terça-feira, 4 de junho de 2024

Regicídio Parricídio FilIcídio Mariticídio e Duplo Parricídio Hediondo na Rússia do século XVIII

DURANTE O SÉCULO XVIII, NA RÚSSIA CZARISTA, HOUVE UMA SÉRIE DE HOMICÍDIOS, DE REIS, DE FILHO PELO PAI, DE PAI PELO FILHO, DE MARIDO PELA ESPOSA E UM CASO TENTATIVA DE DUPLO PARRICÍDIO HEDIONDO.


1) TENTATIVA DE DUPLO PARRICÍDIO HEDIONDO E FILICÍDIO:


Pedro I, o Grande

Alexei

Alexei era filho de Pedro I, Imperador da Rússia. Pedro I foi o criador da moderna Rússia. Venceu a Suécia na Grande Guerra do Norte, participando inclusive da Batalha de Poltava, em 1709. Criou a cidade de São Petersburgo. Criou a frota naval russa. Pedro I abriu a Rússia para o Ocidente. Trouxe para a Rússia a tecnologia e muitos costumes ocidentais. Procurou casar princesas russas com a nobreza alemã. Não era um homem religioso. Ele tinha um único herdeiro, seu filho Alexei. Alexei era o contrário de Pedro. Alexei era um russo tradicional. Não aprovava, por exemplo, o casamento de russos com estrangeiras. Era religioso. Não tinha interesse por assuntos militares. Não tinha interesse pela frota naval de seu pai. Sua mãe, Eudóxia, tinha sido mandada para um Monastério, para que Pedro, enjoado dela, pudesse se casar outra vez. Na visão de Pedro I, Alexei era um herdeiro insatisfatório. Pedro I temia que seu filho jogasse no lixo todo o seu legado. Mas era seu filho e ele tentou corrigi-lo, dizendo-lhe que, caso ele não se emendasse, iria eliminá-lo da sua sucessão, como se imputa um membro inútil. 

"Pai (Pedro) e filho (Alexei) se estranhavam. Durante uma festa, Pedro se abriu parao embaixador da Dinamarca: quando um monarca arrisca a vida para criar um país respeitável, será que deveria deixar o trono para um tolo que começaria a destruição de todas as suas realizações? Se a gangrena começa no dedo, disse Pedro, mostrando o polegar ao embaixador, não serei obrigado a cortá-lo fora?" ( Os Románov, Simon Sebag Montefiore, 1613-1918, editora Companhia das Letras, página 173)

Diante da pressão que sofria, em 1716, Alexei acabou fugindo. Buscou refúgio na corte austríaca. Alexei nutria a esperança de derrubar seu pai do trono russo. Ele pretendia restabelecer a capital em Moscou, abandonaria a frota naval do pai e não faria mais guerras. Para Pedro I, diante de tal desrespeito, era uma questão de honra trazer seu filho de volta e puni-lo. Pedro I conseguiu trazer seu filho de volta, em janeiro de 1718.

"O pai furioso e o filho ansioso convergiram para Moscou para um embate sombrio." ( Os Románov, Simon Sebag Montefiore, 1613-1918, editora Companhia das Letras, página 178)

Alexei acabou sendo preso. Foi torturado de forma atroz. Pedro descobriu o intento golpista de seu filho. Alexei, por ordem de seu pai, acabou condenado à morte por parricídio duplo hediondo, contra Pedro I, que era o pai de seu país, a Rússia, e seu pai por natureza.

Em razão das torturas, Alexei acabou morrendo em junho de 1718. 


