quinta-feira, 5 de maio de 2022

Fatos que antecederam a Batalha das Ardenas








A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL DEVERIA TER TERMINADO EM DEZEMBRO DE 1944:

Nos meses de agosto e setembro de 1944, imperava um clima de otimismo entre os aliados. Depois de dificuldades enfrentadas durante o Dia D, os aliados tinham conseguido avançar pela Bélgica e para Paris. 

Em 24 de agosto, os aliados libertaram Paris. Em setembro, os aliados libertaram a capital da Bélgica, Bruxelas.

Antes disso, em julho de 1944, um atentado contra Hitler, na sua Toca do Lobo, na Prússia Oriental, tinha criado entre os aliados o pensamento de que a Alemanha Nazista estava desmoronando, estava se desintegrando, assim como acontecera em setembro e outubro de 1918, quando o Império Alemão se viu confrontado por revoltas internas, capitaneadas por trabalhadores e militares, que levaram ao armistício de novembro de 1918.

Aliados Alemães, como Romênia, Bulgária e Finlândia começavam a abandonar o Terceiro Reich. Os soviéticos, depois de derrotarem o Grupo de Exércitos Centro, correram para o Vístula e para a fronteira da Prússia Oriental.

Enfim, todos esses acontecimentos criaram na mente dos aliados o sentimento de que a guerra iria terminar em dezembro de 1944. Esse era o sentimento entre os ingleses e os americanos. Estes últimos chegaram a cancelar a compra de armamentos, como artilharia. O pensamento americano agora voltava-se para a guerra no Pacífico, contra o Japão. Os ingleses, por sua vez, davam como certo que a guerra terminaria no natal de 1944.

APESAR DO OTIMISMO, NEM TUDO ERAM FLORES ENTRE OS ALIADOS:

Apesar do otimismo, havia problemas para os aliados. O principal deles dizia respeito ao abastecimento. Os aliados precisavam de um grande porto, pelo qual pudessem escoar todo o material militar desembarcado, além de combustível e rações para as tropas. Os portos de Dunquerque e Calai tinham sido destruídos pelos alemães. O porto de Antuérpia, no estuário do Escalda, na Bélgica, ainda contava com tropas alemãs que impediam o seu uso. Outro problema era que o sistema ferroviário francês tinha sofrido com os bombardeios aliados antes da invasão do Dia D. Sem o acesso aos trens, os aliados tinham que usar caminhões. Foram quase nove mil caminhões, que faziam viagens diárias entre o litoral francês e o front. Somente a riqueza econômica americana seria capaz de arcar com o uso de tantos caminhões e com o combustível usado para fazê-los rodar.

RUSGAS ENTRE OS ALIADOS:

Nesse final da Guerra, os ingleses começavam a se sentir preteridos. No começo, foram os ingleses que, praticamente sozinhos, seguraram Hitler. Agora, em agosto/setembro de 1944, o então protagonismo inglês foi deixado de lado. Os protagonistas agora eram os EUA que, com a sua riqueza em homens, combustíveis, materiais bélicos e alimentos, comandavam as ações contra os alemães. Isso gerou ciúmes entre os ingleses. 

Em meio a tudo isso, encontrava-se o General Dwight Eisenhower, o líder dos Aliados na invasão à França. Eisenhower teve que administrar, por exemplo, o ego do General inglês Montgomery, que pretendia ser a principal figura na ação militar que desencadeasse a derrota final da Alemanha. Mas Eisenhower tinha que lidar também com generais americanos, como Bradley e Patton. Desses dois, Patton tinha sido aquele que mais sucesso obteve, avançando de forma contundente pelo centro do território francês. 

TÁTICAS DIVERGENTES:

Os aliados tinham visões diferente de como dar a estocada final nos alemães. Pelo lado dos ingleses, o general Montgomery pretendia desferir o golpe final indo pelo litoral do Mar do Norte, atravessando então o Rio Reno e chegando no Ruhr, a região alemã rica em carvão, responsável pela sua produção bélica. Já os americanos pretendiam seguir para a região alemã do Saar. Em meio a essas divergências, Dwight Eisenhower, como comandante máximo das forças aliadas, tinha que decidir qual caminho seguir. 

OPERAÇÃO MARKET GARDEN:

Planejada pelos ingleses, pelo General Montgomery, ela seguia o plano de invadir a Alemanha seguindo pelo norte, passando pela Holanda, na cidade de Arnhem, atravessando então o Rio Reno e indo depois para a região do Ruhr. A operação contava com forças aerotransportadas. Montgomery acreditava que os alemães, que defendiam a região em torno de Arnhem, estavam desmotivados e sem força para responder a um ataque. No fim, a Operação Market Garden foi um retumbante fracasso. 

