, 1613-1918, editora Companhia das Letras, página 361)

Apesar disso tudo, Alexandre I, como viria a ser conhecido, teve um bom governo. Ele ajudou a derrotar Napoleão Bonaparte. Era ele que estava no governo quando Napoleão invadiu a Rússia em 1812. Alexandre I repeliu a invasão russa e, ao lado de austríacos, prussianos, alemães e ingleses, derrotou Napoleão. O exército russo ocupou Paris. Alexandre ainda seria importante na configuração europeia pós-napoleônica. Alexandre, ao lado da Áustria e da Prússia, criou a Santa Aliança, um acordo que visava impedir que uma nova Revolução Francesa voltasse a acontecer na Europa. Ele morreu em 1825.

ANOTAÇÕES EXTRAÍDAS DA LEITURA DO LIVRO "OS ROMÁNOV 1613-1918", SIMON SEBAG MONTEFIORE, EDITORA COMPANHIA DAS LETRAS.



Rei Medieval Dicionário Analítico do Ocidente Medieval Jacques Le Goff e Jean Claude Schmitt Volume 2



PERÍODO: 

Séculos VI e XVI

O Rei e seus três momentos de desenvolvimento:

Na época carolíngia, nos séculos IX e X, temos o rei ungido. Entre os séculos XII e XIII, temos um rei administrativo, imerso em três realidades, a Coroa, o território e a lei. Por fim, no final do período, o rei procura absorver o próprio Estado. 

ESTRUTURA FUNDAMENTAL DE PODER:

Monarquia inserida numa Cristandade latina medieval, fazendo um contraponto ao Império Romano do Oriente (Império Bizantino), cujo soberano recebia o nome de Basileus, que significa rei e não imperador.

Características do Rei Medieval:

1) Unicidade do poder real: 

"Há uma unicidade do poder real no Ocidente Medieval. Os reinos da Idade Média têm à sua frente um rei único e, assim, o único superior. A realeza medieval não se divide, não obstante as esperiências anglo-saxãs de joint-kingship e a partilha do reino merovíngio entre os filhos do rei, cada um criando reinos no interior da ficção de uma monarquia unitária. (página 442, Dicionário Analítico do Ocidente Medieval Jacques Le Goff e Jean Claude Schmitt, volume 2)

FUNDAMENTO IDEOLÓGICO DO REI CRISTÃO:

O rei é a imagem de Deus: rex imago Dei. Para legitimar seu poder, buscará referências nos reis da Bíblia. Carlos Magno, por exemplo, seria uma espécie de Davi.

OBRIGAÇÕES DO REI:

O rei tinha obrigações e limitações. Seu dever funcional o obrigava a ser um defensor da fé e de seu povo. Devia ainda respeito à Igreja, de quem dependia. 

HERANÇA GERMÂNICA DO SANGUE:

"A palavra gótica kuni, que significa "raça, família", é aparentada à latina gens e dará às palavras king e Konig. Este e o homem bem nascido, o homem nobre, e o rei medieval recolhe também essa herança germânica do sangue. Ele é definido não somento por uma boa família, mas também em relação à aristocracia e à nobreza. O rei é o rei, de todo o povo, porém permanece sempre especialmente ligado à nobreza e deve respeitar os privilégios dos nobres. A própria realeza afirma-se mais, a partir do século XIV, como uma realeza de sangue, no qual os descendentes diretos dos reis constituem a categoria superior dos príncipes de sangue. Há na aristocracia medieval uma tendência a rebaixar o rei, a reduzi-lo a um PRIMUS INTERPARES (o primeiro entre os iguais). Mas somente o rei tem caráter sagrado." (página 444, Dicionário Analítico do Ocidente Medieval Jacques Le Goff e Jean Claude Schmitt, volume 2)

O REI, O IMPERADOR E O PAPA:

No início, teoricamente o rei estava abaixo do Imperador e do Papa. Com o passar do tempo, a situação foi modificada, em favor do rei. A briga entre os Imperadores do Sacro Império Romano Germânico e os Papas acabou por enfraquecer o poder de ambos. Nesse ínterim, os poderes dos reis da França e da Inglaterra cresciam. 

"Para os homens da Idade Média, o modelo encarnado da soberania não é o Imperador  (do Sacro Império Romano Germânico), ou o Papa, mas, abstratamente, o rei, e, concretamente, os reis." (página 445, Dicionário Analítico do Ocidente Medieval Jacques Le Goff e Jean Claude Schmitt Volume 2)

Esse poder dos reis consolida-se a partir do século XIII, na França. Assim, o rei da França não conhecia nenhuma poder, no seu reino, que lhe fosse superior. Adotou-se a ideia segundo a qual REX EST IMPERATOR IN REGNO (o rei é o imperador em seu reino).