2) REGÍCIDIO E MARITICÍDIO

Pedro e Catarina

Catarina II, a Grande, com quase 60 anos de idade

Em 1741, a Rússia tinha uma nova governante, a Imperatriz Isabel, que era filha da Pedro, o Grande. Ela nunca se casou. Não tinha herdeiros, razão pela qual foi atrás de um herdeiro na Alemanha, no ducado de Holstein. Tratava-se de Karl Peter Ulrich, seu sobrinho, filha de sua irmã, duque de Holstein, neto de Pedro, o Grande. Ao chegar à Rússia, Karl Peter começou seu aprendizado da língua russa e da religião ortodoxa, adotando o nome de Pedro Fiódorovitch. Na sequência, Isabel foi atrás de uma noiva para Pedro. Essa noiva foi buscada na Alemanha. A escolhida foi Sophie, princesa de um pequeno estado alemão, de Anhalt-Zerbst. Chegando na Rússia em 1744, Sophie foi rebatizada como Catarina. A relação entre Pedro e Catarina sempre foi conturbada. A Imperatriz Isabel esperava que aquele casal que não se amava fornecesse um herdeiro para o Império russo. E ele veio em em 1754, quando Catarina deu à luz um filho, que ela chamou de Paulo. Enquanto dava à luz, Pedro se embebedava com seus cortesãos. Paulo era filho de Pedro ou de algum dos amantes de Catarina? Catarina teria escrito que Paulo não era filho de Pedro. Seria então filho de seu amante, Saltikov? 

"Na verdade, Paulo não tinha nada do le beau Saltikov, mas também não se parecia com Pedro nem se comportava como ele." ( Os Románov, Simon Sebag Montefiore, 1613-1918, editora Companhia das Letras, página 254)

Com a morte de Isabel, em 1761, Pedro assume o poder na Rússia como Pedro III. Seu governo foi errático desde o início, angariando contra si antipatia e desprezo. As pessoas que odiavam Pedro uniram-se em torno da figura de Catarina, que nela viam uma alternativa de poder. Entre essas pessoas, estava seu amante, Grigóri Orlov. Grigóri Orlov e seus 4 irmãos eram populares entre os militares russos da Guarda. O mais popular era Alexei Orlov, que tinha o apelido de Cicatriz, notório pela sua força bruta e pela sua falta de coração, justamente o tipo de assassino que seria necessário para a derrubada de Pedro.

A queda de Pedro III ocorreu em junho de 1762. O poder ficou com Catarina, que governaria a Rússia enquanto seu filho Paulo não atingisse a maioridade. Essa era a ideia original. No fim, Catarina ficou no poder até a sua morte, quando então Paulo assumiu o seu lugar. Como foi o fim de Pedro III? Catarina lançou um comunicado dizendo que Pedro tinha morrido de cólica hemorroidal. Esse diagnóstico absurdo acabou se tornando, durante o século XVIII, um eufemismo para assassinato político.

"Quando Catarina convidou o philosophe Jean d' Alembert para uma visita, ele respondeu brincando que não se atrevia a ir, pois sofria de hemorroidas, uma condição muito perigosa na Rússia." ( Os Románov, Simon Sebag Montefiore, 1613-1918, editora Companhia das Letras, página 272)

Na realidade, Pedro III foi morto por estrangulamento, pelo irmão do amante de Catarina, Alexei Orlov, o Cicatriz. 

Ao saber da morte de Pedro, Catarina teria achado que ficaria marcada para sempre por um mariticídio e um regicídio. 

"Minha glória foi arruinada, a posteridade nunca me perdoará. Mas a posteridade a perdoou." (Os Románov, Simon Sebag Montefiore, 1613-1918, editora Companhia das Letras, página 271)

De fato, ninguém mais falou no mariticídio e no regicídio. Catarina II passou para a história como Catarina, a Grande. No seu governo, a Rússia teve muitas vitórias militares e muitas conquistas territoriais. A Rússia, no governo de Catarina II, conquistou a península da Criméia e várias cidades que hoje fazem parte (ou faziam) da Ucrânia, como Odessa, Mariúpol, Dnipropetrovski, etc. Sob Catarina II,, a Ucrânia era chamada de a Nova Rússia.