A CAMPANHA DE OUTUBRO DE 1944:

A Batalha de Aachen - 14/10/1944: Aachen, cidade alemã situada logo depois da fronteira holandesa. Capturá-la significava romper a linha de defesana fronteira ocidental do Reich alemão, chamada de Siegfried ou de Westwall. Aachen foi a cidade de Carlos Magno, então a capital do Sacro Império Romano Germânico. Chamada de Aix-La-Chapelle pelos franceses e Aquisgrano pelos romanos. Agora, em outubro de 1944, era apenas uma cidade que deveria ser conquistada pelos Aliados em sua marcha para alcançar o Rio Reno. Em 21 de outubro, Aachem se rendeu aos alemães. O Rio Reno agora estava a uma distância de 30 km. Parecia fácil percorrer esses 30 km, mas havia um obstáculo formidável pela frente, a Floresta de Hurtgen. 

A BATALHA NA FLORESTA DE HURTGEN:

Localizada a sudeste de Aachen, a floresta de Hurtgen seria um obstáculo terrível para os americanos. O 1º Exército americano, sob o comando do Tenente General Courtney H. Hodges, teria que atravessá-la para atingir o Rio Reno. Havia outra opção, mas o Tenente General Hodges insistiu nela e nenhum de seus subordinados ousava desafiá-lo. Lutar numa floresta colocava em desvantagem a superioridade americana em número de carros blindados. O apoio aéreo também ficava prejudicado. 

A batalha em meio aos Pinhais que formavam a Floresta de Hurtgen foi feita sob um constante fogo de artilharia, de ambos os lados. 

A artilharia disparava deliberadamente para que os projéteis explodissem no topo das árvores. O resultado disso era uma chuva de estilhaços da bomba com lascas de lascas de madeira caindo sobre os soldados, que corriam para dentro das trincheiras em busca de alguma proteção. Mas as trincheiras também podiam trazer problemas para os soldados que nelas buscavam refúgio. O frio intenso e a umidade causavam o "pé de trincheira', que nos casos mais graves poderia redundar na amputação do pé do soldado. 

Além da Artilharia, havia ainda as minas terrestres, usadas em abundância. Uma vez um soldado americano afastou, com um chute, uma bota ensanguentada. Depois esse mesmo soldado estremeceu de pavor ao ver que ainda havia um pé ali dentro. O dono daquele pé deveria ter pisado numa das milhares de minas espalhadas pela floresta. 

"Havia um fluxo constante de soldados feridos a sair da floresta, escreveu o jovem artilheiro Arthur Couch, 'Reparei num homem que estaria agarrado à barriga num esforço para conter um grande ferimento que lhe deixava sair os intestinos.' " (página 99)

"Um sargento mais velho disse-me para me deitar atrás das pedras altas e depois movimentar-me na direção onde explodira a última peça de artilharia alemã. Disse que era o mais seguro a fazer, uma vez que os artilheiros alemães sempre viravam um bocadinho o seu canhão para atingir outra posição. Eu (Arthur Couch) corri em direção à última explosão e a seguinte ocorreu a 30 metros de distância. Foi um conselho que me salvou a vida." (página 99)

Os homens que combateram na floresta de Hurtgen vivenciaram casos de esgotamento nervoso/fadiga de combate. 

"Depois de lá passar 5 dias, falamos com as árvores, dizia uma das poucas piadas. Ao sexto dia, elas começam a responder-nos." (página 108)

"Bem, não é muito mau até os soldados de infantaria ficarem tão cansados que, quando saem da linha há um soldado morto da sua própria unidade deitado de costas no seu caminho, não são capazes de desviar os pés, e pisam no rosto rígido porque...que se lixe." (página 108)

Enquanto os combates se desenrolavam em meio aos pinhas da Floresta de Hurtgen, o 3º Exército de Patton, a sua da Floresta de Hurtgen, conquistava a cidade/fortaleza de Metz. Descendo ainda mais para o sul, forças americanos e francesas conquistaram a cidade de Estrasburgo, na Alsácia. A norte, os britânicos, sob o comando de Montgomery, avançavam pela fronteira holandesa/alemã, a partir de Nijmegen.

POR QUE OS ALEMÃES DEFENDERAM A FLORESTA DE HURTGEN COM TANTO AFINCO?

Era para evitar uma penetração das forças aliadas a norte do ponto inicial daquilo que viria a ser a última cartada de Hitler na guerra, a Ofensiva das Ardenas. Basta uma olhada no mapa para ver que o setor da Floresta de Hurtgens estava localizado naquilo que seria o flanco norte do avanço alemão pelas Ardenas. Os alemães não poderiam se dar ao luxo de iniciar uma ofensiva tendo, à sua direita, forças aliadas. A resistência alemã era empreendida por elementos do Grupo de Exércitos Centro, sob o comando do Generalfeldmarschall Model.



PREPARATIVOS PARA A OFENSIVA DAS ARDENAS:

Hitler teve a ideia da Ofensiva das Ardenas no mês de setembro de 1944. Hitler estava na Prússia Oriental, na Toca do Lobo (Wolfsschanze). Ele estava doente, com icterícia, mas não deixava de pensar numa forma mudar o curso da guerra. 

Na Alemanha, a Ofensiva das Ardenas seria chamada de Herbstnebel (Neblina de Outono)

Hitler achava que a aliança entre os capitalistas (França, Grã-Bretanha, EUA) e os comunistas (URSS), mais cedo ou mais tarde, iria ruir. Ela não poderia se sustentar, pois não era algo natural. A previsão de Hitler iria se concretizar, mas só depois do fim da Segunda Guerra Mundial, com a eclosão da Guerra Fria entre os EUA e a URSS. 

Hitler ainda acreditava que só se defender os ataques dos aliados, a leste e a oeste, não resultaria em nada de positivo para a Alemanha. Era necessário uma ofensiva que poderia mudar a sorte da guerra. O objetivo era avançar em direção ao porto de Antuérpia, na Bélgica. Com esse avanço, Hitler queria dividir os aliados, com canadenses e britânicos no norte, e americanos e franceses no sul, criando assim uma nova Dunquerque. A captura do porto de Antuérpia ainda iria dificultar a logística dos aliados, impedindo que seus navios  usassem o porto para abastecer as tropas no front. Enfim, os alemães não poderiam ficar somente se defendendo. A Alemanha teria que se arriscar para tentar mudar o curso da guerra. A escolha pelas Ardenas se deu pelo fato de ser a área menos defendida pelos Aliados. Outro motivo foi o fato das tropas alemãs ficarem concentradas na floresta de Eifel, do lado alemão da fronteira. Ali os alemães ficariam protegidos de ataques aéreos dos aliados. 

OS ALIADOS FORAM PEGOS DE SURPRESA:

O Comando Aliado do SHAEF (Quartel-General Supremo da Força Expedicionária Aliada), com sede em Versalhes, não fazia ideia que os alemães vinham preparando uma ofensiva nas Ardenas. Os aliados foram pegos de surpresa. Em 15 de dezembro, um dia antes do início da ofensiva alemã, um oficial de operações do SHAEF disse que não havia nada a reportar relativamente ao setor das Ardenas. A tranquilidade entre os aliados era tão grande que o Marechal de Campo Montgomery perguntou a Eisenhower se poderia passar o natal na Inglaterra. 

Os aliados achavam, naquele final de 1944, que a Alemanha nazista estava fragilizada demais para empreender uma ofensiva. 

O ESTÍMULO PARA O SOLDADO ALEMÃO CONTINUAR LUTANDO:

Soldados alemães envolvidos na ofensiva das Ardenas, por meio de cartas enviadas para casa, exprimiam a esperança de que a ofensiva seria a chance de expulsar os aliados da Alemanha. Havia ainda a propaganda feita por Goebbels, que usava o medo para manter viva, no soldado alemão, a vontade de lutar, mesmo diante de tantas dificuldades. A tática de Goebbels consistia em espalhar entre os soldados que eles, caso fossem capturados pelos americanos, seriam entregues aos russos. Seriam enviados para a Sibéria. O Slogan de Goebbels era: SIEG ODER SIBIRIEN (Vitória ou Sibéria).

INÍCIO DA OFENSIVA DAS ARDENAS:

Sábado, 16 de dezembro de 1944. A artilharia do 6º Exército Panzer de Sepp Dietrich abre fogo contra as posições americanas. 

ANOTAÇÕES EXTRAÍDAS DA LEITURA DO LIVRO "A BATALHA DE ARDENAS, A ÚLTIMA CARTADA DE HITLER", ANTONY BEEVOR, EDITORA BERTRAND


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