A LEGITIMIDADE DO REI:

As fontes das quais o rei tirava a sua legitimidade eram variadas. Podia ser uma eleição, como acontecia, por exemplo, com os reis da Polônia e da Alemanha. Quem estava no trono poderia indicar seu sucessor, como Pedro I, o Grande, Imperador da Rússia (1682-1725), fez com a sua esposa, uma mulher de origem humilde, uma lavadeira lituana, com uma vida dissoluta, tendo sido amante de pessoas próximas a Pedro, que foi alçada à posição de Imperatriz com o nome de Catarina I. A legitimidade de um rei ainda podia ser extraída por uma escolha divina, provada por meio de uma vitória militar. 

A legitimidade de um rei dependia de fatores simbólicos (ideologia, cerimônias, símbolos) e de fatores de fato, isto é, poder de fato daquele que desejava ser rei. 

Quando os carolíngios substituíram os reis merovíngios no século VIII, assim agiram usando a justificativa de que estes eram reis indolentes, que tinham perdido a capacidade para governar. Mas essa justificativa não seria suficiente para legitimar o poder dos Carolíngios. Era necessário uma simbologia, e ela veio com as cerimônias da Igreja Católica. O Papado precisava da proteção dos reis carolíngios e estes precisavam da legitimação que uma unção papal proporcionava. Dessa forma, os reis carolíngios tinham obtido um caráter sagrado. Quando os reis capetíngios sucederam os carolíngios no que hoje é a França, o fizeram com base numa nova realidade de poder. Os carolíngios tinham perdido a força. Quem tinha a força de fato, agora, era a dinastia capetíngia. Mas era necessário passar desse poder de fato para um poder de direito. Isso foi feito quando os capetíngios reivindicaram para si a descendência biológica dos carolíngios, particularmente da linhagem de Carlos Magno. Foi a REDDITUS AD STIRPEM KAROLI (retorno à linhagem de Carlos Magno). 

O REI MORREU, VIVA O REI. O REI NÃO MORRE JAMAIS:

O rei está inserido numa linha histórica. Geralmente há uma dinastia, com o rei reverenciando seus antecessores e buscando cuidar de quem irá sucedê-lo, providenciando um casamento que possa lhe proporcionar um herdeiro. Nessa linha histórica, o rei se vê premido entre o momento de sua ascensão ao trono e o momento de sua morte (ou renúncia, destituição por um golpe). Numa sociedade onde o rei é o fiador dos laços entre seu povo e Deus, é de suma importância que não haja um vácuo de poder, que poderia acontecer entre a morte de um rei e a ascensão de um novo soberano. Justamente para evitar esse vácuo, adotou-se o costume de datar os atos do novo rei não da data da sua sagração, mas da morte do seu predecessor. 

"Chega-se, assim, ao final da Idade Média à fôrmula "O REI MORREU, VIVA O REI" O que em latim se diz de maneira mais jurídica e mais simbólica: "REX NUNQUAM MORITUR (o rei não morre jamais." (página 451 Dicionário Analítico do Ocidente Medieval Jacques Le Goff e Jean Claude Schmitt, volume 2)

OS LUGARES DO REI:

Geralmente, o lugar do rei era o local de sua coroação. Era o local de inauguração do poder real. Os lugares de residência real também traziam consigo um grande simbolismo. Nesses castelos reais, predominavam duas funções: a de residência e a de defesa. 

TIPOS DE REIS:

Havia o rei inútil, uma espécie de rei usurpador, que procurava legitimar-se. Esse usurpador tinha destronado um chefe político legítima. Esse rei inútil (shadow-king) poderia se livrar dessa nomenclatura difamatória se conseguisse legitimar-se. Isso aconteceu com dinastia carolíngia, que tinha usurpado o poder dos merovíngios. 

Havia o rei que não tinha interesse pela cultura e pelo saber. Ele era denominado de "REX ILLITTERATUS QUASI ASINUS CORONATUS" (um rei iletrado é apenas um asno coroado).

O ideal era um rei letrado, culto e mesmo erudito, que estivesse à altura de um Estado que se desenvolvia (Estado administrativo, burocrático). 

Havia o rex facetus, o rei espirituoso. Essa figura desenvolveu-se no contexto das cortes, onde era necessário que o rei fosse sociável em relação às pessoas que o rodeiam. 

Havia os reis frágeis: reis crianças, reis distantes, reis leprosos, reis loucos. 

ANOTAÇÕES EXTRAÍDAS DA LEITURA DO LIVRO DICIONÁRIO ANALÍTICO DO OCIDENTE MEDIEVAL, JACQUES LE GOFF E JEAN CLAUDE SCHMITT, VOLUME 2, EDITORA UNESP.



sexta-feira, 31 de maio de 2024

Dicionário da Idade Média Europa Ocidental Jacque Le Goff Liberdade Feudalismo Servidão Marginais Nobreza Feudalismo Cavaleiro



1) MARGINAIS NA IDADE MÉDIA:

Sujeito Marginalizado é alguém situado à margem da vida social. Cada época contitui a sua margem, fora da qual indivíduos e grupos sociais serão vistos como inadequados e perniciosos à ordem estabelecida.

Quem eram os marginais, os excluídos elegidos pelas instituições da ordem (ex.: Igreja Católica) durante a Idade Média?

a) Banidos: O banimento era a morte em vida. O banido tinha todos seus laços de parentesco e amizade rompidos. Ninguém tinha o direito de alimentá-lo e alojá-lo. Nenhuma pessoa da comunidade poderia prestar solidariedade a ele. O banido estava condenado a vagar sozinho pelas florestas. Seus bens eram confiscados em proveito do lesado pelo seu crime ou em proveito do Tesouro (forma de entidade estatal existente). Como não havia vida fora da comunidade, o banido era dado como se falecido fosse. Sua mulher era agora viúva e, seus filhos, órfãos de pai. Vagando pela floresta, a lei não iria protegê-lo, de forma que qualquer um poderia matá-lo impunemente. 

Mas a coisa ia além. Não era só o mundo dos vivos que estava fechado para ele. O mundo dos mortos também. Era negado a ele o direito a uma sepultura. Ele não dinheiro direito a um enterro cristão. Seus despojos ficariam expostos, à disposição dos animais. No imaginário/imagético medieval, o banido sofria um processo de perda de sua humanidade, sendo comparado a um lobo. O lobo representava a floresta (natureza), o mundo natural, em oposição à cidade, à comunidade e à cultura. A natureza estava fora do controle do homem, fora de seu alcance. Já a segunda realidade, constituída pela cidade, pela comunidade, fora construída pelo homem. 

"Em outras palavras, a época opunha ao mundo humano, quer dizer comunitário, o universo da solidão." (Dicionário Analítico do Ocidente Medieval Jacque Le  Goff, Jean Claude Schmitt, volume 2, Editora Unesp, página 143).

"A Idade Média possuía sua própria visão do que viria a ser a oposição entre cidade e campo, reflexo da oposição entre cultura e natureza: colocava de um lado o que havia sido erguido ou construído pela mão do homem, e de outro os elementos selvagens e fora do alcance. Em outras palavras, a época opunha ao mundo humano, quer dizer comunitário, o universo da solidão." (Dicionário Analítico do Ocidente Medieval, Jacques Le Goff e Jean Claude Schmitt, volume 2, Editora Unesp, página 143)

O banido, assim como o lobo, tinha deixado de pertencer à comunidade. E assim como o lobo, o banido estava condenado a vagar pelas florestas solitariamente.

"A impunidade do assassinato de um banido fazia dele, aos olhos da lei, alguém igual ao lobo." (Dicionário Analítico do Ocidente Medieval Jacque Le Goff, Jean Claude Schmitt, volume 2, Editora Unesp, página 144)

A figura do banido ajudou a estigmatizar certos grupos sociais. Sua condição de condenado a vagar por aí sem destino, a ser um errante, fez com que certos grupos sociais fossem comparados com eles. Podemos citar como exemplo os ciganos. A população de uma comunidade, vendo a chegada de um grupo de ciganos, acabaria por atribuir a eles características negativas. Essas caracteristicas eram vistas de forma negativa porque elas podiam ser encontradas na figura do banido: vagar sem destino certo, errantes percorrendo a terra.

b) O herético: 

Segundo Santo Agostinho, os heréticos pertenciam à civitas diaboli. O herético representava um perigo para a coesão comunidade cristã, de forma que a Igreja Católica buscava formas para segregá-lo do convívio social. Os heréticos eram opositores internos da ordem estabelecida pela Igreja Católica.

"Eles não contestavam o dogma, mas interpretavam-no à sua maneira." (Dicionário Analítico do Ocidente Medieval Jacque Le Goff, Jean Claude Schmitt, volume 2, Editora Unesp, página 146)

Os heréticos então deviam portar um sinal na roupa que os distinguisse dos demais membros da comunidade, de modo a erguer barreiras protetoras tangíveis, deixando os fiéis separados deles. Era imperioso impedir o contato entre o fiel devoto da Igreja Católica com um herético. O herético podia fazer com que o fiel se desviasse para o lado da heresia.

c) O judeu:

No século XIII (ano 1215), no Concílio de Latrão, ficou decidido que os judeus deveriam usar roupas que os distinguissem dos cristãos. A Igreja Católica temia que, se não houvesse essa distinção visível, judeus e cristãos poderiam manter um relacionamento, em alguns casos até uma relação amorosa, sexual. O uso de roupas diferentes ou um sinal distintivo qualquer "...parece ter-se tratado não tanto de marcá-los nem de colocar sobre eles um selo infamente, mas de separar dos cristãos uma categoria humana (os judeus) que lhes era semelhante e com a qual podiam ser confundidos." ((Dicionário Analítico do Ocidente Medieval Jacque Le Goff, Jean Claude Schmitt, volume 2, Editora Unesp, página 146)

Dessa forma, a Igreja Católica manteria a comunidade cristã coesa/uniforme, impedindo relações amorosas/sexuais entre católicos e judeus. 

d) O leproso:

A lepra provinha da conduta pecaminosa da pessoa. O contato com o mal tinha o condão de produzir estigmas nos corpos das pessoas.

Constava de um Código de Leis (Código de Rotário da Lombardia), no ano 635, século VII, acerca dos leprosos: O citado Código autorizava também "...a abandonar uma noiva que ficasse cega, louca ou leprosa, 'pois isso provém de seus pesados pecados e da doença que deles resulta' " (Dicionário Analítico do Ocidente Medieval, Jacques Le Goff e Jean Claude Schmitt, volume 2, editora Unesp, página 149)

e) A imundície:

O cheiro ruim exalado de um corpo poderia ser o sinal de que aquela pessoa tinha relação com algo ruim. A cultura cristã associava a sujeira aos vícios, à vida desregrada, que era sua origem ou  consequência. Um pecado podia ser associado à sujeira, ao mau cheiro. Essa sujeira era inerente ao pecador. Essa sujeira poderia ser passada adiante, caso o portador dessa imundície tocassa em alguém, daí a necessidade de se segregar os judeus. 

Os judeus, vistos como os culpados pela crucificação de Jesus, possuíam essa impureza, razão pela qual "...o Papa Inocêncio III considerava escandaloso que cristãos dessem aos judeus seu gado para abater e seu vinho para prensar." (Dicionário Analítico do Ocidente Medieval Jacque Le Goff, Jean Claude Schmitt, volume 2, Editora Unesp, página 149)

Leis então passaram a proibir que judeus e cristãos sentassem-se à mesma mesa, frequentassem os mesmos albergues, etc.

f) Certas profissões:

As pessoas que exercessem determinadas profissões também podiam se ver marginalizados. Os usurários, os carrascos, as prostitutas, etc

"O comerciante que cobrava juros vendendo o tempo que pertencia apenas a Deus, o mestre escola que vendia conhecimento, outra propriedade de Deus, só foram lentamente reconhecidos pelo seu trabalho. O carrasco, pelo ofício infame, também suscitava medo." (Dicionário Analítico do Ocidente Medieval, Jacques Le Goff e Jean Claude Schmitt, volume 2, Editora Unesp, página 151)

2) LIBERDADE E SERVIDÃO NA IDADE MÉDIA:

a) Introdução:

A decadência do Estado, com o subsequente desmoronamento do Império Romano do Ocidente, no século V, acabou por jogar muitos dos humildes da época no colo dos poderosos, numa relação de dependência. A relação se dava da seguinte forma: de um lado o Senhor, que disponibilizava proteção a alguém, contra a agressão de algum outro potentado local. Como contraprestação a essa proteção, esse alguém trabalhava para o Senhor que o protegia. Era trabalho em troca de segurança.

Se um camponês fosse atacado, ele não teria a quem recorrer. Não existia um Estado, uma polícia/poder Judiciário a quem recorrer, que pudesse vir em seu socorro. Ele só podia pedir ajudar ao seu Senhor. 

b) Séculos VI e VIII:

Entre os séculos VI e VIII na Europa Medieval, a separação entre liberdade e servidão é bem nítida. Era uma repetição do que acontecia na Antiguidade. Ao sujeito livre estava aberta a possibilidade de ir a qualquer lugar que desejasse. Sua capacidade jurídica de ir e vir não conhece limites. Ele pode celebrar contratos, transmitir herança, etc. Ele ainda não pode ser arbitrariamente castigado, posto que está submetido a tribunais públicos. A essas liberdades somam-se outras vindas do costume germânico: homem livre é aquele que anda armado, participa de guerras e da distribuição do butim proveniente delas. 

Já o escravo não tem um ordenamento jurídico que o resguarde. Um escravo não tem estatuto. A escravidão não é uma condição, mas um estado. 

"...inteiramente submetido ao poder se seu Senhor, o escravo (servus, ancilla, mancipium), não possui recurso algum contra aquele que pode castigá-lo impunemente." (Dicionário Analítico do Ocidente Medieval Jacque Le Goff, Jean Claude Schmitt, volume 2, Editora Unesp página 73)

Ademais, os frutos do trabalho do escravo não lhe pertencem. O escravo não pode possuir!

O escravo ainda não pode escolher seu cônjuge e seu senhor pode dispor de seus filhos. Não tem vínculo familiar. Um escravo equivale a um animal, de forma que ele é posto de fora da sociedade. 

"No âmbito da sociedade civil, o escravo é deliberadamente rebaixado ao nível de uma animal. Nas leis dos séculos VI a VIII, as cláusulas relativas à venda de escravos encontram-se em meio àquelas que se referem ao comércio do gado." (Dicionário Analítico do Ocidente Medieval, Jacques Le Goff e Jean Claude Schmitt, volume 2, editora Unesp, página 73)

Trata-se de um processo de dessocialização. Essa dessocialização, fundamental em qualquer regime escravista, perderá força conforme haja um nivelamento social, que aproximou escravos e pobres livres (pauperes). 

"O direito de vida e morte do senhor sobre o escravo foi abolido apenas no reino visigótico da Espanha, mas mesmo lá a situação dele não melhorou: os senhores privados do direito de matar seus escravos recalcitrantes submetem-nos com frequência a terríveis mutilações." (Dicionário Analítico do Ocidente Medieval Jacque Le Goff, Jean Claude Schmitt, volume 2, Editora Unesp, página 173)

c) Distinções entre os escravos:

Havia os escravos bons ou idôneos (idonei). Eram a minoria. Possuíam alguma especialidade técnica. Podiam ser ferreiros, carpinteiros, etc. Alguns, trabalhando na corte, podiam ser concubinas, escrivães, etc. Havia os escravos vis, vilíssimos (vilissimi). Constituíam a grande massa dos trabalhadores rurais. Esses escravos vis podiam surgir na forma de bandos que labutavam nos grandes domínios ou aqueles instalados numa terra concedida e recebida precariamente, sob certas condições, desfrutando de uma precária vida familiar. 

d) Sociedade dos livres:

Era composta pelos

d.1) Poderosos/Potentes: Constituíam uma riquíssima aristocracia. Eles são os primeiros (proceres, primates). Por delegação régia, eles detêm o quase monopólio das funções públicas. Em princípio, sua vocação é comandar e sua liberdade quase não conhece limites. 

d.2) Pobres (Pauperes): Os pauperes são aqueles que trabalham e obedecem. Em alguns casos, podem até não serem pobres, indigentes ou paupérrimos. Alguns eram donos de várias propriedades agrícolas. O que os caracterizava de verdade era a sua submissão. Submissão em graus variados a um poder. Aqueles que realmente caíam na miséria, buscavam o auxílio e a proteção de algum poderoso local, dando em contrapartida sua obediência e serviço. Outros ainda, sendo ainda mais pobres, vendiam-se a si próprios como escravos. A lei dos visigodos dizia sobre esses contratos de alienação pessoal:

"Qualquer um que pense em vender-se não é digno de ser livre." (Dicionário Analítico do Ocidente Medieval Jacque Le Goff, Jean Claude Schmitt, volume 2, Editora Unesp, página  75)

e) Início da Mudança nas concepções de Liberdade e Servidão:

A velha escravidão, aquela importada da Antiguidade, vai desaparecendo aos poucos. Aos poucos os escravos ascenderam para a classe livre dos pauperes. Progressos técnicos (uso da energia hidráulica, por exemplo) levaram à redução da necessidade do uso de mão-de-obra maciça. 

"...a multiplicação de moinhos à água libera as mulheres escravas da obrigação de passar uma grande parte do dia e da noite movendo as mós com seus próprios braços." ( Dicionário Analítico do Ocidente Medieval Jacque Le Goff, Jean Claude Schmitt, volume 2, Editora Unesp, página 76)

"Mas seria equivocado imaginar que a libertação dos escravos rurais decorre apenas de progressos técnicos ou de transformações econômicas. A conquista da liberdade foi uma luta, ardente e obstinada, que se desenrolou por séculos (...) Ela foi marcada, certamente, por rebeliões, muitas vezes sangrentas (no século III, no V e ainda em fins do século VIII, no reino das Astúrias), mas sobretudo por uma resistência surda e por fugas maciças (na Espanha e na Itália, nos fins das monarquias visigótica e lombarda)." (Dicionário Analítico do Ocidente Medieval Jacque Le Goff, Jean Claude Schmitt, volume 2, Editora Unesp, página 77)

"Em princípios do século XI, a escravidão de tradição antiga é apenas um vestígio anacrônico." (Dicionário Analítico do Ocidente Medieval Jacque Le Goff, Jean Claude Schmitt, volume 2, Editora Unesp, página 77)

Mas é preciso ter em mente que tipo de liberdade irá substituir a escravidão, a partir do século XI. O humilde que agora é livre verá sua liberdade desidratada. Ele não terá aquela liberdade de quem anda armado, participa de uma expedição guerreira, usufruindo o butim que dela resulta. Ele também se verá em desvantagem nos âmbitos judiciário e econômico. A evolução do armamento e dos métodos de combate torna insignificante as armas simples das pessoas comuns. A guerra é atributo de especialistas que combatem a cavalo, os milites (cavaleiros). 

O pobre livre é reduzido à condição de alguém que, por si só, não tinha como se defender (inermis).

O Camponês é, portanto, o "...homem desarmado e à mercê de todas as violências." (Dicionário Analítico do Ocidente Medieval Jacque Le Goff, Jean Claude Schmitt, volume 2, Editora Unesp, página 78)

A grande propriedade passa a ser a regra. Más colheiras e partilhas sucessórias fazem com que as pequenas propriedades desapareçam, fazendo com que haja uma concentração de terras nas mãos de poucas pessoas.

Com a ausência de um poder político centralizado (ruína do Império Carolíngio no século IX), o humilde se vê sem a garantia de uma justiça pública. Sem um poder central empoderado, o campo fica livre para a ação daqueles que possuíssem mais poder, os senhores castelães. Trata-se da aplicação da lei do mais forte. Na ausência do Estado, sob o império da anomia, o homem, mais do que nunca, torna-se o lobo do próprio homem.

"O Senhorio se estabelece." (Dicionário Analítico do Ocidente Medieval Jacque Le Goff, Jean Claude Schmitt, volume 2, Editora Unesp, página 78)

Quem são esses senhores que se aproveitam do vácuo de poder vigente? O senhor é geralmente o chefe de uma das inumeráveis fortalezas (castelos) que se constroem por toda part. Esse senhor impõe o seu "ban", que é o poder de comandar, julgar e castigar todos os homens que vivem em torno de seu castelo. Tais prerrogativas foram recebidas dos príncipes territoriais (condes, duques), que, por sua vez, receberam-nas do próprio rei. 

Os homens ainda teoricamente livres, que habitavam nessas áreas sob o comando de um senhor castelão, tinham que se submeter a ele. 

"O castelão e seus agentes arrogam-se também o direito de requisitar a casa do camponês e de consumir suas provisões (direito de asilo ou de pousada)" (Dicionário Analítico do Ocidente Medieval Jacque Le Goff, Jean Claude Schmitt, volume 2, Editora Unesp, página 77)

O camponês então, mesmo sendo teoricamente livre, via-se tiranizado por esses senhores. Poderíamos fazer uma analogia com o que acontece atualmente na cidade do Rio de Janeiro, onde cidadãos livres se veem controlados por grupos de milícias e de tráfico de drogas. Bairros inteiros sob o império de traficantes ou milicianos. A ausência do Estado, em qualquer época, possibilita que grupos armados organizados tiranizem os habitantes de uma determinada área. 

O Senhor ainda podia fazer o papel de juiz, impondo multa e confisco de bens. 

Essa forma de dependência entre o senhor castelão e o camponês foi chamada de Servidão.

f) Feudalismo:

Sociedade fundada no vínculo pessoal (relação de dependência). Na ausência de um poder político central, que a todos vinculasse de forma impessoal, o que fornecia liga àquela sociedade era o vínculo entre as pessoas, entre o vassalo e o seu suserano/senhor. 

Na sociedade feudal, encontramos de um lado os senhores do "Ban" e seus auxiliares, a saber, no essencial, os barões e seus cavaleiros; de outro lado, temos aqueles que, independentemente de seu estatuto teórico, estavam submetidos às imposições do senhor castelão. 

Os senhores são os livres entre os livres, nascidos em berço nobre, que não sofrem coação de nenhum poder e, protegendo grandes e pequenos, protegem-se a si próprios. A sua liberdade pode ser traduzida pela impunidade e imunidade. Em torno dele, reúnem-se uma tropa de vassalos, que não são iguais entre si. Na verdade, há um encadeamento. Uma mesma pessoa pode ser vassalo e senhor. "A" é vassalo de "B", um senhor castelão. Ao mesmo tempo, "A" pode ser senhor de "C", que será seu vassalo. 

A liberdade no feudalismo tornou-se uma questão de classe social e não de ordem jurídica, como acontecia na Antiguidade e no início da Idade Média . 

"O fato é que a clivagem entre livres e não livres não é mais de ordem jurídica como na Antiguidade e na alta Idade Média, mas de cunho social." (Dicionário Analítico do Ocidente Medieval Jacque Le Goff, Jean Claude Schmitt, volume 2, Editora Unesp, página 80)

3) CAVALARIA:

Na Cavalaria, não entra quem quer. Reis, príncipes e senhores filtram quem pode ou não pode ser um cavaleiro. De guerreiro a cavalo, o cavaleiro se torna aristocrata (nobre). São, antes de tudo, soldados. São os milites, os chevaliers. 

"...o Cavaleiro forma um todo com sua montaria e esse projétil vivo beneficia-se da potência que lhe confere o galope do cavalo." (página 213)

Há um choque frontal. O cavaleiro usa uma lança em posição horizontal fixa. 

"...a carga compacta de cavaleiros, lança estendida na horizontal, adquire terrível força de penetração, capaz de desbaratar as fileiras adversárias e provocar o medo, o pânico e a fuga do inimigo." (Dicionário Analítico do Ocidente Medieval, Jacques Le Goff e Jean Claude Schmitt, editora Unesp, volume 1 213). 

Além de representar uma força ofensiva formidável, ainda cercava-se de muitas defesas. 

"Nos séculos XI e XII, o cavaleiro protege seu corpo graças à loriga, cota de malha flexível de uns dez quilos, reforçada no século XIII, para ceder lugar, nos séculos XIV e XV, às armaduras rígidas, mas articuladas, que transformavam o cavaleiro em verdadeira fortaleza montada, quase invulnerável se ele estivesse a cavalo, mas terrivelmente exposto e frági quando, desmontado, ele fica no chão, à mercê da adaga dos infantes (chamada, aliás, 'misericórdia'), capaz de penetrar nos interstícios da couraça e conduzir à morte ou, pelo menos, à sua ameaça para obter rendição." (Dicionário Analítico do Ocidente Medieval, Jacques Le Goff e Jean Claude Schmitt, editora Unesp, volume 1, página 213/214)

O cavaleiro da Idade Média era, portanto, uma espécie de carro blindado da época moderna. 

As origens dos cavaleiros datam de antes do ano 1000. Nessa época, os grandes senhores tinham se cercado de uma clientela formada por vassalos e combatentes profissionais, encarregados, logicamente, de protegê-los e ajudá-los no exercício do poder que eles encarnavam. Com o colapso do poder central, consubstanciado na ruína do Império Carolíngio no século IX, o poder se dividiu, ficando nas mãos de vários tipos de senhores, que irão se valer dos serviços desses cavaleiros, no contexto de uma sociedade feudal em crescimento. 

O Império Carolíngiou colapsou a partir de meados do século IX, sendo atingido por ataques desferidos pelos Vikings, húngaros e sarracenos. O Império acaba sendo dividido entre os filhos de Luís, o Piedoso (Tratado de Verdum de 843). O título imperial acaba por perder significado e o poder central fragmenta-se nas mãos de inúmeros senhores (condes, príncipes, etc.

"A pulverização do poder público acentua-se ainda mais nos séculos X e prossegue no século XI. O poder de mando de origem pública não desaparece, mas, despedaçado, reparte-se segundo uma hierarquia variável no seio das elites da aristocracia militar, dos príncipes aos condes, dos condes aos castelões e dos castelões aos mais poderosos senhores. Aí, esse poder encontra um outro, o do senhor rural sobre seus homens, seus dependentes. O Estado não mais se resume a uma relação privilegiada entre o Soberano e o aristocrata militar: ele está compreendido no conjunto de relações sociais que estruturam essa classe aristocrática; é exatamente isso que constitui a revolução feudal." (Dicionário Analítico do Ocidente Medieval Jacques Le Goff e Jean Claude Schmitt, editora Unesp, volume 1, página 449)

O sujeito tornava-se cavaleiro por meio de um ritual, conhecido como Adubamento. Por meio do adubamento, geralmente um jovem, era admitido como cavaleiro. Armas eram entregues para ele. A Igreja também participava, abençoando-o. 

Os cavaleiros eram também conhecidos como Milites

4) NOBREZA

Tratava-se de uma sociedade dominada por uma classe superior. Vários substantivos nomeiam-na: optimates, proceres, majores, illuster, nobilis. O nobre quer escapar de todos os controles que limitam a ação do homem comum. Casa-se na sua classe. Evita se misturar com quem não é de sua classe. É uma nobreza de sangue. A nobreza justifica seus privilégios no campo de batalha, no qual derrama o seu sangue, como um tributo, que servirá como justificativa para que se veja livre de qualquer controle ou limitação. 

O conceito de Nobreza veio de dois lugares:

a) Da Antiguidade Clássica. Das Instituições romanas. Não obstante as invasões bárbaras, muita coisa do Império Romano do Ocidente foi preservada, tais como a noção de cidadão, autoridade pública, Estado, etc.

b) Tradição Germânica: Aqui a nobreza notabilizou-se pela Libertas, que era a faculdade de dispor de si e de seus bens, a capacidade de julgar, o direito de comandar, proibir, punir, proveniente do nascimento e da propriedade.

No fim, houve um amálgama entre as duas tradições, a romana e a germânica, na construção do conceito de Nobreza.

A transmissão da nobreza, de seu nome, estatuto, patrimônio poder e condição de nobre.

A nobreza era pouco numerosa. Com seus casamentos consanguíneos, ela gerava gerações de pessoas doentes. dos quais se defaz, enviando-os para conventos, mosteiros. Cegos, caolhos, pernetas, mancos, disformes em geral, todos eles nobres de nascimento. A nobreza ainda perde muitos de seus membros em guerras. Participar de guerras era o tributo que a nobreza pagava para conseguir seu estatuto de privilegiado.

Ligação entre o Rei e a Nobreza

Os carolíngios criaram uma ponte entre si e os nobres autóctones e estrangeiros. E eles iam além da nobreza de sangue. Os carolíngios criaram uma espécie de nobreza que era alcançada por meio de serviços prestados ao Soberano. 

É criada ainda uma relação de simbiose entre o Rei e a Nobreza. Uma não poderia existir sem a outra. Sem rei não há nobreza e sem nobreza não há rei. A nobreza também terá uma relação umbilical com a Igreja Católica. Vários membros da Nobreza tinham cargos na Igreja

Com a crise do Império Carolíngio, no século IX, o poder central esfarela-se. O poder que estava na mão do Imperador passará para as mãos de inúmeros senhores, detentores daquilo que era chamado de senhorio banal, proveniente do Bannum (Ban), que era o poder de comandar, proibir, punir, etc. 

Ascensão à nobreza:

Alguém podia se tornar nobre, como já dito acima, prestando serviços a algum grande senhor, que possuísse poder para fazê-lo um nobre. Em meio ao caos do século X, senhores vários (reis, príncipes, etc), cercavam-se de pessoas, de uma clientela, para ajudá-los nos mais diversos assuntos. Cercam-se, sobretudo, de Milites, os combatentes a cavalo (cavaleiros). Se prestassem bons serviços, esses Milites recebiam feudos (uma propriedade com alguma residência fortificada). Esses Milites deviam obediência ao seu senhor, deviam dar a sua vida para ele em meio a um combate, etc. Deveriam ainda combater os hereges, proteger as mulheres, os órfãos, pobres, etc. Com o passar do tempo, esse cavaleiro poderá se tornar um nobre

Um título de nobre também poderia ser concedido por um Senhor que tivesse poder para tanto, geralmente um rei, um Imperador ou um príncipe. 

Tudo isso foi um meio para "....rejuvenescer a nobreza, de preencher as lacunas e sobretudo enriquecê-la com numerosos e competentes fiéis. O Estado, que estende seu controle ratione materiae et loci, necessita cada vez mais de auxiliares de confiança." (Dicionário Analítico do Ocidente Medieval Jacques Le Goff e Jean Claude Schmitt, editora Unesp, volume 2,  página 323)

Fim da Idade Média:

Não teve o condão de acabar com a Nobreza. Houve adaptações às circunstâncias. Conservava a sua vocação militare suas ambições políticas. Continuava buscando escapar dos controles estatais que limitavam o restante de população. Alguns trocam o campo pela cidade. Continuam ocupando excelentes cargos no serviço militar e no serviço civil. 




quinta-feira, 30 de maio de 2024

A vida é um Pesadelo


 Otto Dix, artista alemão, que conheceu os horrores da 1° Guerra Mundial. 


Minha mãe morreu no dia 21 de dezembro de 2023

Durante uns 4 meses não sonhava com ela

Mas tudo mudou ultimamente

Sonho intercalado com pesadelos

E os piores pesadelos, nos quais eu a vejo sangrar outra vez, acontecem geralmente naquele momento em que, depois de acordar, você volta a dormir. É aquilo que é representado pelo botão "soneca" do despertador

A vida, definitivamente, é um pesadelo, do qual só irei acordar quando vier a morrer.