3) REGÍCIDIO E PARRÍCIDIO


Alexandre I

Paulo I "Deixe que me odeiem, desde que me temam"

Com a morte de Catarina II, a Grande, Paulo, seu filho, assumiu o trono russo. Governou de 1796 até ser assassinado, em 1801. Paulo foi um legítimo autocrata. Ele batia no peito e dizia que a lei estava aqui. Era uma emulação da frase do rei francês Luís XIV, que dizia que "O Estado sou eu." Durante seu governo, ele criou muitos desafetos, inclusive entre os nobres russos. Paulo revogou a lei que proibia punição física aos nobres. Ele batia publicamente nas pessoas. Ele citava a máxima de Calígula: "Deixe que me odeiem, desde que me temam. Mas, além de ser temido, Paulo também era visto como objeto de chacota. E nada prejudica mais o poder de um soberano do que quando ele é alvo de risos. As pessoas riam dele, por exemplo, pela mania que ele tinha de vestir o exército russo como se fosse um exército prussiano. A gota d'água que transbordou o copo de Paulo foi a sua aliança com Napoleão. Durante as guerras napoleônicas, num primeiro momento, Paulo fez a Rússia se aliar com a Inglaterra e com a Áustria na guerra contra Napoleão. A Rússia obteve vitórias contra a França no norte da Itália. Mas essa aliança com a Inglaterra e com a Áustria não foi exitosa, de forma que Paulo alterou sua política, passando a considerar a França como aliada e a Inglaterra como inimiga. Paulo chegou a cogitar uma coalizão com a França para invadir a Índia britânica.

"Em questão de meses, Napoleão e Paulo estavam planejando um esquema fantástico para mandar o general francês Masséna, com 35 mil homens, para se juntar em Astracã (Astrakhan) com um exército russo de 35 mil infantes e 50 mil cossacos. Juntos, eles atravessariam o Mar Cáspio, para capturar Kandahar e em seguida invadir a Índia Britânica." (Os Románov, Simon Sebag Montefiore, 1613-1918, editora Companhia das Letras, página 346)

Enquanto Paulo planejava invadir a Índia Britânica, seus súditos mais próximos planejavam a sua queda, a favor de seu filho, Alexandre. Apesar de todo cuidado tomado por Paulo, ele acabou sendo apeado do poder. Foi assassinado de forma brutal. Seu filho Alexandre participou da conspiração. Mas ele foi enganado, pois disseram a ele que seu pai não seria morto. Mas isso era pura ingenuidade. Um imperador não poderia governar em paz tendo um imperador deposto vivo. Não se poderia, enfim, fazer um omelete sem quebrar os ovos, de forma que Paulo teria que ser morto. 

Ao saber da morte de seu pai, Alexandre entrou em desespero e disse:

"O povo vai dizer que sou o assassino do meu pai, soluçou Alexandre. Prometeram-me que a vida dele seria poupada. Sou a mais infeliz das criaturas." (Os Románov, Simon Sebag Montefiore, 1613-1918, editora Companhia das Letras, página 357)

Infeliz ou não, Alexandre assumiu o trono russo, sob o manto de um parricídio e de um regicídio. 

"O assassinato do pai paraiva sobre ele (Alexandre) como um abutre, e ele costumava ver na imaginação o corpo de Paulo mutilado e ensanguentado nos degraus do trono. Ficava horas sozinho, sentado em silêncio." ( Os Románov, Simon Sebag Montefiore, 1613-1918, editora Companhia das Letras, página 361)

Apesar disso tudo, Alexandre I, como viria a ser conhecido, teve um bom governo. Ele ajudou a derrotar Napoleão Bonaparte. Era ele que estava no governo quando Napoleão invadiu a Rússia em 1812. Alexandre I repeliu a invasão russa e, ao lado de austríacos, prussianos, alemães e ingleses, derrotou Napoleão. O exército russo ocupou Paris. Alexandre ainda seria importante na configuração europeia pós-napoleônica. Alexandre, ao lado da Áustria e da Prússia, criou a Santa Aliança, um acordo que visava impedir que uma nova Revolução Francesa voltasse a acontecer na Europa. Ele morreu em 1825.

ANOTAÇÕES EXTRAÍDAS DA LEITURA DO LIVRO "OS ROMÁNOV 1613-1918", SIMON SEBAG MONTEFIORE, EDITORA COMPANHIA DAS LETRAS.



Nenhum comentário: